Coisas de Nada ou Talvez Não

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ADN (imagem genérica em https://pt.dreamstime.com)
Comercio 780

Hoje apeteceu-me passar a escrito algumas das “cenas”, como se diz na gíria dos mais jovens, e não só. Podem parecer “coisas de nada”, mas talvez não. Depende do prisma de cada um, ou ponto de vista este que é fruto do seu “eu”, porque, sabemos, perante um facto observado por duas ou mais pessoas ele pode ser interpretado de forma diferente, consoante, dizem os psicólogos”, o seu “background”. Mas o que é isso que transportamos, desde a barriga da nossa mãe, que não tem a ver com o ADN que herdámos na nossa arvore genealógica?

Por Serafim Marques *

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O Background é uma palavra inglesa que pode ter vários significados, entre eles a experiência de vida, antecedentes pessoais e familiares, contexto sócio económico, ambiente familiar e social, circunstâncias, meio envolvente e social, educação, religião, esta em perda de influência no “Ocidente Judaico-Cristão”, etc. Aliado à nossa estrutura biológica, chamemos-lhe assim, as nossas atitudes, os nossos valores humanos, etc, – que muita gente designa como personalidade, indo ao ponto de misturar a influência dos signos do zodíaco na construção dessa personalidade e consequentes atitudes e comportamentos, – são fruto dessas duas componentes, isto é, “age assim, porque tem uma personalidade que herdou do avô” – ou de outro familiar. Muita gente chega ao ponto de dizer que tal criança de meia dúzia de anos ou bem menos, tem uma” personalidade forte” para justificar o seu irrequietismo, a sua indisciplina e, muitas vezes, atos de agressões mesmo já no colo da própria mãe! Demissão dos educadores que se “desculpam” com a sua incompetência ou medo de fazer mal à criança? Medo de serem acusados de “educadoras do antigamente”?

Há dias, estava eu nos balneários infantil duma piscina pública, com o meu neto de cinco anos e ao lado uma mãe jovem levou várias palmadas no braço com que o segurava o filho, talvez de quatro anos, porque esta estava a secar-lhe a cabeça pós banho, com o secador na outra mão e ele protestava. Nem uma reprimenda aquela mãe disse àquele pequeno ditador. Cenas destas e muito, mas muito mais graves, já eu presenciei na via publica. Uma delas deixou-me a alma em estado atribulado, porque eram de inimaginável violência do filho, de cerca de oito/dez anos, sobre a mãe e continuada pela rua fora. ..
Pouco dias depois, levei o meu neto à escola de futebol que ele frequenta. Eram doze crianças todas com cinco ou menos anos de idade e do grupo havia apenas uma menina. Num exercício que o monitor mandou executar, verifiquei que, no chão, lutavam pela posse duma bola (com as mãos) a menina e uma outra criança do grupo e não estava fácil haver um vencedor da contenda, pelo que o monitor foi separá-los e levantou as duas crianças e puxou o menino “agressor”. Contudo, este ao ser puxado agarrou-se à t-shirt da menina, não a largando e não hesitava em dar-lhe pontapés nas pernas. Não contente com a “derrota” por não ter vencido a miúda, e já livre do monitor, ainda foi dar-lhe mais alguns pontapés com as “chuteiras”. O(s) “educadores” daquele miúdo estaria(m) por ali em redor do recinto de mini futebol, mas ou estaria(m) com os olhos presos no ecrã do telemóvel ou não viram o comportamento do seu educando. Eu vi e, se por acaso, tivesse sido o meu neto, eu entraria no recinto e teria agido pedagógica, mas veementemente e com firmeza, porque o gesto do rapazinho era completamente desadequando. Mau prenuncio?

Alguns dos (as) leitores (as) dirão que é próprio de crianças daquela idade e que o rapazinho é daqueles que tem uma “personalidade forte” e luta pela vitória. Dirão ainda que não se podem contradizer as crianças, para não lhes causarmos traumas. Dirão outras vozes que não se deve dar importância a essas “lutas e agressões” entre crianças e que é sinal de vitalidade, sendo preferível esta “violência infantil” àqueles comportamentos amorfos que , cada vez mais, se apoderou das “crianças engaioladas”, atenção, não confundir com casas pequenas, mas sim crianças agarradas, quase desde logo que nascem, aos tablets, bebendo Coca-Cola ou Ice Tea, etc, em troca da “paz” das crianças que, essas sim, já não sabem “chutar uma bola” ou correrem pelos parques, nem mesmo nas lutas sem agressões. Outros(as) dirão que, mesmo nessa idade, se deve agir pedagogicamente, porque a violência é algo que não tem idades. Dirão ainda outros que o ser humano é selvagem à nascença e é a socialização inculcada durante a vida, eu diria até morte, caldeada com as características biológicas, que o vai dotar duma personalidade do tipo A, B, etc., hierarquizadas pelos especialistas da “Psic”.

É prematuro descobrir nas crianças até certa idade, se faz parte do seu “ADN” a eventual violência, de qualquer tipo, incluindo a violência doméstica. Mas voltando à influência da socialização na determinação da nossa personalidade, que nunca é estanque porque a personalidade é o conjunto das características dominantes de uma pessoa, é a força ativa que ajuda a determinar o relacionamento da pessoa baseado no seu padrão de individualidade pessoal e social, referente ao pensar, sentir e agir. A personalidade é um termo abstrato utilizado para descrever e dar uma explicação teórica do conjunto de peculiaridades de um indivíduo que o caracteriza e diferencia dos outros.

Os criminosos e outros “marginais” também foram crianças e tiveram pais e mães. Logo, “é de pequenino que se torce o pepino” ou, dito de outra forma, Educar com Amor e Firmeza é o melhor investimento nos seres em crescimento. Custará a entender, ou as vítimas continuarão a surgir, por exemplo na “violência doméstica”, desde logo de muita tenra idade nos namoros.

* Economista (Reformado),”Crónicas de Lisboa”.

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