Tecnologias.

Vivemos num tempo em que os algoritmos decidem mais depressa do que os tribunais, os sensores e as câmaras observam mais do que se imagina e as plataformas digitais conhecem mais sobre os indivíduos do que os próprios governos. A tecnologia deixou de ser um instrumento técnico para se transformar numa infraestrutura de poder.

Por Diogo Fernandes Sousa *

A transparência tecnológica assenta no princípio transformador de que os cidadãos têm o direito de compreender como funcionam os sistemas digitais que influenciam as suas vidas. Saber quem recolhe dados, para que finalidade, com que critérios e sob que responsabilidade é uma condição de liberdade numa sociedade digitalizada.

Durante décadas, a inovação tecnológica foi apresentada como um processo inevitável e neutro; contudo, a experiência demonstra o contrário. Algoritmos de recrutamento discriminam candidatos com base em género ou origem social; sistemas automatizados de crédito penalizam determinados códigos postais; plataformas digitais manipulam preços em função do histórico de navegação dos utilizadores; redes sociais amplificam desinformação através de mecanismos de recomendação. A caixa-negra algorítmica tornou-se uma nova forma de poder invisível.

Neste contexto, a transparência algorítmica permite compreender os critérios utilizados nas decisões automatizadas. A governação de dados esclarece quem recolhe, armazena e comercializa informação pessoal. A explicabilidade traduz linguagens técnicas complexas para formatos inteligíveis pelo cidadão comum. A responsabilização identifica os agentes responsáveis pelos sistemas digitais e pelos seus impactos sociais.

A União Europeia tem procurado posicionar-se como referência internacional nesta matéria. O Regulamento Ecodesign for Sustainable Products Regulation introduziu o Passaporte Digital de Produto, permitindo rastrear materiais, origem e pegada ecológica de bens de consumo. Em Portugal, iniciativas como o Portal Mais Transparência representam avanços na auditoria de fundos públicos. Também alguns municípios começaram a mapear sensores urbanos, câmaras e dispositivos de recolha de dados instalados no espaço público, explicando a sua função aos cidadãos. Contudo, a transparência continua a ser aplicada de forma seletiva, frequentemente apenas quando não ameaça interesses políticos, administrativos ou económicos instalados.

O caso português relativo à utilização do Regulamento Geral de Proteção de Dados constitui um exemplo paradigmático dessa contradição. O RGPD foi concebido para proteger os cidadãos perante abusos no tratamento de dados pessoais. Porém, o regulamento tem sido frequentemente instrumentalizado como mecanismo burocrático de ocultação e bloqueio ao escrutínio público.

Sob a invocação genérica da “proteção de dados”, recusam-se contratos públicos, ocultam-se nomes de decisores, rasuram-se auditorias e limitam-se investigações jornalísticas. Em vez de proteger o cidadão contra o abuso do poder, protege-se frequentemente o poder contra o escrutínio do cidadão.

Importa sublinhar que esta realidade não decorre de qualquer imposição europeia. O próprio RGPD prevê exceções quando está em causa um interesse público. A cultura de segredo observada em Portugal revela uma tradição administrativa profundamente avessa à transparência e excessivamente tolerante perante a ausência de prestação de contas, contribuindo para a desresponsabilização política e para a corrosão da confiança institucional.

Existe aqui uma ironia particular: a inteligência artificial que é criticada pela sua opacidade pode tornar-se uma das ferramentas mais eficazes de fiscalização. Sistemas de IA conseguem analisar milhões de documentos públicos, detetar padrões de corrupção, identificar conflitos de interesses e auditar algoritmos discriminatórios numa escala impossível para equipas humanas.
A área da Explainable AI demonstra que é possível desenvolver sistemas capazes de justificar decisões automatizadas de forma inteligível. Um algoritmo que rejeita um crédito bancário ou um subsídio social deve ser capaz de explicar os critérios utilizados. Sem explicação não existe justiça processual.

Além disso, a IA pode democratizar o acesso ao conhecimento técnico. Modelos linguísticos conseguem resumir políticas de privacidade, traduzir contratos complexos e identificar cláusulas abusivas. Num futuro próximo, agentes automatizados poderão gerir preferências de privacidade dos cidadãos, bloquear rastreadores digitais e monitorizar a circulação dos seus dados pessoais na internet.

A transparência tecnológica não implica ingenuidade tecnológica nem abertura absoluta. Existe sempre uma tensão entre transparência, segurança e proteção da propriedade intelectual. Divulgar integralmente determinados sistemas pode expor vulnerabilidades ou facilitar ataques informáticos. Porém, reconhecer essa complexidade não pode servir de pretexto para institucionalizar a opacidade.

A questão central é quem controla os sistemas que controlam a sociedade?

Se a resposta permanecer restrita a governos, plataformas tecnológicas ou entidades privadas sem supervisão pública, caminharemos para uma democracia formalmente livre, mas tecnicamente opaca. Uma sociedade onde as decisões são automatizadas sem possibilidade de compreensão, contestação ou responsabilização dos seus responsáveis.

O problema da opacidade pública não é meramente técnico nem jurídico. É cultural e político. Em Portugal, persiste uma visão paternalista do Estado segundo a qual a informação pertence à Administração e não aos cidadãos que a financiam. O acesso a documentos públicos continua frequentemente dependente da boa vontade burocrática, como se a transparência fosse uma concessão e não um direito democrático elementar.

Uma democracia não pode pedir aos cidadãos que confiem cegamente em sistemas que não podem compreender, fiscalizar ou contestar. Sempre que a opacidade tecnológica se cruza com a opacidade política, o resultado é uma corrosão silenciosa da democracia. E uma democracia corroída pela invisibilidade do poder é uma democracia menos livre.

* Escritor do Livro “Rumo da Nação: Reflexões sobre a Portugalidade”.

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