Mário Soares (Arquivo Fundação Mário Soares).

Eram tempos em que as campanhas eleitorais nada tinham a ver com as “profissionalizadas” dos dias de hoje. Viviam-se momentos não muito longe do 25 de Abril de 1974 – e os episódios pitorescos eram mais que muitos.

Orlando Cruz, falecido em 2015, era, na ocasião deste episódio, líder da Federação Distrital do PS de Aveiro. Camaradão, como se costuma dizer, Orlando Cruz, que chegou a deputado na Assembleia da República (V Legislatura), foi também vice-presidente da Comissão Administrativa da Câmara de Aveiro e vereador na autarquia na presidência de Girão Pereira (CDS), oriundo de uma terreola para os lados de Águeda, meteu na cabeça que havia de levar, um dia, o líder do PS, Mário Soares, à sua terra.

Se bem o pensou, melhor o anunciou às suas gentes, sempre que dava uma saltada à terra natal, onde aproveitava, como era natural, para fazer campanha pelo PS.

“Um dia, hei-de trazer aqui o camarada Mário Soares”, dizia, perante os seus conterrâneos o que, segundo afirmavam as más línguas, era tarefa impossível, dada a insignificância do lugar em termos eleitorais. Mas, Orlando Cruz, não era homem por se dar por perdido.

A campanha eleitoral em 1976, traria Mário Soares, líder do PS, ao distrito de Aveiro. E mais: uma passagem por Águeda. Oportunidade que Orlando Cruz não desperdiçaria para cumprir a promessa que fizera aos seus conterrâneos, uma vez que o programa desse dia, como era previsível, apenas contemplava a passagem de Soares por Águeda, com destino a outras sedes de municípios do distrito, até acabar, à noite, num comício na capital de distrito.

Fazendo uso da sua capacidade de persuasão, Orlando Cruz, usou todos os motivos “normais” e “extraordinários” para convencer os responsáveis da campanha para levar à sua terra natal o “camarada Mário”.

Apenas dois dos argumentos apresentados por Orlando Cruz conseguiram convencer os homens da organização do cortejo eleitoral – apenas dois, e esses decisivos: ” tratava-se de um desvio de poucos quilómetros e …não se iriam arrepender, pois o “camarada Mário” teria uma multidão para o ouvir e…aplaudir”.

Esta perspectiva era música para os ouvidos numa campanha eleitoral. E a comitiva socialista lá foi por caminhos que…sabe Deus!. Acontece que ninguém no lugarejo sabia da passagem da caravana do PS com a presença do carismático líder. A decisão de lá ir tinha sido tomada à ultima da hora.

Nada estava previamente organizado. Quando Mário Soares foi confrontado com apenas meia dúzia de populares, tendo-lhe sido justificado o desvio com a promessa de uma multidão à sua espera, foi aos “arames”, como se costuma dizer.

“Quem foi a o gajo que teve a brilhante ideia de me trazer até aqui?”, questionou em alto e bom som, muito mais do que irritado, como é suposto imaginar!

O bom do Orlando todo encafuado, e a ver os seus pergaminhos de socialista a caírem, nem teve tempo de responder, quando todos os olhares caíram sobre si, já que a caravana socialista zarpou logo a toda a velocidade, para recuperar o atraso – sempre inevitável – na jornada do dia.

“Cumpri a minha palavra ou não? Levei o camarada Mário à minha terra como tinha prometido!”, comentava depois, Orlando Cruz, sempre que questionado sobre o episódio, com um sorriso ufano, por ter cumprido a promessa que fizera. “Sou um homem de palavra” dizia, atirando para trás das costas a cara furibunda que Soares lhe fez, quando soube quem era o autor da “ousadia”.
Houve consequências partidárias?…O tempo limpa muita coisa!

Jesus Zing

(140326)

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