
Os docentes, inclusive os do ensino superior, podem, ainda que involuntariamente, influenciar ou marcar os estudantes, não poucas vezes, através de insondáveis razões ou situações, boas ou menos boas.
Por Gilberto Fernandes *
Por regra, essas marcas pertencem ao estudante, que dificilmente ousa partilhá-las com o seu (eleito) mestre. São, pois, raras as vezes em que o estudante o exterioriza e o comunica frontalmente, timidamente ou com à-vontade. Desta forma, o docente continua a desempenhar o seu papel desconhecendo em concreto essas influências modificadoras.
Todavia, há anos, aquando da conclusão da sua licenciatura em Contabilidade (com excelente média), um estudante teve a ousadia de partilhar esse tal apreço e influências que nele exerci.
Os cinco minutos requeridos pelo estudante tornaram-se numa longa conversa. Mostrou-se determinado em constituir uma empresa (vulgo, “Gabinete de Contabilidade”) e quis, portanto, recolher a minha opinião. Grosso modo, louvei o seu espírito empreendedor, mas considerei prematura tal intenção.
Isto porque tenho defendido que nas empresas (sobretudo, nas microempresas) devem estar equilibradas três funções e competências essenciais (simplificando e sem o rigor terminológico): i) produção/prestação de serviços (saber fazer); ii) comercial / marketing / comunicação (saber vender e comunicar); e iii) os serviços administrativos / financeiros / (sobremaneira) a burocracia). Defendo que estas valências devem estar e ser equilibradas, em importância e profissionalismo.
Ser bom ou excelente apenas numa delas não é suficiente. Ao invés, pode assumir um risco para o negócio. Na minha perspetiva, faltava-lhe, visivelmente, a terceira valência. E, relativamente ao saber fazer, a inexperiência também não favorecia o cenário. O estudante reconheceu e admitiu tais lacunas e insuficiências. Resumindo: se entrou receoso; saiu desalentado, ou, pelo menos, pouco animado.
Talvez por isso, nunca mais o vi. Passaram-se, entretanto, cinco anos. E, eis que recebo um convite para participar na celebração do 3.º aniversário da sua empresa. A surpresa e a alegria condimentaram aquele momento e os dias seguintes.
No esperado dia do convívio/festejo aproveitei para o questionar sobre o caminho percorrido. A resposta foi breve (não taxativamente): “Criei lastro e equilíbrio. Estagiei e trabalhei num escritório. Fiz formação. Aprendi a gostar de papelada e burocracia. Enfim, aprendi a equilibrar o banco das três pernas…”
Retorqui, sugerindo que para equilibrar o tal banco das três pernas poderia ter encurtado as pernas mais fortes e robustas (ou seja, “pautar por baixo”), conseguindo-se também, desse modo, o equilíbrio. A resposta foi disparada, em tom humilde e convincente: “Sim, podia. Mas, o “Stor” ensinou-me que devemos fazer crescer e fortalecer as mais fracas” …
Sorri. Aliás, sorrimos… Estes momentos atenuam as agruras, dificuldades e angústias, que, não poucas vezes, envolvem a docência. Mas, ainda são muito raros tais momentos…. É um princípio.
* Professor Adjunto do ISCA-UA, artigo publicado no site UA.pt.
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