Felizardo versus Felicíssimo, uma relação surpreendente

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Aldeia da Pedreira, Tomar.
COTEC728

Aprendi bastante com Felizardo; nomeadamente, no que concerne a resistência passiva e capacidade e sentido de momento certo para enfrentar dificuldades e situações adversas, como aconteciam na relação do carrasco/demónio que era Felicíssimo, com o pacífico e bem-intencionado ser vivente, Felizardo, de sua amarga graça.

Por Brasilino Godinho *

Hoje trago ao conhecimento dos leitores uma verídica e interessante história na qual sou parte integrante.

No meu tempo de criança e adolescente, primeiro frequentando a escola de Ensino Primário e depois a Escola Industrial e Comercial Jácome Ratton, na cidade de Tomar, costumava passar férias na aldeia Pedreira, em casa dos meus avós paternos. Para ocupar o tempo tinha por hábito acompanhar as tarefas agrícolas dirigidas pelo caseiro Felicíssimo, que também tratava do burro a que pusera o nome de Felizardo, com nítida intenção pejorativa.

De assinalar que era empolgante assistir às peripécias do relacionamento atribulado entre o caseiro Felicíssimo e o burro Felizardo; embora me desagradasse presenciar as ocasionais e desabridas agressões físicas de que era vítima o Felizardo; o qual, infelizmente, estava longe de o ser, sempre que estivesse por perto o Felicíssimo.

A manhã começava com a chegada de Felicíssimo ao curral de Felizardo e a saudação nada amistosa ao animal em tom agressivo: Seu burro! Seu tratante! Seu malcriado! Seu manhoso! Já te vou fazer a cama… E trato-te da saúde! E batendo-lhe com chicote: Toca a andar! Meche-te! Grande patife! E desta maneira violenta o Felizardo era escorraçado do curral. Porém, o Felizardo, mantendo serenidade e parecendo não ligar patavina aos impropérios desabridos de Felicíssimo, saía pachorrentamente – o que, sobremaneira, irritava o caseiro da casa.

Entretanto, Felizardo imobilizado junto à parede exterior, aguardava que Felicíssimo fizesse a limpeza do curral e na manjedoura colocasse a sua ração diária. Finda esta tarefa matinal de Felicíssimo, este acompanhava Felizardo nas várias deslocações para as hortas e para a fonte onde era recolhida a água para os consumos domésticos. Nos trajectos efectuados pelo duo, o Felizardo ia suportando estoicamente as agressões verbais e físicas do Felicíssimo; o qual sempre manifestou um ódio de estimação pela criatura Felizardo.

Não obstante a pacatez de Felizardo, às vezes a relação azedava-se e Felizardo, com enorme coragem, em lugar de avançar recuava teimosamente. Felicíssimo, de cabeça perdida, não parava de berrar com ele e de tentar agredi-lo violentamente. Aí dava-se a refrega: e Felizardo começava a escoicear vigorosamente. O caldo entornara e parecendo magia, Felicíssimo, num ápice, sustinha a fúria, a modos de parecer um cordeiro manso. Então, Felizardo, senhor da situação, seguia em frente, ligeiro e Felicíssimo tinha de estugar (o passo) para poder acompanhar a rápida marcha de Felizardo.

Como nos antecedentes parágrafos relato, o relacionamento entre Felicíssimo e Felizardo era conflituoso. Assisti a cenas impressionantes de brigas entre os dois em que Felicíssimo berrava e tentava bater-lhe e Felizardo dava urros, mostrava os dentes, irritado, e atirava coices, a que Felicíssimo se esgueirava; por vezes, com sorte. Nunca foi atingido pelo escoicear de Felizardo. Certamente, porque, quando a coisa descambava para o torto, Felicíssimo aquietava-se bruscamente.

Desses tempos e de tudo que testemunhei do relacionamento entre Felicíssimo e Felizardo colhi a impressão/crença de que Felizardo era mais inteligente e estratega que o caseiro Felicíssimo. Quando havia refrega, Felizardo saía sempre vencedor e mostrava-se satisfeito, abanando as orelhas, abrindo a boca em zurro baixinho e compassado; também associando um esgar – entendido como escárnio e expressão de triunfalismo.

Aprendi bastante com Felizardo; nomeadamente, no que concerne a resistência passiva e capacidade e sentido de momento certo para enfrentar dificuldades e situações adversas, como aconteciam na relação do carrasco/demónio que era Felicíssimo, com o pacífico e bem-intencionado ser vivente, Felizardo, de sua amarga graça.

Frequentemente, trocávamos olhares cúmplices. Às vezes, cavalgava-o nas idas a Tomar, aos sábados, com grande gozo. Tinha grande admiração e estima, pelo Felizardo. Julgo que ele correspondia com sentido apreço pelo jovem Brasilino.

Então com a proximidade e companheirismo mantidos com Felizardo me hei apercebido de que os outros animais mamíferos, então chamados de irracionais, possuíam algumas faculdades de alma.
Do Felizardo conservo agradável recordação.

* Doutorado em Estudos Culturais, autor. https://www.facebook.com/brasilino.godinho

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