Cuidados de saúde.

Viver mais é uma conquista extraordinária. Mas uma sociedade que vive mais não pode limitar-se a acrescentar anos à esperança de vida. Tem de ser capaz de transformar esses anos numa oportunidade de saúde, autonomia, participação e realização.

Por Andrea Lima *

É aqui que começa, para mim, uma das grandes questões da saúde do século XXI. Estamos a preparar os nossos sistemas de saúde para uma sociedade em que as pessoas vivem mais tempo?

A pergunta parece simples, mas a resposta obriga-nos a repensar muito do que fazemos.

Continuamos a ter uma saúde demasiado organizada em torno da doença. Preocupamo-nos, naturalmente, em diagnosticar, tratar e acompanhar cada vez melhor. Mas continuamos a investir pouco naquilo que pode evitar ou atrasar o aparecimento da doença. Nos países da OCDE, a prevenção representa menos de 5% da despesa total em saúde, apesar do seu potencial para melhorar a saúde e reduzir necessidades futuras de cuidados.

Este desequilíbrio diz muito sobre a forma como ainda pensamos a saúde. Somos muito melhores a responder ao que já aconteceu do que a antecipar aquilo que pode acontecer.

Uma sociedade mais longeva exige precisamente o contrário.

Exige uma visão de saúde ao longo de todo o percurso de vida. Não significa medicalizar a vida nem transformar cada pessoa num potencial doente. Significa reconhecer que as decisões que tomamos muito antes de envelhecer – sobre alimentação, atividade física, saúde mental, educação, condições de trabalho, ambiente ou acesso aos cuidados, condicionam a forma como vamos viver mais tarde.

A prevenção, por isso, não pode continuar a ser o parente pobre da saúde.

Mas há outra mudança que me parece igualmente importante. É que temos de deixar de organizar a saúde apenas a partir das instituições e começar a organizá-la mais a partir das pessoas.

A vida de uma pessoa não acontece por especialidades médicas. Não existe uma “cardiologia” da pessoa, uma “pneumologia” da pessoa ou uma “geriatria” da pessoa. Existem pessoas que, ao longo da vida, podem precisar de diferentes profissionais, serviços e respostas.

O sistema é que tem de ser capaz de acompanhar esse percurso.

Isto significa aproximar cuidados, integrar respostas, reforçar a comunidade e garantir que a pessoa não se perde entre instituições, níveis de cuidados e diferentes profissionais.

E significa também olhar para a longevidade para além da saúde.

Viver mais vai alterar a forma como trabalhamos, aprendemos, cuidamos, nos relacionamos e participamos na sociedade.

Uma pessoa de 70 anos hoje não é necessariamente a mesma pessoa de 70 anos de há uma geração. E uma pessoa de 80 ou 90 anos no futuro poderá ter percursos profissionais, familiares e sociais muito diferentes daqueles que ainda associamos a essas idades.

É por isso que discutir longevidade não pode ser apenas discutir pensões, cuidados continuados ou capacidade hospitalar. É discutir que sociedade queremos construir para vidas mais longas.

E aqui temos um risco que importa evitar, que é o de criar uma sociedade em que viver mais seja um privilégio de quem tem melhores condições económicas, maior literacia ou maior acesso a cuidados e prevenção.

As diferenças na esperança de vida saudável são também uma questão de desigualdade. Sabemos que as pessoas com condições socioeconómicas mais desfavoráveis vivem menos e passam uma maior proporção da vida com problemas de saúde.

Por isso, a verdadeira agenda da longevidade tem de ser também uma agenda de equidade.

Não podemos aceitar que a promessa de viver mais e melhor dependa do código postal, do rendimento, do nível de escolaridade ou da capacidade de cada pessoa para navegar num sistema de saúde cada vez mais complexo.

Esta é, talvez, a mudança mais profunda que a longevidade nos exige. Deixar de olhar para o envelhecimento apenas como um desafio demográfico ou financeiro e começar a encará-lo como uma oportunidade para repensar a própria ideia de saúde.

Uma saúde mais preventiva. Mais integrada. Mais próxima. Mais justa. Uma saúde que não espere pela doença para intervir e que não meça o seu sucesso apenas pelo número de pessoas que consegue tratar, mas também pela capacidade de manter as pessoas saudáveis, autónomas e participantes na sociedade durante mais tempo.

A questão da longevidade é saber o que vamos fazer com esses anos e que sistema de saúde queremos construir para os acompanhar.

Essa é uma discussão que Portugal precisa de fazer agora.

* Fundadora e Presidente do Forum Saúde XXI. Artigo publicado no site Healtnews.pt.

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