Agricultura.

Quando se discute a adaptação climática em Portugal, o foco cai quase invariavelmente sobre a água. Quanta água temos nas albufeiras? Quanta água consome cada setor? Que infraestruturas pesadas de armazenamento precisamos construir? Estas são perguntas vitais. Contudo, existe outro recurso fundamental que recebe muito menos atenção, apesar de ser a base biológica e física de todo o sistema: o solo.

Por Maria João Sacadura *

Sem solos saudáveis e estruturados, a capacidade de infiltração da água diminui drasticamente, os impactos da seca intensificam-se, a erosão acelera, a biodiversidade entra em colapso e a resiliência agrícola desaparece. O solo é a infraestrutura invisível que dita o sucesso de qualquer estratégia de adaptação hídrica ou territorial.

Porque é que o solo é importante?

A física, a ecologia terrestre e a biogeoquímica explicam esta centralidade de forma simples. Um solo saudável funciona como uma esponja natural de escala maciça: retém a humidade nas camadas subsuperficiais, reduz o escoamento rápido, mitiga o risco de cheias a jusante e suporta a biodiversidade microbiana, indispensável para a nutrição e resiliência das culturas contra pragas e stress térmico. Além disso, funciona como um sumidouro crucial de carbono estável.

Inversamente, um solo degradado repele a água devido à perda de porosidade, amplia os efeitos térmicos das ondas de calor e transforma a precipitação forte num vetor de destruição, arrastando horizontes superficiais férteis através da erosão.

O desafio do Algarve e os erros de gestão territorial

No Algarve — barómetro do stress climático do Sul da Europa —, este desafio assume extrema urgência. A região enfrenta seca hidrológica prolongada, riscos severos de desertificação e incêndios florestais. Mas o verdadeiro colapso do solo resulta diretamente de práticas humanas erradas, tanto no mundo rural como no meio urbano.

Nas nossas malhas urbanas, assistimos a uma impermeabilização desnecessária e agressiva. Os decisores locais continuam a achar que um relvado — que exige dotações hídricas insustentáveis no verão — preenche o requisito de “zona verde”. Ignora-se a necessidade de zonas arborizadas capazes de criar microclimas. Pior: assistimos à mutilação do património arbóreo através da bárbara prática da poda de rolamento nas cidades e ao abate incompreensível de árvores seculares sob o pretexto de que “estragam os passeios”, substituindo-as por espécimes jovens que levarão décadas até atingir a mesma capacidade de regulação térmica e biogeoquímica. Conforme detalhado no estudo sobre solos urbanos do projeto europeu Soil Health Benchmarks, esta degradação artificial severa compromete funções ecológicas vitais e exacerba os impactos de desastres naturais nas cidades. [1]

No campo, o cenário não é menos preocupante. Continuam a aplicar-se técnicas agrícolas agressivas que destroem mecanicamente as camadas férteis da terra — o uso cego da charrua é o exemplo mais gritante de inversão de horizontes e destruição estrutural. A isto soma-se a dependência de fertilizantes e pesticidas de síntese, que esterilizam o solo. Há um desconhecimento generalizado — ou esquecimento deliberado — de regras básicas de proteção e regeneração, tais como a consociação e a rotação de culturas, a utilização de compostos e adubos naturais, a manutenção de sebes vivas contra a erosão, a introdução de organismos para o controlo de pragas ou a plantação estratégica de espécies aromáticas específicas para dissuadir os insetos fitófagos.

O que estamos a medir?

Para inverter este cenário e dotar o planeamento de capacidades regulatórias, os sistemas de monitorização e avaliação (M&A) têm de integrar indicadores biogeoquímicos e biofísicos claros como métricas de sucesso territorial. Devemos focar a decisão em exemplos de indicadores auditáveis que realmente funcionam:

• Teor de Matéria Orgânica do Solo: O indicador primário da capacidade de retenção hídrica e fertilidade biológica.
• Taxas de Erosão Ativa e Capacidade de Infiltração: Métricas que avaliam quanta água da chuva é efetivamente aproveitada pelo sistema subterrâneo e quanta se perde em escoamento destrutivo devido à impermeabilização e compactação.
• Níveis de Compactação Mecânica: Para monitorizar a perda de porosidade provocada pela mobilização excessiva do solo.
• Biodiversidade do Solo e Evolução da Cobertura Vegetal: Indicadores que medem a atividade biológica microbiana e a proteção física da superfície contra o impacto cinético da chuva.

Da produtividade à resiliência

A transição que enfrentamos exige uma profunda mudança de paradigma na forma como gerimos a terra. A questão tradicional do agronegócio foca-se no curto prazo: quanto é que este solo consegue produzir na próxima campanha? A questão pessoal e técnica que coloco, alinhada com o trabalho que levarei para o seio da Federação Europeia de Geólogos, é outra: quão resiliente é este sistema de solo sob condições de stress extremo e prolongado?

Esta distinção altera por completo a elegibilidade para fundos e subsídios, algo que assume particular relevância no quadro regulatório europeu, onde o princípio “Do No Significant Harm” (DNSH) exige que os investimentos agrícolas não degradem os ecossistemas locais.

Conclusão

A adaptação climática é frequentemente discutida em termos de engenharia hidráulica pesada e gestão de água de superfície. No entanto, algumas das medidas mais eficazes começam exatamente abaixo dos nossos pés, na forma como tratamos a biologia da terra e a estrutura das nossas florestas urbanas.

Se queremos uma paisagem rural e urbana capaz de resistir às crescentes pressões climáticas, a saúde do solo tem de passar para o centro geométrico da decisão política. Sem solos saudáveis e biologicamente ativos, a resiliência territorial torna-se uma impossibilidade física.

* Especialista em gestão ambiental, adaptação climática e avaliação de impacto. Artigo publicado no Agroportal.

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