
Há clubes que existem para ganhar. E há clubes que existem para representar algo maior do que um resultado. Em tempos, o Beira-Mar foi as duas coisas. No entanto, é na segunda missão que a sua história mais comove.
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Fundado na passagem de ano de 1921 para 1922, num bairro piscatório de Aveiro onde os “cagaréus” se reuniam todas as noites no Rossio a sonhar com futebol, o clube nasceu da identidade mais genuína da cidade. Mais de cem anos depois, esse espírito teimoso continua a ser a força que o mantém de pé.
As origens e o que elas dizem sobre o clube
A história começa com um grupo de rapazes do bairro da beira-mar, muitos deles regressados dos Estados Unidos, que se encontravam todas as noites no Rossio e acabaram a fundar um clube desportivo. Não havia dinheiro nem instalações. Havia vontade, que o próprio clube descreve com uma frase que atravessou gerações: “homens de antes quebrar que torcer”.
Os primeiros jogos foram derrotas. Frente ao Clube dos Galitos, e depois em Anadia, os resultados foram 3-1 e 5-0 contra o Beira-Mar. Podia ter desanimado qualquer um. Mas a experiência e as amizades ficaram. E o clube ficou. Isso já diz tudo sobre o que o Beira-Mar é, no fundo: uma instituição construída não sobre vitórias, mas sobre pertença.
A época dourada e os momentos que ficaram na memória
O pico da trajetória desportiva chegou no final dos anos 90 e início dos anos 2000. Em 1991, o clube alcançou pela primeira vez uma final da Taça de Portugal, perdendo para o FC Porto no prolongamento, mas afirmando-se como força real no futebol português. Nessa época conseguiu também a melhor classificação de sempre na Primeira Liga, um sexto lugar que mostrou ao país que Aveiro tinha um clube a levar a sério.
A redenção chegou em 19 de junho de 1999, no Estádio Nacional, no Jamor. O Beira-Mar derrotou o Campomaiorense por 1-0, com um golo de Ricardo Sousa, filho do treinador António Sousa. Uma história de família dentro de uma história de clube. Aveiro não dormiu nessa noite. O autocarro com os jogadores demorou horas a descer a Avenida Lourenço Peixinho, com milhares de pessoas na rua. Quem lá estava não esquece.
O título valeu a participação na Taça UEFA de 1999/00, tornando o Beira-Mar apenas a segunda equipa da segunda divisão a jogar na competição europeia, depois dos irlandeses do Bray Wanderers em 1990. Frente ao Vitesse de Arnhem, saiu eliminado por 2-1 no agregado, mas com dignidade e com o orgulho intacto.
Nos anos seguintes, foi campeão da Segunda Liga em 2005/06 e 2009/10, e ainda deixou uma marca que ficou na memória do futebol português: a vitória por 3-2 em casa do FC Porto em fevereiro de 2002, numa noite em que José Mourinho sofreu a sua última derrota em casa durante mais de uma década. Pequenos grandes momentos que ficam.
Nessa altura, o Beira-Mar era tema de apostas e análises, em sites como o Sportytrader, plataforma especializada em prognósticos de futebol, que dificilmente poderia prever uma queda tão profunda, que perduraria por alguns anos.
A queda e o que ela custou
O declínio começou com a criação da Beira-Mar Futebol SAD em 2011. O iraniano Majid Pishyar adquiriu 85% das ações, seguindo-se em 2013 a venda ao grupo italiano Pieralisi. A má gestão foi corroendo o clube por dentro, e em 2015 veio o colapso: falência declarada em tribunal, dívidas superiores a cinco milhões de euros, e descida forçada até à Segunda Divisão Distrital.
Parecia o fim. Não foi. Em 2017, 91% dos credores representados aprovaram um plano que perdoou os cinco milhões em dívidas. Em 2015/16, a equipa que começou do zero subiu logo de divisão. Pedro Moreira recordou que tinham dado o “primeiro passo”. O técnico José Alexandre lembrou que “as dificuldades foram muitas” e só foram superadas com a “construção de uma família”.
Dez anos depois, o clube apresentou o plantel de 2025/26 com essa história narrada pelos altifalantes do estádio. Quem estava na plateia percebeu que estava a ver qualquer coisa maior do que uma apresentação de jogadores.
O presente: resistência e um projeto a construir
Na época 2025/26, o Beira-Mar compete no Campeonato de Portugal Série B, o quarto escalão do futebol nacional. Um clube que chegou à Europa nas gerações anteriores joga hoje contra o tempo e contra os recursos, mas com 1431 atletas em 13 modalidades e 117 treinadores e monitores, segundo dados do plano de atividades aprovado pelos sócios.
As contas são o espelho das dificuldades. O resultado líquido de 2024/25 foi negativo em mais de 54 mil euros, uma recuperação face aos mais de 200 mil euros negativos do ano anterior, como reconheceu o presidente Nuno Quintaneiro. O défice é “estrutural”, nas suas palavras, e o caminho passa pela criação de uma sociedade desportiva para o futebol sénior, processo ainda em curso.
O que o Beira-Mar representa para Aveiro
Há uma linha que atravessa toda a história do clube, da noite de passagem de ano de 1921 até hoje: a ligação às pessoas e à cidade. O Beira-Mar não é apenas um projeto desportivo. É uma instituição que formou gerações de aveirenses, que deu à cidade noites inesquecíveis e que sobreviveu a uma falência que poderia ter sido o fim.
O Eusébio jogou lá. António Veloso também. O filho de um treinador marcou o golo mais importante da história do clube. E quando tudo pareceu perdido, foram os sócios e os credores que decidiram que o Beira-Mar merecia continuar. É isso que faz de um clube um símbolo regional: não os títulos que ganhou, mas a recusa em deixar de os perseguir.
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