Angeja – “Vila miradouro, por onde se espraiam as águas”

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Foto Anabela Aleixo.
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Do alto dos seus numerosos e lotados ninhos, as anfitriãs destas colinas, as cegonhas, dão as boas-vindas aos visitantes que chegam pelo lado norte. Para quem chega do lado sul, será o rio Vouga o seu anfitrião, a entrada acontece pelo Parque do Areal, uma agradável área de lazer.

Por Suzana Caldeira (Suzy) *

Angeja, hoje uma humilde vila de campos agrícolas com pouco mais de 2000 habitantes, no concelho de Albergaria-A-Velha, foi outrora uma vila medieval de relevo, sendo das primeiras vilas da região a obter a autonomia por carta de foral, concedida por D. Manuel I em 1514, é relevante também lembrar que foi sede de concelho até meados do séc. XIX (1853).

“ANSEIGIA” é a primeira referência escrita do seu nome (documento de 1166), e significa: “lugar onde se espraiam as águas”. A vila fica situada sobre 3 colinas que se debruçam sobre o rio Vouga, esta vila é miradouro natural e oferece ao visitante das mais belas e amplas vistas de todo o Baixo Vouga lagunar. Os seus terrenos se estendem ao longo do Vouga até alcançar a ria. Estas terras baixas inundadas no inverno, se enchem de verde toda a primavera e verão. São campos férteis que oferecem aos agricultores abundância de colheitas como dádiva do retorno do seu árduo trabalho.

Na sua história podemos destacar diversos acontecimentos notáveis tais como:

» Existência de vestígios dos tempos pré-cristãos comprovada pela presença de uma “mamoa” romana na zona da Afeiteira;

» O facto de ter sido um porto de mar no período anterior ao assoreamento da ria de Aveiro;

» O seu padroado ter feito parte do património das religiosas do convento de Jesus de Aveiro;

» Ter sido terra do Marquês de Angeja – sucessor do Marquês de Pombal;

» Ter sido palco de episódios registados nos conflitos históricos (a Segunda Invasão Francesa liderada por Marechal Soult, as lutas liberais de 1808 e a guerra dos trauliteiros, em 1919, onde em Angeja ocorreram combates muito violentos e foi ali travado o combate decisivo tendo o Vouga como fronteira entre Republicanos e Monárquicos).

Proposta de walking tour

No verão de 2018 preparei um roteiro para um walking tour que liderei com 40 interessados participantes, do qual deixo aqui um resumo do passeio e recomendações de visita. Relembro que este é um passeio que pode ser feito de forma autónoma.

Pela vila dentro era possível sentir o pulsar constante de tratores agrícolas para cima e para baixo, os campos da várzea enchem-se de plantações de abóboras, batatas, e muitos, muitos milheirais. O gado bovino também faz parte da paisagem, escutamos o mugir das robustas e serenas vacas “Marinhoas” que pastam ao longe.

Visita interior à Igreja Matriz de Angeja » Trata-se de uma belíssima igreja de três naves separadas por duas arcadas, foi contruída entre 1593 e 1613 e foi inicialmente dedicada a Sant’Ana, mas hoje, é a Nossa Senhora das Neves a padroeira. Recomendo que apreciem a fachada de traços seiscentistas, com belos azulejos e particularmente o nicho a escultura de pedra de Ançã da Nossa senhora do Leite. No interior acho importante realçar: o teto abobadado, os retábulos barrocos de talha dourada, as colunas em granito, o batistério, os púlpitos apoiados em guardas de madeira torneada com escadas de granito e o seu altar.

Visita do Alambique em funcionamento (Espaço de Turismo Rural privado Solar do Alambique) » Durante a visita formos acolhidos pelos proprietários do espaço Solar do Alambique, Armindo Abreu e Helena Vidinha, que nos levaram a visitar este espaço e o seu Alambique com mais de 150 anos de existência, ainda hoje em funcionamento. Deram-nos a conhecer o processo de funcionamento de destilação a partir da uva ou do mosto fermentado, passando pelo aquecimento, fermentação, condensação até à obtenção da aguardente e do bagaço. Concluímos a visita com um brinde no terraço do solar. Para visitar recomendo o contacto antecipado com os proprietários do espaço. Esta visita foi realizada enquadrada nas atividades da “Feira dos 26”, uma feira de comércio de gado com 300 anos de existência.

Outras recomendações ao visitante autónomo

» Faça paragens mais cuidadas na Escola Primário, construção do Estado Novo; no Cruzeiro (1616); no Pelourinho (Foral 1514), Fontanário da Praça Brasão do Marquês de Angeja (no edifício da Junta de Freguesia); na Casa-Palacete Arte Nova (atualmente é Centro paroquial); na Casa senhorial da praça pertencente à família Noronha, na estátua do Dr. Portugal (o bem-amado médico dos pobres); nas diversas casas agrícolas, algumas com apontamentos Arte Nova; várias casas ao estilo “Casa Americana” (casa de emigrante e/ou outras inspirações); estar atento às atividades Rancho folclórico As lavadeiras do Vouga, um grupo folclórico com 37 anos de existência que têm como missão manter vivas as danças, cantares e outras tradições da vila (mais informações).

» Caminhada pelo campo ou pelos passadiços ao logo do Rio Vouga até à Pateira de Frossos;

» Apostar numa experiência de stand up paddle no Vouga com a Sondra e o Marius da FlowsWithNature;

» Degustar o famoso Leitão à moda de Angeja.

Em jeito de conclusão, relembro que para desfrutar o que há de melhor na nossa região, o importante é sair, pois este território presta-se a ser explorado, calcorreado e apreciado ao ritmo de caminhada e contemplação. Aventure-se! E como eu dizia nos meus passeios, não esquecer de trazer chapéu, protetor solar e água.

* Fundadora da empresa de passeios Explore-Aveiro (atualmente encerrada) e autora do livro: Aveiro – Rota do Bairro da Beira-Mar https://www.facebook.com/livrorotadobairrodabeiramar

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