
As ondas de calor que têm atravessado a Europa voltaram a colocar as temperaturas extremas no centro da discussão pública. Falou-se do impacto nas cidades, dos riscos para as populações mais vulneráveis e da pressão sobre os serviços de saúde. É igualmente importante falar daqueles que continuam a trabalhar no exterior, durante várias horas, muitas vezes sob temperaturas superiores a 40 graus. Este é igualmente um dos desafios da transição energética.
Por Sandra Leal *
Quando pensamos nesta transformação, falamos de tecnologia, investimento, descarbonização e eficiência. Falamos menos das pessoas que instalam, mantêm e operam estas infraestruturas. No entanto, sem elas, os objetivos climáticos não se transformam em projetos concretos.
No setor da energia, muitas atividades são realizadas em coberturas, parques de estacionamento, zonas industriais e infraestruturas elétricas. São trabalhos exigentes, frequentemente executados em altura e em contextos que requerem elevados níveis de concentração.
O calor extremo não deve ser encarado apenas como um desconforto. O stress térmico pode provocar desidratação, fadiga, tonturas e perda de concentração, reduzindo os tempos de reação e aumentando a probabilidade de erro. Em atividades realizadas em altura ou junto de equipamentos elétricos, uma pequena falha pode ter consequências graves.
Esta realidade obriga as empresas a integrar o risco climático na forma como planeiam e organizam o trabalho. A segurança já não pode limitar-se ao cumprimento de procedimentos ou à disponibilização de equipamentos de proteção. Tem de considerar as condições reais em que as tarefas são executadas.
As empresas do setor energético têm vindo a reforçar as medidas de prevenção e proteção dos colaboradores que trabalham no terreno. Entre as principais medidas encontram-se o acompanhamento das previsões meteorológicas, a disponibilização permanente de água potável, o reforço das pausas em zonas sombreadas ou climatizadas e a sensibilização das equipas para os sinais associados ao stress térmico.
Sempre que as condições operacionais o permitem, os horários devem ser adaptados, concentrando as tarefas fisicamente mais exigentes nos períodos mais frescos do dia. Perante temperaturas particularmente elevadas, podem também ser reorganizadas as atividades, redistribuídas as equipas ou adiados trabalhos não urgentes.
Estas decisões exigem capacidade de planeamento e uma definição clara de prioridades: nenhum prazo de execução pode sobrepor-se à segurança das pessoas.
Existe também uma importante dimensão cultural. Reconhecer sinais de exaustão, interromper uma tarefa ou alertar para condições inseguras não demonstra fragilidade, mas responsabilidade. Os supervisores devem dispor de informação, critérios claros e autoridade para adaptar ou suspender os trabalhos sempre que as condições deixem de ser seguras.
Portugal dispõe de um enquadramento relevante em matéria de segurança e saúde no trabalho. No entanto, perante a crescente frequência e intensidade destes fenómenos, será necessário continuar a evoluir. A adaptação de horários, a organização das pausas e a monitorização da exposição térmica terão de assumir um papel cada vez mais estruturado na gestão operacional.
Preparar as empresas para o calor extremo já não é apenas uma questão de cumprimento legal. É uma responsabilidade de gestão, uma condição de resiliência operacional e um requisito para a continuidade dos projetos.
Acelerar a transição energética implica também garantir que quem a constrói regressa a casa em segurança no final de cada dia.
* Diretora de Qualidade, Ambiente, Segurança e Saúde no Trabalho da Helexia Portugal. Artigo publicado no site Ambientemagazine.pt.
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