
Só recentemente dei conta de que são muitas as árvores pelas quais passo ou avisto no correr dos dias, sendo, no entanto, as mesmas do costume. Pelas minhas estimativas imperfeitas, três quartos da minha vida urbana têm sido com árvores por perto. Portanto, têm de ser muitas.
Por Lurdes Ferreira *
Na cidade algarvia onde cresci, a minha família morava perto de um campo de amendoeiras e figueiras que se estendia quase até à falésia que sustém o mar. No meio, um enorme e solitário pinheiro-manso fazia-se imponente no alto de um pequeno monte. A sombra da sua copa larga e densa foi o “sítio” de brincadeira de infância, do clube secreto, da apanha de pinhões para o lanche, das pinhas para decorar, das horas dos livros de aventuras porque ali ganhavam som e cheiro. As tardes de verão eram suaves e, quando chovia, nem um pingo passava. As casas surgiam à volta e não tinham nome de bairro, eram simplesmente “no Pinheiro”. Merecia a maiúscula.
“No Pinheiro” também ficava uma vacaria. Na rutura de abastecimentos do pós-revolução de 1974, íamos lá diariamente, nós, crianças, de bilha na mão buscar o leite que nunca faltou. O sítio é hoje uma correnteza de oficinas, os prédios e as estradas que cresceram à volta do Pinheiro roubaram-lhe alguma majestade. Já não é o abrigo de antes, com ramos vergados, mas o tempo deu-lhe filhos e a sua sombra continua a ser imensa.
As árvores do meu quotidiano de hoje, a 300 quilómetros de distância, são de muitos tipos, mas mesmo sendo altas (um espantoso dom evolutivo de milhões de anos que a ciência percebeu e foi, entretanto, anunciado), não se impõem como ele. Estão cercadas de prédios, ainda mais altos do que elas, em praças e pracetas do meu município, que fez um inventário de árvores em espaços públicos e privados. Contou 145 mil exemplares de várias espécies, entre os quais, de certeza, os dois plátanos ao fundo da rua que já alcançaram a linha do telhado do prédio de oito andares.
Quando a temperatura nos testa para lá dos limites, todos precisamos de água e sombra, sempre a sombra das árvores. Durante uma canícula extrema no Brasil a diferença chegou aos 30 graus entre a sombra de árvores e a calçada próxima. As imagens dos media das últimas semanas, da Europa central e de leste, e agora Portugal incluído, mostram como a sombra das árvores é refúgio do calor que queima até aos ossos. Até por isso, a “canícula” diz mais sobre o que sentimos no corpo do que a “vaga” ou a “onda” de calor.
A ciência não se cansa de estudar e mostrar-nos como as árvores são seres vivos únicos pelo modo como crescem, reproduzem-se, obtêm energia e respondem ao ambiente. Esta natureza viva, silenciosa e de labor invisível, faz muito mais do que nos dar um abrigo que nos proteja do calor. Limpa-nos o ar dos poluentes que causam doenças cardiorrespiratórias, retira da atmosfera o dióxido de carbono cujo excesso está na origem das alterações climáticas, fornece-nos oxigénio sem o qual não podemos viver, regula a humidade do ar e, de inverno, pode proteger-nos do frio e da chuva, para lá de muitos outros benefícios. Quando se defende que a natureza é uma infraestrutura não me ocorre outra que faça tanto por nós, desde sempre e pelo futuro, e tão raramente seja ensinada e valorizada por aquilo que é: suporte de vida.
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