
Há problemas no sistema de saúde que se tornam tão frequentes que correm o risco de desaparecer diante dos nossos olhos, não porque deixem de existir, mas porque a repetição os transforma em paisagem, a crise dos cuidados continuados é um desses problemas.
Por Abel García Abejas *
Fala-se recorrentemente de listas de espera, de camas bloqueadas, de internamentos prolongados, de doentes clinicamente estáveis que permanecem semanas — por vezes meses — em serviços hospitalares sem necessidade de cuidados agudos, fala-se de famílias desesperadas, de profissionais exaustos, de urgências saturadas, mas talvez o mais inquietante seja precisamente a normalização coletiva desta realidade, como se o sofrimento deixasse de incomodar apenas porque se tornou estrutural.
Contudo, aquilo que hoje se vive em muitos hospitais portugueses não é apenas uma crise de gestão ou de organização, é, acima de tudo, uma crise ética. Porque quando uma pessoa clinicamente estabilizada permanece internada por ausência de resposta social, de reabilitação ou de continuidade assistencial, aquilo que fica suspenso não é apenas a alta médica, é a própria ideia de dignidade.
A medicina contemporânea tornou-se extraordinariamente eficaz no tratamento da doença aguda, salvamos mais vidas, prolongamos sobrevivências, controlamos patologias outrora fatais, mas existe uma fragilidade silenciosa que cresce paralelamente a esse progresso: o aumento da dependência, da multimorbilidade, da fragilidade funcional e da solidão clínica, e é, precisamente aí, que os sistemas de saúde revelam muitas vezes as suas maiores insuficiências.
Os cuidados continuados deveriam representar uma ponte ética entre a cura e o cuidado prolongado, um espaço intermédio de reabilitação, recuperação funcional, acompanhamento ou suporte paliativo, onde o doente pudesse continuar a ser visto como pessoa inteira e não apenas como um “caso resolvido” do ponto de vista hospitalar.
Mas, na prática, transformaram-se frequentemente num território escasso, inacessível e insuficiente para a dimensão real das necessidades existentes.
O resultado está à vista de todos, serviços hospitalares convertidos em zonas de permanência involuntária, urgências ocupadas por pessoas sem destino clínico possível, famílias emocional e financeiramente exaustas, profissionais confrontados diariamente com uma forma particularmente dolorosa de impotência moral: saber exatamente aquilo de que o doente necessita e não conseguir oferecer resposta.
Existe um sofrimento ético silencioso nos corredores hospitalares, um sofrimento que raramente aparece nas estatísticas, mas que acompanha muitos profissionais de saúde. Porque uma coisa é lidar com os limites inevitáveis da medicina, outra muito diferente é assistir diariamente ao prolongamento evitável da vulnerabilidade por falhas estruturais do sistema.
Discutimos frequentemente a sustentabilidade do SNS em termos financeiros, tecnológicos ou organizacionais, debatemos inteligência artificial, digitalização, algoritmos clínicos, medicina preditiva e automação hospitalar, mas talvez a verdadeira pergunta seja mais profunda: que lugar ocupa a vulnerabilidade numa sociedade que valoriza sobretudo a produtividade, a autonomia e a velocidade?
A dependência continua a ser vivida quase como um fracasso silencioso da modernidade, e isso reflete-se inevitavelmente nas prioridades políticas e estruturais dos sistemas de saúde.
Existe hoje uma contradição particularmente inquietante, nunca tivemos tanta sofisticação tecnológica na medicina, nunca fomos tão capazes de prever risco, monitorizar parâmetros à distância ou personalizar tratamentos, e, no entanto, continuamos incapazes de garantir algo profundamente básico: um lugar digno onde uma pessoa fragilizada possa recuperar, ser cuidada ou simplesmente existir com segurança e humanidade.
Talvez porque o problema dos cuidados continuados não possa ser resolvido apenas com mais camas, evidentemente que são necessárias mais respostas, mais financiamento e maior capacidade instalada. Mas existe uma questão mais profunda, a cultura contemporânea do cuidado.
Cuidar não é apenas tratar doença, cuidar é acompanhar vulnerabilidade, é reconhecer que existem fases da vida em que a autonomia diminui sem que a dignidade desapareça. E talvez uma sociedade verdadeiramente desenvolvida não se deva medir apenas pela capacidade de prolongar a vida, mas sobretudo pela forma como acompanha aqueles cuja fragilidade aumentou.
Há uma expressão frequentemente utilizada na prática clínica que sempre me inquietou profundamente: “doente social”, nenhuma pessoa é apenas um “problema social”. Existe sempre uma biografia, uma história familiar, medos, memórias, perdas, dependências e afetos. O risco das grandes crises estruturais é precisamente este, transformar pessoas concretas em categorias administrativas, reduzir vidas humanas a fluxos de gestão hospitalar.
E essa despersonalização começa subtilmente, quase sem darmos conta, primeiro surge a linguagem técnica, depois os indicadores de ocupação, depois os “casos bloqueados”, e, lentamente, o sofrimento individual perde rosto.
No fundo, a crise dos cuidados continuados obriga-nos a confrontar uma pergunta profundamente incómoda: o que fazemos coletivamente com aqueles que já não conseguem acompanhar o ritmo da sociedade da performance?
A resposta a essa pergunta dirá muito mais sobre o grau de civilização de um país do que muitos relatórios económicos ou indicadores de eficiência.
Porque a dignidade humana não desaparece quando a autonomia diminui, e nenhuma pessoa deveria permanecer esquecida entre corredores, burocracias e listas de espera apenas porque se tornou dependente do cuidado dos outros.
Talvez a verdadeira maturidade ética de uma sociedade comece precisamente aí, na forma como cuida daqueles que já não conseguem cuidar de si próprios.
* Médico MGF Cuidados Paliativos; Doutorando em Medicina, Docente de Bioética na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior. Artigo publicado originalmente no site Healtnews.pt.
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