
Às vezes é preciso parar para pensar. Claro que parar não é o contrário de pensar, nem pensar é o resultado de parar.
Por Nabo Martins *
Parar é uma pausa para observar e organizar ideias. Não é resistência ao pensamento. Mas digo isto porquê? Porque é preciso pensar e há pessoas a pensar.
Tenho ouvido por aí dizer que isto agora é que vai, porque está tudo a andar, e lá para o final do século que vem teremos uma rede ferroviária espetacular.
Pois… será mesmo assim?
Ora, Miguel Rebelo de Sousa (Diretor Executivo da APEF) diz num dos seus últimos “escritos” que “Onde está o foco? Na realização de obra ou no compromisso com a sustentabilidade, quer da ferrovia quer do setor dos transportes e da sociedade portuguesa? O investimento que se está a executar é a cura ou vai matar o setor?”.
Continuando a ler o que se tem escrito por cá, percebi que a “A competitividade dos portos portugueses depende, por isso, da sua capacidade de ligação ao hinterland nacional e ibérico. Mais ferrovia, melhores interfaces, portos secos, plataformas logísticas, serviços regulares, integração de informação e previsibilidade intermodal são fatores tão importantes como a capacidade marítima.”, refere Luis Silva Lopes.
E o Prof. Fernando Cruz Gonçalves no balanço da implantação da estratégia Portos 5+ afirma que “É consensual que a única forma de alargarmos o hinterland portuário é a aposta na ferrovia para reduzirmos o custo tonelada/quilómetro percorrido e assegurarmos a sustentabilidade do sistema logístico. Na prática trata-se de criar corredores logísticos de elevado desempenho, associados às interfaces portuárias e a uma rede de portos secos conexos.”
Por sua vez, é interessante notar que o Dr. Vítor Figueiredo, Presidente da APOL, escreveu recentemente que “Um plano nacional de logística não é um exercício académico. É uma decisão estratégica sobre o posicionamento de Portugal no contexto europeu e global. É optar entre continuar a reagir a dinâmicas fragmentadas ou assumir uma visão integrada, capaz de gerar valor e reforçar a competitividade do país.”, e que “…o investimento ferroviário assume particular importância. A ferrovia é essencial para aumentar a eficiência do transporte de mercadorias (…) só será verdadeiramente transformadora se estiver integrada numa visão logística mais ampla, assegurando ligações eficazes aos principais polos logísticos.”
Ficou igualmente claro, e foi referido pelo Presidente da CPL, Cmdt. Pedro Frazão, que “o que nos faz falta neste momento é uma estratégia para uma rede de Portos Secos…”. O que faz falta é…, reforço eu, um plano estratégico que faça a linkagem do Mar com a Terra ou, como digo muitas vezes, que leve o “mar” até ao interior.
Em 2025, por altura do lançamento da estratégia Portos 5+, escrevi acerca de “Corredores Logísticos Intermodais em Portugal”. Passado quase um ano continuo a defender a necessidade urgente de todos se sentarem, conversarem e percebrem, todos, onde podemos cooperar.
Não vale a pena fazer obra e não ter comboios, não vale a pena crescer nos Portos se depois não conseguimos movimentar as cargas, não vale a pena ter Portos Secos se a carga não chega lá, não vale a pena andar à “pesca” de carga se as entidades nacionais não colaboram, não vale a pena dizer que o comboio é… e depois não é…, não vale a pena ser amigo do ambiente e promover apenas um modo de transporte.
E talvez não valha a pena continuar a insistir nesta retórica, quando – Países Baixos | Novo sistema de cobrança quilométrica para veículos pesados de mercadorias, Bélgica | Atualização do sistema de cobrança quilométrica, Alemanha | Fim da redução temporária da tributação sobre o gasóleo e Transporte Rodoviário Internacional | Alargamento das regras sociais aos veículos comerciais ligeiros.
Em Portugal, o Ministro da Administração interna refere que “Já morreram este ano 250 pessoas nas estradas” e já fala em “guerra civil”. Então, talvez valha a pena parar para pensar porque, por exemplo, a taxa de uso da ferrovia em Portugal é 8 vezes superior à de Espanha? entre outros pensamentos, tá claro.
Em seu tempo, já tivemos uma razoável rede ferroviária. Abandonamos desinvestindo e fomos fechando linhas e diminuindo atividade.
Entretanto conseguimos recuperar algo, fazendo melhor com menos. Hoje queremos recuperar tudo, mas corremos o risco de não vir a ter nada.
O sucesso do transporte ferroviário não se mede apenas pela obra feita, mas sim pelo aumento da quota de mercado.
Obrigado a quem pensa.
* Artigo publicado originalmente no site Transportes & Negócios.
Siga o canal NotíciasdeAveiro.pt no WhatsApp.
Adicionar Notícias de Aveiro às suas fontes preferidas no Google.
Montra Online NotíciasdeAveiro.pt
Consulte as oportunidades (artigos e serviços).
Publicidade e donativos
Está a ler um artigo sem acesso pago. Pode ajudar o jornal online NotíciasdeAveiro.pt. Siga o link para fazer um donativo . Pode, também, usar transferência bancária, bem como ativar rapidamente campanhas promocionais ( mais informações aqui ).






