O modelo de compra tradicional foi virado de cabeça para baixo. Já não é sobre escolher um destino, depois um hotel e, por fim, o que se vai fazer. O viajante de hoje começa pelo “o quê”.

Por Rui Terroso *

Há vários anos que ouvimos falar da “economia da experiência” como uma tendência no horizonte. Algo para o qual o setor do turismo deveria estar atento e preparar-se para o futuro. Incrivelmente, ou talvez não, essa transição já não é uma miragem no deserto. Ela chegou. E os dados mais recentes não deixam margem para dúvidas. Analisando o relatório State of Travel 2025 da Skift, repleto de insights valiosos, foi esta a conclusão que mais me saltou aos olhos: a transição para uma economia orientada pela experiência não está a chegar, está aqui. Os números demonstram claramente uma mudança de paradigma fundamental na forma como as pessoas planeiam e vivem as viagens.

O modelo de compra tradicional foi virado de cabeça para baixo. Já não é sobre escolher um destino, depois um hotel e, por fim, o que se vai fazer. O viajante de hoje começa pelo “o quê”. Ele escolhe a experiência primeiro – um festival de música, um workshop de cerâmica local, uma caminhada guiada por trilhos secretos, um tour ao Vale do Douro, um tour de balão de ar quente na Capadócia ou em África – e, só então, constrói toda a viagem à sua volta.

Mas qual é o motor desta transformação? A resposta é simples e poderosa: Essência > Status. Aproximadamente um terço dos viajantes nos mercados emissores mais importantes prioriza ativamente experiências significativas em detrimento de confortos sofisticados.

Preferem gastar o seu orçamento em atividades exclusivas e autênticas, em vez de em acomodações premium. O valor já não reside no luxo ostensivo, mas na riqueza da memória que se leva para casa.

Esta não é uma mera perceção. Referindo o próprio Travel Experiences Trend Tracker, o relatório da Skift sublinha que as experiências e atividades são o fator-chave para prolongar as estadias num destino. Um significativo 27% dos viajantes citam as atividades como o principal motivo para ficarem mais tempo, superando de longe considerações com alojamento (9%), clima (8%) ou mesmo orçamento (14%).

E é aqui que devemos parar para pensar no efeito cascata que esta tendência desencadeia. É um círculo virtuoso que beneficia toda a economia local: experiências melhores e mais diversificadas levam a estadias mais longas, que se traduzem em mais pernoitas, mais visitas a restaurantes, mais compras no comércio local e, no final da linha, gastos significativamente mais elevados no destino. As experiências deixaram de ser um mero complemento agradável – são o motor principal que está a impulsionar toda a economia das viagens.

Em resumo, os dados do presente confirmam o que muitos de nós, no setor, sentimos há anos: as experiências autênticas, imersivas e com significado não são apenas um capricho do consumidor moderno. São, cada vez mais o cerne, o propósito fundamental pelo qual nos deslocamos. O viajante quer fazer parte de uma história, não ser apenas um espectador.

O desafio – e a oportunidade – para destinos, operadores e hoteleiros está em compreender esta nova realidade. Não se trata de adicionar um passeio opcional a um catálogo. Trata-se de reposicionar a oferta, colocando a criação de memórias no centro de toda a estratégia.

* CEO e fundador da Living Tours. Artigo publicado originalmente no site Publituris.

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