Provas de vinhos.

No meu círculo de amigos serei, certamente, um dos que menos recorre às chamadas redes sociais. Utilizo apenas Instagram, onde publico uma foto por mês, se tanto, e nunca sobre vinhos. Os temas que me apetece fotografar/comentar têm quase sempre a ver com carros, cães, pesca, caça e, tirando raríssimas excepções (e sempre com autorização prévia) família e amigos nunca são envolvidos nos conteúdos. Serve isto unicamente para dizer que estou muito longe de poder ser considerado um especialista em redes sociais, e bem assim da linguagem, regras, códigos, que lhes são inerentes.

Por Luís Ramos Lopes *

No entanto, e por dever de ofício, ao longo dos últimos anos tenho acompanhado bastante mais de perto as plataformas digitais e redes sociais das empresas ligadas ao mundo do vinho. Estou atento ao desempenho, à forma, ao conteúdo, e reconheço a crescente importância que as redes sociais têm na estratégia de comunicação de uma marca, operando como complemento dos outros formatos e modelos.

Ao visualizar as publicações de dezenas de empresas, distintas nos seus perfis, conceitos e cliente alvo, é impossível não reparar em, pelo menos, dois denominadores comuns: primeiro, o desconhecimento generalizado do tema (vinha, vinho, mercado) e também da cultura e especificidades do proprietário da conta, originando arrepiantes “gaffes”, sobretudo quando se fala de castas, vindima, vinificação ou consumo (a excepção está, naturalmente, nas raras ocasiões em que é o produtor a encarregar-se do conteúdo); segundo, a absurda quantidade de lugares comuns, clichés, verbos, advérbios e adjectivos repetidos até à exaustão, amontoados de palavras sem significado algum, formando frases surreais.

Assim, pelo que leio nas redes sociais, não posso, simplesmente, querer beber um vinho. Tenho de me “atrever” a isso. E, de preferência, ficar “surpreendido” com o resultado. E como não, se todos os vinhos são “únicos” e “prometem” coisas? Além de que estão cheios de “segredos desafiantes” para “descobrir”. De tal forma “fascinantes” e “inesquecíveis” que deixam de ser uma bebida e se transformam numa “experiência”, feita de “aromas de partilha” e “sabores de tradição”. Apetece “brindar” pois então, “à vida, aos amigos, ao verão”.

Sei perfeitamente que uma publicação deste tipo se quer curta e apelativa, numa linguagem simples, acessível, sem complicações, de apreensão imediata. Mas tantas e tantas vezes, o que leio é algo como isto: “Atreva-se a experienciar o nosso terroir único. Convidamo-lo a mergulhar num momento fascinante e inesquecível, juntando paixão e tradição. Descubra os segredos de vinhos que prometem surpreender pela sua frescura e brinde à amizade num ambiente repleto de natureza”.

Não pretendo, de modo algum, ver numa conta empresarial do Facebook ou Instagram a linguagem de um jornalista ou romancista. Mas gostaria de deparar-me com uma escrita um pouco mais criativa, inteligente e conhecedora. A verdade é que, após ler as mesmas frases replicadas de marca para marca, fico com a sensação de que a esmagadora maioria das pessoas que escreve estes conteúdos nem sequer bebe ou gosta de vinho. O que, convenhamos, não será o melhor cartão de visita, se o propósito da publicação for levar um potencial consumidor a “atrever-se” a abrir uma garrafa…

* Editorial da revsta Grandes Escolhas, mês de outubro.

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