A água também se “planta”!

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Captação de água do Carvoeiro.
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Hoje, é lugar comum dizer-se que a água, designadamente para uso doméstico, agrícola ou industrial, é um bem finito e já escasso. Outros dizem que a “a Água pública é de todos e não pode ser um negócio de alguns”.

Por João Dinis *

Todos teremos razões para reclamar razão. Mas nós também não queremos que “só” nos dêem razão até porque já sabemos que a temos. Nós queremos água, em substância e pelos tempos fora! Água acessível e com qualidade ainda que consoante a utilização que lhe for dada. Prioridade para o consumo humano, doméstico. Primeiro, beber água… depois comer… depois trabalhar, descansar e amar… Eis os vários e desejáveis andamentos daquilo que deveria ser a bela “sinfonia da vida”!

Mas, de facto, os consumos e a estragação – brutais – da água, em conjugação com o agravamento de outros factores decisivos, sobretudo dos climáticos e ambientais, estão a esgotar recursos hídricos a uma escala perigosa em termos das condições de vida e de sobrevivência (ou da falta dessas condições…) para o futuro da Civilização, inclusive para o futuro já próximo.

O debate está aceso. Ainda bem!

Centremo-nos entretanto na “nascente” do ciclo da água

Discute-se, por vezes acaloradamente, as opções estratégicas quanto à extracção, recolha, armazenamento, condução, utilização e preços da água pelas regiões, pessoas, países, mesmo continentes. Portugal tem o candente e mais do que estratégico problema da gestão mais justa das águas dos rios que vêm desde Espanha. Mesmo o (grande) rio Tejo quase seca… Quanto a isso, que está a acontecer? Que nos vai acontecer?…

Como é óbvio, as situações são diferentes consoante diferentes também o são as circunstâncias, as realidades em concreto, e nem sempre há interacção directa entes elas às grandes escalas. Mas coexistem e há interacção indirecta, sistémica, embora poucas vezes perceptível a “olho nu”.

A minha região, em que habito há já muitos anos, em relativamente curto espaço de tempo (meia dúzia de décadas), sofreu grandes alterações físicas, ambientais, sociais, várias delas provocadas ou aceleradas pela dita Civilização.

Por exemplo, na primeira metade dos anos oitenta do século passado, foi construída e encheu a Barragem da Aguieira, a represar muita água na bacia do Mondego, a menos de 50 Km a montante de Coimbra. Pois então, desde 1984 que nunca mais nevou que se visse na minha terra natal (fica no concelho de Oliveira do Hospital) onde todos os anos nevava, não muito, mas o suficiente para, com alguma frequência, cobrir o chão e os telhados, no Inverno. Ou seja, o ter deixado de nevar não será mera coincidência com o acumular da enorme massa de água pela Barragem da Aguieira. Esta situação, mais do que provavelmente, provoca um micro-clima o qual, por sua vez, produz algumas alterações climáticas na região que, a seguir, influenciam as condições de vida, desde logo na Agricultura. É um processo de causa-efeito em cadeia, à escala.

Desde há 50 anos, as povoações foram sendo dotadas de sistemas de recolha e tratamento de esgotos. Primeiro, foram as “fossas sépticas” cujos efluentes, porém, poluíam bastante pois, por via de regra, acabavam a correr em linhas de água, depois nos riachos, finalmente nos rios… Poluição a juntar-se a mais poluição de origem industrial!

Em garoto e mesmo já em (jovem) adulto ainda eu, meus conterrâneos e nossos vizinhos, no Verão, nos íamos a banhar com prazer em alguns trechos do Rio Seia (afluente do Rio Mondego). Porém, após o advento das chamadas “fossas sépticas” e da instalação de algumas indústrias, as águas do Rio Seia foram ficando poluídas até ao insuportável. Ainda hoje, e apesar das melhorias introduzidas pelas mais recentes ETAR, Estações de Tratamento de Águas Residuais (esgotos), mesmo assim, o Rio Seia ainda não está recuperado das mazelas causadas pela poluição impune a qual continua a afugentar os possíveis utilizadores dessas águas de se banharem e refrescarem em dias de canícula. E, neste âmbito da poluição, o próprio Rio Mondego também continua bastante afectado. Uma pena em geral que em mim resvala para indignação!

Sim, a Água também se “planta”!

Esta mesma região e até aos anos oitenta do século passado, tinha uma Floresta tradicional em que predominava o pinhal (sobretudo o bravo mas também o manso) desde há mais de 100 anos. Vieram os grandes incêndios florestais que, ano após ano, foram queimando essa mancha florestal que, quase ao mesmo ritmo, foi sendo substituída pelos eucaliptais em modo de produção intensivo, com fins industriais (estilha). Assim, através da intensificação indiscriminada da produção florestal, intensiva e em regime de monocultura, foi aumentado bastante o ritmo de consumo de água, à superfície e no subsolo.

Veio 2017 e através do “Fogo Grande” de 15 e 16 de Outubro, abateram-se sobre nós – nesta região, no concelho de Oliveira do Hospital e concelhos vizinhos – a maior tragédia humana e o maior desastre ambiental e económico de que há memória!

Para além dos numerosos mortos e feridos e de prejuízos materiais de toda a ordem, a Floresta existente (mais industrial ou mais tradicional) foi queimada, dizimada! Pura e simplesmente ficámos sem Floresta! Portanto, ficámos sem uma “máquina” natural de produção e reciclagem da água!

Hoje, nesta região, nós os “autóctones” com mais idade, já somos capazes de sentir diferenças nas condições climáticas provocadas pela desflorestação brutal por aqui acontecida com os Incêndios Florestais. Agora, o Sol queima mais que há anos atrás, o calor é ainda mais seco, a nossa pele exposta ao Sol, e mesmo ao frio, ressente-se mais e acabará por se ressentir o nosso organismo humano e não habilitado para se adaptar, apenas durante algumas décadas, a estas condições mais adversas. Há menos humidade no ar, a “estufa” aquece mais, os pulmões e o sangue têm menos oxigénio à disposição. Temos menos energia dentro e fora de nós. E não tem havido reflorestação! E já lá vão 5 anos desde o “Fogo Grande” de 2017!…

A orientação a executar deve ser: “Plantar árvores! Reflorestar, reflorestar!”

É, pois, absolutamente urgente, é incontornável, é estratégico, passar a uma reflorestação criteriosa, através de um correcto “ordenamento florestal” em toda esta região (e noutras) – é necessário inverter as tendências para (re)florestar com floresta monocultural e intensiva – para “regularmos” melhor o ambiente, o clima, o ar que respiramos, bem como para “fazer” boa parte da água que queremos continuar a ter. Água acessível, disponível em quantidade e em qualidade!

A Agricultura regional e nacional também deve voltar-se para a recuperação da produção e do uso de espécies e sementes mais adaptadas à escassez de água porque esta vai faltar… Daí se reclamar que as políticas agrícolas oficiais, a começar pela PAC, passem a privilegiar a atribuição de apoios públicos aos modos de produção menos intensivos – desde logo à Agricultura Familiar – e à Floresta multifuncional ou de uso múltiplo.

Portanto, e embora não se apresente a tese como alternativa à extracção, recolha, armazenagem e consumo de água, consideramos como estratégico e urgente “plantar” a água (assinalo que esta expressão “paga direitos de autor”…) através da plantação prioritária de Floresta multifuncional (não monocultural e não intensiva) e também através da recuperação, para produção e consumo, de espécies arbóreas, plantas e sementes mais tradicionais.

Claro que isto, repete-se, não deve impedir que pelo menos as águas de superfície deixem de continuar a ser tão desperdiçadas… ao deixá-las correr “tranquilamente” para o Mar… a partir do qual será necessário “dessalinizar” a água para a poder (re)utilizar nas suas principais finalidades…

* Presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA). Artigo publicado originalmente em CNA.pt.

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