Farol da Barra, Ílhavo (foto partilhada no Facebook do Turismo Centro de Portugal).

O turismo sempre foi um bom termómetro do mundo. Quando há estabilidade, cresce. Quando há incerteza, retrai-se.

Por Antonio Jorge Costa *

São poucas as atividades económicas tão dependentes da confiança. Não apenas da segurança real, mas da forma como ela é percecionada por quem decide viajar.

O que hoje se vive no Médio Oriente volta a expor uma evidência frequentemente subestimada: o turismo não é uma atividade isolada. Está ligado à energia, à mobilidade, à diplomacia, à segurança. Está ligado ao mundo e às suas dinâmicas. E essa interdependência sente-se de forma quase imediata.

Basta que uma região estratégica entre em tensão para que o efeito se propague. O Golfo Pérsico, hoje um dos principais corredores aéreos entre a Europa, a Ásia e a Oceânia, é um bom exemplo. Não é preciso que o conflito atinja diretamente os destinos turísticos para alterar comportamentos. A perceção basta.

O resultado é conhecido: reservas canceladas, itinerários redesenhados, decisões adiadas. Episódios de tensão geopolítica prolongada têm produzido contrações significativas em corredores aéreos diretamente afetados, uma tendência documentada pela UN Tourism em vários ciclos de crise.

A aviação reage primeiro. Sempre reagiu. Quando determinados corredores deixam de ser viáveis, as rotas alongam-se, os custos aumentam, a operação complica-se. A isto acresce o efeito nos combustíveis: qualquer instabilidade no Médio Oriente reflete-se rapidamente no preço do petróleo. Não é um detalhe, é estrutural. No final, viajar fica mais caro e há segmentos que simplesmente deixam de viajar.

Neste quadro, a Europa mantém uma vantagem que não deve ser desvalorizada: estabilidade suficiente para gerar confiança. As tensões na NATO e a reconfiguração das relações transatlânticas introduzem alguma imprevisibilidade, mas as estruturas de cooperação existentes continuam a funcionar como um ativo invisível e decisivo.

Portugal, dentro deste espaço, pode beneficiar de uma leitura diferente da sua posição geográfica. Aquilo que durante anos foi visto como periferia pode, em determinados momentos, ser lido como distância a zonas de maior tensão. E isso conta.

Mas seria um erro olhar para este cenário apenas pela ótica da oportunidade. O que estas situações tornam evidente é a necessidade de repensar o modelo de planeamento turístico, não como exercício de maximização do crescimento, mas como construção de resiliência: diversificação de mercados emissores, menor dependência de corredores aéreos únicos, integração explícita do risco geopolítico nas estratégias nacionais.

O que hoje acontece no Médio Oriente é, acima de tudo, um lembrete. A segurança deixou de ser um pressuposto silencioso e passou a ser um fator ativo de competitividade entre destinos.

Porque no fim, por mais investimento, estratégia ou inovação que exista, há uma condição que continua a ser insubstituível.

Sem paz, não há turismo.

* Presidente IPDT – Tourism Intelligence. Artigo publicado originalmente no site Publituris.

Siga o canal NotíciasdeAveiro.pt no WhatsApp.

Montra Online NotíciasdeAveiro.pt

Consulte as oportunidades (artigos e serviços).

Publicidade e donativos

Está a ler um artigo sem acesso pago. Pode ajudar o jornal online NotíciasdeAveiro.pt. Siga o link para fazer um donativo . Pode, também, usar transferência bancária, bem como ativar rapidamente campanhas promocionais ( mais informações aqui ).