União Europeia.

Cada vez que o mundo entra em tensão, a Europa paga a fatura. Em 2022 foi a Rússia. Agora é o Irão. E entretanto, a Europa trocou uma dependência por outra. O problema não é o fornecedor – é o modelo. E o que isso significa – falta de competitividade industrial.

Por Tomás Loureiro *

Não poderia deixar de abordar este tema – não só por trabalhar em energia, mas porque poucos assuntos são tão estratégicos para a soberania europeia como este. Este é um momento chave, em que geopolítica, independência energética e competitividade industrial nunca estiveram tão interligadas.

Todos nós nas organizações já errámos múltiplas vezes, tomámos decisões erradas, e vamos continuar a fazê-lo. O que realmente nos distingue, enquanto profissionais e enquanto empresas, é a capacidade de entendermos esses erros e aprendermos com eles, assegurando que não se repetem.

É, em larga medida, o que a Europa não fez com a energia depois de 2022. Quando a Rússia invadiu a Ucrânia, o choque foi brutal e imediato. A fatura anual de importações de energia da UE mais que duplicou num único ano – de 313 para 693 mil milhões de euros. Quase 400 mil milhões que saíram da economia europeia para pagar a instabilidade de uma região em guerra. Na altura, muito se discutiu sobre soberania energética e sobre acelerar a transição. Na prática, a Europa substituiu uma dependência por outra – o gás russo pelo gás americano, que hoje representa mais de 55% do LNG importado pela UE. Mudámos de fornecedor. Não mudámos de modelo. E isto pesa diretamente na competitividade: os preços da eletricidade na Europa são hoje duas a três vezes superiores aos dos EUA ou da China – uma desvantagem que se traduz em menos indústria, menos emprego e menos investimento.

E agora a escalada de tensões em torno do Irão voltou a expor tudo isto de forma crua. O Estreito de Hormuz – uma passagem com menos de 40 quilómetros na zona mais estreita – concentra cerca de um quinto de todo o petróleo e LNG transacionado no mundo. Muitos dirão que a Europa não depende diretamente dessa zona – e é verdade. Mas os combustíveis fósseis são mercados globais: uma escassez ali pressiona preços em todo o lado, porque os países afetados vão comprar energia noutros mercados, fazendo subir os preços em todo o mundo. Nos primeiros dez dias do conflito mais recente, os preços do gás na Europa subiram mais de 50%. A fatura adicional de importações rondou 2,5 mil milhões de euros – não num ano. Em dez dias.

E os impactos vão muito além da eletricidade. O gás sobe – e com ele o aquecimento, os fertilizantes, os plásticos, a indústria química. O petróleo sobe – e com ele a gasolina, a logística, os custos de produção de quase tudo. A inflação regressa, os bancos centrais hesitam em baixar juros, o investimento abranda. A energia não é só luz nas casas – é o sistema nervoso de toda a economia. Quando ele treme, abana tudo.

Vale também recordar que isto não é um problema exclusivamente europeu. Cerca de três quartos da população mundial vive em países importadores líquidos de combustíveis fósseis. A dependência energética é um problema global – e também global é a solução, porque praticamente todos os países do mundo poderiam ser energeticamente independentes com renováveis e eletrificação.

É aqui que uma frase do ativista climático Bill McKibben captura o essencial melhor do que qualquer relatório técnico: “Sunlight travels 93 million miles to reach the earth. None of them through the Strait of Hormuz”. A energia solar percorre 150 milhões de quilómetros antes de chegar até nós — sem passar por nenhum estreito, sem atravessar zonas de conflito, sem depender de nenhum pipeline que possa ser cortado. O vento também não tem geopolítica. E ao contrário dos combustíveis fósseis, não exigem uma nova compra a cada dia que passa. É um pouco como o velho provérbio – “Dá um peixe a um homem, e vais alimentá-lo por um dia. Mas ensina esse homem a pescar, e vais alimentá-lo para toda a vida”. As renováveis ensinam os países a pescar a sua própria energia.

Em Davos, no início deste ano, Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia, foi direto: “Electrify everything, as much as you can. Transportation, industry and so on”. Não como slogan climático – como imperativo estratégico. A boa notícia é que hoje uma grande parte da economia já pode ser eletrificada, tanto técnica como economicamente. A má notícia é que, a nível global, apenas cerca de 20% do consumo energético está eletrificado. Há muito caminho por percorrer – e há quem já esteja a correr.

Alguém já percebeu tudo isto muito bem. E não é europeu. A China decidiu há anos que a dependência energética externa era um risco inaceitável – e agiu com a determinação e a escala que a caracterizam. Aumentou a eletrificação da sua economia de 15% para mais de 30% em poucos anos, enquanto Europa e EUA continuam estagnados perto dos 20%. Ultrapassou 50% de quota de vendas de veículos elétricos. Investe maciçamente em solar, eólica, baterias e redes. Os resultados são visíveis: só em janeiro e fevereiro de 2026, as exportações chinesas de tecnologia de energia limpa cresceram 44%, atingindo 41 mil milhões de dólares. A China não está a fazer isto por altruísmo climático – está a fazê-lo porque percebeu que eletrificar reduz exposição geopolítica, baixa custos e cria vantagem competitiva duradoura.

Também na Europa existe um bom exemplo a seguir – e de que nós, portugueses, devemos ter orgulho. A Península Ibérica apostou consistentemente nas renováveis ao longo dos últimos anos, e os resultados são claros: em 2026, o gás influenciou os preços da eletricidade em apenas 15% das horas em Espanha, contra 89% em Itália e cerca de 40% na Alemanha e nos Países Baixos. Enquanto os preços disparavam por toda a Europa na sequência do conflito, a Ibéria mantinha tarifas abaixo da média europeia. Não foi sorte – foi o resultado de anos de investimento consistente numa visão que não cedeu à pressão do curto prazo. As empresas que investem em resiliência antes da crise – que não dependem de um único fornecedor crítico, que constroem capacidades internas em vez de as subcontratar eternamente – são sempre as que menos sofrem quando a tempestade chega. O mesmo vale, sem exceção, para países.

Há também algumas ideias feitas que importa clarificar. O apagão ibérico de abril de 2025 não foi causado pelas renováveis – o relatório final da ENTSO-E, elaborado por 49 especialistas de 12 países, foi inequívoco: resultou de falhas em cascata no controlo de tensão da rede. A lição não é travar a transição – é reforçar as redes. O que nos leva a outro ponto crítico: no último ano, a Europa instalou 80 gigawatts de capacidade renovável, um recorde absoluto. Mas mais de 400 gigawatts estavam prontos para ser ligados e não foram – por falta de redes. Como disse Birol, é como construir um carro fantástico e esquecer de construir as estradas. Quanto às dúvidas sobre intermitência, as baterias e as barragens hídricas oferecem ao sistema a flexibilidade necessária, com o gás como backup quando preciso. E sobre preços – as renováveis baixam-nos, como o caso ibérico demonstra claramente, tanto a nível grossista como retalhista. Mas é também verdade que a fatura elétrica que chega às empresas e às famílias não é só energia – é impostos, taxas e tarifas que em muitos países representam uma boa parte do custo total. Reduzir a dependência fóssil sem rever simultaneamente a estrutura fiscal e tarifária é resolver metade do problema.

Não há autonomia industrial sem autonomia energética. Uma indústria competitiva precisa de energia abundante, barata e previsível, e enquanto essa energia vier de fora, a soberania industrial é uma ilusão. A Europa não tem gás. Mas tem tudo o que precisa para virar este jogo – recursos naturais, tecnologia, capital e exemplos que provam que funciona. O que falta é a decisão de tratar a transição energética como o que ela é: um imperativo de soberania, de competitividade e de segurança – e não apenas uma urgência climática. E fazê-lo com pragmatismo e de forma conjunta – envolvendo indústrias, consumidores e decisores políticos como parceiros ativos, não como espetadores. Porque o risco de não agir é real – mas também o é o risco de agir mal.

A crónica da dependência europeia já tem demasiados capítulos. 2022 podia ter sido o último. Não foi. Este conflito é mais um aviso – mas também mais uma oportunidade de parar, de uma vez por todas, de pagar a fatura da instabilidade alheia. A solução existe. Está provada. Tem escala. E pela primeira vez na história é também a opção mais barata. Falta executar. E rápido.

* Senior Director of Global Intelligence & Strategic Projects na EDP. Artigo publicado no site linktoleaders.com.

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