Incêndio florestal.

A sucessão de episódios extremos em Portugal Continental obriga a uma análise rigorosa sobre um risco que muitos tendem a considerar temporariamente afastado: os incêndios florestais.

Por Diogo Fernandes Sousa *

A perceção pública de que a abundância de chuva funciona como um antídoto natural contra o fogo é tecnicamente errónea. A evidência científica e a experiência operacional indicam que invernos excecionalmente chuvosos podem, paradoxalmente, criar condições favoráveis a incêndios mais rápidos, intensos e difíceis de controlar nos meses subsequentes.

Um dos mecanismos deste fenómeno é a elevada disponibilidade hídrica no solo, resultante das chuvas intensas, que promove um crescimento acelerado da vegetação herbácea e arbustiva, nomeadamente pastagens espontâneas e matos rasteiros. Esta explosão de biomassa fina é, no imediato, interpretada como um sinal de vitalidade ecológica. Contudo, trata-se de uma vegetação com ciclo de vida curto e elevada superfície/volume, que seca rapidamente quando exposta a temperaturas elevadas. Em contextos de primavera precoce ou de ondas de calor no início do verão, bastam poucos dias para que esse manto verde se transforme em combustível inflamável, capaz de acelerar drasticamente a propagação do fogo e de servir de rastilho.

A este fator biofísico soma-se um problema de natureza infraestrutural e logística. As cheias provocaram derrocadas, erosão e destruição parcial de caminhos rurais e florestais em várias regiões. A degradação da rede viária florestal tem consequências diretas na capacidade de prevenção e de resposta. Por um lado, dificulta a execução atempada das faixas de gestão de combustível, frequentemente dependentes de maquinaria pesada. Por outro, compromete o acesso rápido dos meios de combate, nomeadamente autotanques, a zonas remotas ou de relevo acidentado.

Do ponto de vista climatológico, a transição prevista de um episódio de El Niño para uma fase de neutralidade climática, eventualmente seguida de La Niña, introduz incerteza adicional na evolução das condições atmosféricas na primavera. Paralelamente, os registos do IPMA confirmam uma tendência consistente para verões mais quentes e mais secos, com maior frequência de ondas de calor.

Importa ainda considerar os efeitos menos evidentes das inundações sobre os ecossistemas florestais. O excesso prolongado de água no solo pode provocar asfixia radicular, aumentar a suscetibilidade a doenças e enfraquecer árvores. Se este stress hídrico for seguido, como é frequente em Portugal, por um período de seca severa, muitas dessas árvores entram em declínio ou acabam por morrer. A madeira morta e doente é combustível capaz de arder com maior intensidade, libertar mais energia e prolongar a duração dos incêndios, dificultando as operações de rescaldo.

Há, igualmente, uma dimensão comportamental que não deve ser desvalorizada. Invernos chuvosos tendem a gerar uma falsa sensação de segurança, levando muitos proprietários a adiar a limpeza dos seus terrenos, sob a convicção de que a humidade persistirá durante o verão. Esta perceção ignora a rapidez da evapotranspiração em episódios de calor extremo. Acresce que o material orgânico acumulado ou deslocado pelas cheias incentiva, em alguns casos, à realização de queimas e queimadas para limpeza, nem sempre realizadas no período legal ou com a devida autorização. Estatisticamente, estas práticas continuam a ser uma das principais causas de ignições acidentais em Portugal.

Por fim, é necessário reconhecer as limitações impostas pela gestão de recursos públicos. Após inundações graves, os municípios concentram inevitavelmente esforços financeiros e humanos na reconstrução de infraestruturas e no apoio às populações afetadas. Sem um reforço específico, esta prioridade pode reduzir a capacidade de investimento em ações de prevenção estrutural antes do início do período crítico de incêndios.

Em síntese, o risco de incêndios florestais não foi anulado, antes pelo contrário, introduziu-se um conjunto de fatores agravantes que, articulados, configuram uma tempestade perfeita. A resposta exige uma abordagem integrada, sustentada em conhecimento científico, planeamento territorial e responsabilização individual e coletiva. A prevenção continua a ser o instrumento mais eficaz e menos oneroso para evitar que a próxima catástrofe encontre um território ainda mais vulnerável.

* Escritor do Livro “Rumo da Nação: Reflexões sobre a Portugalidade”.

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