Museu do Aljube.

Quando pensamos em Turismo, não costumamos associar-lhe a morte. Mas o facto é que ela está presente, de forma mais ou menos visível, em muitas atrações. Em alguns casos é fácil apercebermo-nos dessa ligação, mas noutros casos ela não é tão óbvia, mas nem por isso menos presente ou menos intensa. E isso provoca sempre algum tipo de reação nas pessoas, quer sejam turistas, decisores e gestores turísticos, ou mesmo as populações.

Por Belmira Coutinho *

A minha abordagem ao estudo do Turismo Negro, ou Dark Tourism como também é conhecido em português, coloca o foco precisamente nas relações que se estabelecem nesse encontro. Usar a morte e o sofrimento como lente torna visível uma teia de relações teóricas, contextuais, mas também permite identificar atores concretos e entender reações humanas, o que pode dar ferramentas concretas ao nível da gestão do património e das atrações.

A investigação que desenvolvi no Museu do Aljube, em Lisboa, procurou mapear essas relações num contexto específico, que é o de uma antiga prisão política do Estado Novo convertida em Museu. Estudei como diferentes grupos de visitantes interpretam e interagem com os elementos expositivos que retratam a opressão, a violência e a morte perpetradas pelo Estado Novo.

Aquilo que percebi foi que o grau de memória e o grau de consciência política são dois fatores fundamentais que vão influenciar as perceções e reações dos visitantes, mas a forma como a morte e o sofrimento são incluídos na narrativa museológica também tem grande influência. E isto é particularmente relevante para as pessoas que não viveram durante o Estado Novo e não têm uma consciência política ainda muito desenvolvida, i.e. pessoas mais jovens. O conjunto de sujeitos com estas características que entrevistei mostrou-se bastante cético quanto à violência e ao sofrimento perpetrados pelo Estado Novo mesmo depois de terem visitado o Museu, devido à falta de evidências e representações materiais, concretas. Eles sentiram falta de elementos que lhes permitissem identificar-se com as vítimas, o que ao mesmo tempo fez com que tivessem dificuldade em identificar claramente quem eram as vítimas e quem eram os perpetradores da violência.

Isto é preocupante, mas também permite apontar caminhos de resolução. A aposta em testemunhos e reconstituições de percursos individualizados de presos e perseguidos políticos poderá ser uma forma de contrariar esta descrença e tornar a narrativa museológica mais eficaz para estes públicos. Especialmente com as novas tecnologias de realidade virtual e inteligência artificial, embora aqui seja necessário mantermos sempre uma perspetiva crítica como a das Humanidades Digitais Críticas.

* Centro de Línguas, Literaturas e Culturas/Departamento de Línguas e Culturas da Universidade de Aveiro. Artigo publicado no site UA.pt.

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