
Num mercado global cada vez mais competitivo, onde os turistas escolhem destinos com base na experiência partilhada e na reputação digital, basta um episódio amplificado para abalar perceções construídas com paciência e investimento ao longo de décadas.
Por Ana Jacinto *
As imagens das filas nos aeroportos portugueses não foram apenas um episódio de desorganização operacional — foram um sismo de reputação. Turistas exaustos, horas intermináveis de espera, voos perdidos, críticas inflamadas nas redes sociais e relatos que percorreram a imprensa internacional: tudo isto projetou de Portugal uma imagem que o país não se pode permitir transmitir. E o que mais inquieta não é o caos em si, mas a sua durabilidade na memória coletiva. A reputação constrói-se em anos. Destrói-se em horas.
Num mercado global cada vez mais competitivo, onde os turistas escolhem destinos com base na experiência partilhada e na reputação digital, basta um episódio amplificado para abalar perceções construídas com paciência e investimento ao longo de décadas. Um comentário negativo viraliza em minutos. Uma imagem de desorganização percorre o mundo antes de o sol se pôr. Neste contexto, a confiança não é um valor intangível — é um ativo económico crítico, tão real e tão frágil quanto qualquer outro.
Mas há uma ideia que importa afirmar com toda a clareza: este episódio não pode — nem deve — apagar aquilo que Portugal verdadeiramente é.
Por detrás daquelas imagens de caos existe um país que continua a acolher com uma hospitalidade rara, a surpreender com uma gastronomia de raiz profunda e genuína, a revelar territórios de uma beleza e riqueza incomparáveis. Existe uma rede inteira de pessoas — empresários e anfitriões, cozinheiros, pasteleiros e equipas de sala, profissionais de alojamento e guias, produtores, pescadores e agricultores— que, dia após dia, constroem experiências que ficam. Que fazem com que os visitantes queiram regressar. Que transformam uma estada numa memória.
Porque também a excelência se multiplica. Uma boa experiência gera recomendações, e uma recomendação vale mais do que qualquer campanha. É precisamente aqui que os setores da restauração e do alojamento turístico assumem um papel insubstituível: são eles que, mais do que qualquer outro, têm a capacidade de criar impacto real, de deixar algo suficientemente marcante para que o visitante regresse — e traga consigo outros.
Tal como no cinema, também o turismo tem as suas estrelas e os seus bastidores, os seus protagonistas e as suas equipas técnicas, o seu ritmo, o seu detalhe, a sua direção. Quando entramos num restaurante, num hotel, numa pastelaria ou num café, há por detrás dessa experiência um mundo invisível — técnica, logística, qualificação, criatividade, gestão, adaptação constante. Há território. Há cultura. Há identidade. E tudo isto merece ser mostrado, celebrado e amplificado.
Neste momento, mais do que alarme, o que precisamos é de uma reação coordenada e estratégica. As redes sociais que amplificaram as imagens negativas dos aeroportos têm exatamente o mesmo poder para amplificar o que Portugal tem de melhor. Cada fotografia partilhada de uma refeição extraordinária, cada recomendação sentida de um hotel, cada testemunho de hospitalidade autêntica ou de território descoberto ajuda a proteger e a reforçar a marca Portugal. A imprensa internacional e as campanhas de promoção turística têm aqui uma responsabilidade — e uma oportunidade — decisivas na reconstrução da narrativa.
O que importa agora é voltar a projetar a verdadeira película deste país. Se é certo que o público se recorda sobretudo da última cena, o nosso fim não pode ser um plano fechado no colapso biométrico de um aeroporto. Precisamos de uma sequela à altura do melhor que Portugal sabe fazer — uma sequela que mostre excelência, competência e a capacidade de receber com sofisticação e alma. O momento é agora. Luzes, câmara, ação.
* Secretária-geral da AHRESP – Associação da Hotelaria, Restauração e Similares de Portugal. Artigo publicado no site Publituris.pt.
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