E agora, que futuro para as nossas exportações ?

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À luz da atual conjuntura económica, como perspetivar o comportamento futuro, e desejável, das exportações de bens e serviços portuguesas? A resposta impõe uma breve retrospetiva ao processo de internacionalização da nossa economia, antes da ocorrência desta crise pandémica.

Por Luís Miguel Ribeiro*

Na última década Portugal aumentou muito o seu grau de abertura exterior, expunha vulnerabilidades e enfrentava enormes desafios.

Estávamos a crescer, mas a um ritmo ainda lento, à semelhança da zona euro. Na intensidade exportadora, apesar da evolução muito positiva, encontrávamo-nos ainda num patamar muito inferior ao de países europeus com dimensão próxima da nossa.

Observávamos uma elevada concentração das exportações num reduzido número de empresas e de mercados.

É bom lembrar que há mais de um quarto de século que mais de metade das nossas exportações de bens se concentram em apenas quatro merados europeus.

No perfil da intensidade tecnológica, persistia uma maior incidência das exportações de bens classificados de “Baixa Tecnologia”.

Quanto ao futuro para as nossas exportações, apesar do forte impacto negativo da crise por COVID-19 nos mercados externos, a estratégia de crescimento sustentado da economia portuguesa não poderá basear-se numa aposta na procura interna.

Por mais dinâmica que seja, o mercado nacional possui uma dimensão muito limitada.Por isso, é com regozijo que olho para a aprovação, no passado mês de julho, do Programa Internacionalizar 2030, que estabelece entre as suas prioridades o aumento das exportações de bens e serviços,o aumento do número de exportadores, da diversificação de mercadose o acréscimo do valor acrescentado nacional.

Como meta, pretende aumentar entre 20 por cento e 25 por cento o número de exportadores e elevar a intensidade exportador apara 53 por cento até 2030.

É certo que a evolução das exportações está muito dependente da conjuntura externa – agora fortemente recessiva e envolvida de enorme incerteza, pelo menos até se descobrir uma vacina ou tratamento eficaz para a doença.

O impacto provocado pela pandemia afundou o indicador de intensidade exportadora para o nível de 2010. Entre janeiro e agosto deste ano, as exportações de bens caíram 14,1 por cento, em termos nominais.

Mas se olharmos para a evolução mês a mês, podemos observar que começa a desenhar-se uma tendência de forte desagravamento. Em agosto a queda foi de apenas 1,4 por cento, quando em abril tinha sido de 41,3 por cento (em maio de 38,7 por cento, em junho de 9,8 por cento e em julho de 7,1 por cento).

É um sinal de que as empresas portuguesas estão a conseguir regressar ao comércio internacional.Repetidamente, em épocas de crise os empresários portugueses mostram a sua capacidade de resiliência, sabedoria, empenho, flexibilidade e capacidade de liderança para trabalhar com o imprevisto.Os empresários adaptaram e reinventaram os seus negócios para uma sobretudo devido ao acréscimo da intensidade exportadora, que subiu de 30 por cento em 2010 para 44 por cento no ano passado.

Um resultado notável, reconhecido por todos, do enorme esforço que as empresas portuguesas fizeram, e que na AEP bem pudemos testemunhar.

Porém, ainda antes da atual crise,a economia portuguesa, em particular o seu processo de internacionalização, realidade inteiramente nova, estão a dar resposta às necessidades emergentes e ao preenchimento de falhas de mercado, designadamente face ao desalinhamento das cadeias de abastecimento provocadas pelo choque da pandemia.

Está na ordem do dia a discussão em torno da iminente tendência de “desglobalização”, que aliás foi tema da edição de outubro da Revista Portugalglobal. Também defendo que a Europa e o nosso país em particular devem aproveitar as oportunidades da reorganização das cadeias de produção, aproveitando todo o seu know-how, nomeadamente industrial,e promovendo a autonomia estratégica em vários setores.

No início de março deste ano ficou clara a demasiada dependência do fornecimento de alguns países, nomeadamente asiáticos.

A retoma da trajetória ascendente das exportações exige uma inequívoca aposta na Indústria (e serviços inerentes), que é um setor de bens transacionáveis internacionalmente e com porcionando o funcionamento de novas formas de organização do trabalho (teletrabalho), que evitaram o cenário de uma paragem total da atividade. O digital ganhará cada vez mais força no negócio internacional

* Presidente da Associação Empresarial de Portugal. Artigo na edição de novembro da revista PortugalGlobal.

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