Bacalhau da consoada é o mais caro do ano, mas quase ninguém dispensa

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Bacalhau (arquivo).
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O aumento do preço do bacalhau deverá ultrapassar os três euros por quilo no final deste último trimestre do ano.

Os grossistas e os industriais já sentem uma uma quebra no consumo das famílias, apesar do tradicional pico de vendas na quadra natalícia e ano novo.

É certo que o bacalhau da consoada vai ficar ao preço mais caro do ano. E, tudo indica, acima do aumento comercial, que é habitual por força da lei da oferta e procura.

Os grossistas, como Manuel Marques, um dos mais antigos em atividade na zona de Aveiro, estão, desde outubro, a refletir o aumento aplicado pelos fornecedores.

“Sentimos alguma redução das vendas ao longo do ano, também existem mais postos de distribuição e isso gera menos movimento. Apesar disso, este mês tem sido muito bom”, disse o comerciante sobre a procura.

Já o preço da matéria prima “subiu bastante”, especialmente nos últimos três meses”, uma média oitenta cêntimos o quilo”. Por isso, “se compramos mais caro, vendemos mais caro”, refere Manuel Marques, admitindo que o aumento “é muito significativo”. Afinal, em quatro quilos, à volta de 3, 20 euros de aumento, representa mais oito, dez por cento, “o que é considerável”.

Paulo Mónica, secretário geral da Associação dos Industriais do Bacalhau (AIB), assume que devido à subida do preço possa estar a ocorrer alguma quebra no consumo familiar, que o crescimento da hotelaria e restauração vai, quase de certeza, compensar.

As possibilidades de pesca têm vindo a diminuir, fruto da gestão de stocks, embora estes estejam ainda a níveis historicamente elevados. De qualquer forma, tal factor associado à “competição com outros mercados que pagam mais pelo mesmo quilo de peixe, coloca alguma pressão”, ajudando a explicar o aumento do preço.

“A matéria prima sofreu aumentos ao longo do ano, sobretudo nos calibres que dão o bacalhau crescido, graúdo e especial em salgado seco”, confirma o representante das empresas de transformação.

A “pressão” sobre o preço é gerada, nesta altura não por falta de recursos, apesar do controlo imposto na gestão dos recursos, mas “pela competição pelo bacalhau”. Embora Portugal seja o maior consumidor mundial, existem outros mercados a disputar o ‘fiel amigo’.

“O aumento do preço pode estar a provocar retração no consumo das famílias. No entanto, a dinâmica no país, pelo crescimento do turismo, com implicações no canal hotelaria e restauração, vai atenuar ou mesmo anular a redução familiar que possa a existir. Estamos a falar de uma expetativa, ainda sem números que a possam justificar”, ressalva Paulo Mónica.

Tradicionalmente, o Natal é uma época importante para as vendas anuais. A “expetativa” é as que vendas de dezembro sejam “superiores à seis mil toneladas”, na mesma ordem de grandeza de 2017, dez a 12 por cento do total.

Os portugueses são os maiores consumidores de bacalhau, com 70 toneladas por ano. 23,8% dos portugueses referiram num estudo do ano passado que comem bacalhau pelo menos uma vez por semana.

Só nos dias da quadra natalícia, servem-se seis toneladas. Mesmo mais caro, o bacalhau não deixará de ser obrigatório na mesa de consoada.

As dez embarcações nacionais, com um total de 350 tripulantes, todas de armadores com atividade no Porto de Aveiro, têm quotas atribuídas para pescar um total de 8000 toneladas. Valor claramente abaixo do apetite nacional.

A grande maior do bacalhau é importado, mas a indústria nacional, com larga experiência, já consegue exportar 100 milhões de euros por ano.

O bacalhau alimenta 23 empresas, com 40 unidades de produção em todo o país, criando 2000 empregos diretos. As principais origens de abastecimento à indústria nacional são a Rússia, Noruega e a Islândia.