
Ao deixar Belém, cumpridos dois mandatos presidenciais, Marcelo Rebelo de Sousa prometeu, espontaneamente, uma reserva e um silêncio mediático em que poucos ou raros acreditam.
Por Dinis de Abreu *
Afinal, o ex-“Presidente Rei” ou dos afectos, como passou a ser tratado, foi pioneiro de um certo tipo de comentário político na Rádio e na Televisão, que fez escola e que abriu um precedente que não tem equivalência nem na Europa nem fora dela.
A figura do “comentador” apoderou-se do espaço público, exercida, em particular, nas televisões, quer nos canais generalistas, quer, principalmente, nos canais temáticos de informação.
São políticos e jornalistas, que desfilam pelos estúdios, a solo, com a ajuda de prestimosos pivôs, ou distribuídos por painéis, em confronto de tendências. São militares na reserva, de alta patente, que interpretam os conflitos no mundo com sábia prosápia, e em conformidade com opções ideológicas próprias, quando a maioria nunca saiu dos gabinetes. São ainda especialistas em tudo e mais alguma coisa, que pastoreiam, com o seu virtuosismo enciclopédico, os espectadores incautos.
O “comentariado”, como passou a ser conhecido, contaminou a antena do audiovisual, e instalou-se sem pedir licença a ninguém.
É um fenómeno único e uma praga. Claro que o exercício da opinião, – plural, conhecedora e fundamentada -, é bem-vindo, se for praticado, nas televisões ou nas colunas dos jornais, com o intuito de esclarecer e de explicar as nebulosas que nos cercam.
Infelizmente, a maior parte dos actores envolvidos nesse registo cuida primeiro da sua agenda escondida e dos seus interesses, com recurso aos mais variados estratagemas, numa camuflagem que já nem disfarça a promiscuidade das “portas giratórias”, que se banalizou.
Por isso, o “novo normal” passou a ser o de políticos, jornalistas, académicos, militares, e até ministros da Igreja, estes mais recentes, cruzarem-se às portas das televisões, num vaivém constante, com a bula sabida, em defesa das suas “tribos” e convicções, quando antes da era de Marcelo-comentador quase se limitavam ao futebol, filtrado segundo o amor à camisola.
A exemplo das telenovelas, parece ser um fenómeno que veio para ficar. Uma originalidade portuguesa que teima em não sair de cena. E que se converteu para muitos num modo de vida. Com visibilidade e influência.
* Jornalista. Artigo publicado originalmente em Clube de Imprensa.
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