
O paradigma da análise de risco nos bancos portugueses sofreu uma transformação profunda. Se há cinco anos o foco recaía, quase exclusivamente, no rácio de autonomia financeira ou no EBITDA, hoje existe uma nova variável determinante para o acesso ao financiamento competitivo, o rating ESG.
Por Sónia Pereira *
Para as empresas portuguesas, a sustentabilidade deixou de ser um exercício de reputação para se tornar a “moeda” que condiciona diretamente o custo de capital. O setor bancário, sob a supervisão rigorosa do Banco de Portugal e seguindo as orientações da Autoridade Bancária Europeia (EBA), integrou de forma estrutural os riscos climáticos e sociais nos seus modelos de avaliação de risco (rating).
O que é que isto significa na prática? Significa que ser uma empresa financeiramente sólida já não é suficiente para garantir as melhores condições. Um bom desempenho ambiental (E), uma gestão socialmente responsável (S) e uma governação transparente (G) são, hoje, os ativos reputacionais mais valiosos que uma empresa pode apresentar.
Atualmente, o acesso a spreads bonificados e a linhas de crédito de longo prazo está diretamente indexado à maturidade ESG da organização e à sua capacidade de fornecer dados verificáveis. Muitos empresários ainda veem este escrutínio como um entrave burocrático, mas importa vermos o contrário, uma vez que é uma oportunidade única de diferenciação e capitalização.
As empresas que ignoram a sua pegada carbónica, ou que mantêm estruturas de gestão informais, vão enfrentar o risco real de exclusão financeira ou custos de crédito incomportáveis. Por outro lado, as empresas que apostam na transparência e em práticas sustentáveis beneficiam de uma “via verde” no sistema financeiro. Ao apresentarem indicadores claros, transformam a sua gestão num selo de confiança que atrai melhores condições de crédito, protege as margens de lucro e consolida a empresa como um parceiro sólido perante investidores e parceiros bancários.
Mas como é que as instituições financeiras medem atualmente a solidez de uma empresa? O foco das análises recai, agora, sobre a capacidade da empresa em mitigar riscos de transição, valorizando indicadores como a eficiência energética, a economia circular e a gestão de resíduos, bem como a resiliência operacional perante fenómenos climáticos extremos. Em paralelo, os bancos analisam indicadores sociais, com destaque para a igualdade de género, a segurança no trabalho e a robustez da governação, privilegiando empresas que apresentem relatórios de sustentabilidade com metas realistas e planos de ação concretos.
Estas métricas são variáveis críticas que impactam, diretamente, a probabilidade de incumprimento e, consequentemente, o preço do dinheiro. Como refere Thomas Friedman, “Se se preocupa com as alterações climáticas, tem de se preocupar com a matemática climática”. No contexto bancário, isto significa que a sustentabilidade é, hoje, inteligência financeira: uma transição de dados qualitativos para métricas quantitativas.
Importa, portanto, apoiar as empresas neste percurso, convertendo indicadores de sustentabilidade em argumentos sólidos de financiamento. Estas exigências já estão em curso e a ditar as novas regras do mercado. Não se trata, por isso, de uma visão de futuro, mas da realidade que as empresas enfrentam hoje em cada processo de decisão bancária. Mais do que métricas de conformidade ou um dever ético, a sustentabilidade é o motor estratégico que assegura a rentabilidade, a agilidade financeira e a competitividade a longo prazo das empresas.
* Gestora de Sustentabilidade, Yunit Consulting. Artigo publicado originalmente no site Ambientemagazine.com.
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