
Na última Assembleia Geral da União das Misericórdias Portguesas (UMP) foram tomadas decisões que irão ter um grande impacto na vida de todo este nosso movimento. A aprovação da constituição da Fundação das Misericórdias vai permitir repensar e revisitar todo o modelo de desenvolvimento institucional destas instituições que acompanham, há mais de quinhentos anos, Portugal na construção do Estado social.
Por António Tavares *
Ficou muito claro que a partir de agora teremos duas áreas de intervenção no âmbito da UMP, sempre sob o escrutínio das Misericórdias a quem pertencem as decisões finais.
Uma primeira que vai permitir a gestão das chamadas anexas e uma outra que vai possibilitar à UMP assumir-se como um verdadeiro parceiro social sem conflito de interesses.
Como sempre, as Misericórdias souberam inovar e assumir este novo momento que ficará para a história tal como a decisão da rainha D. Leonor. Desde o início dos anos 90 que
defendi a constituição desta Fundação, ao tempo com a liderança do padre Vítor Melícias, e acabou por ser no ano em que invocamos os 500 anos da morte dessa rainha,
17 de novembro de 1525, que se dá esta curiosa coincidência da instituição da Fundação.
Resta agora, ao Secretariado Nacional, executar a deliberação da Assembleia Geral sem condicionar o futuro do movimento das Misericórdias. Temos agora uma oportunidade de ouro para transformar e liderar, em Portugal, o movimento social.
De um lado deixando à Fundação a gestão de todas as chamadas anexas e integrar as várias áreas de desenvolvimento social na produção de resultados e riqueza para se
distribuir pelos mais necessitados.
Ao mesmo tempo, a UMP deverá assumir o seu papel no suporte às Misericórdias dando à área da saúde, por exemplo, a expressão necessária para a integração num sistema nacional de saúde que permita resolver os inúmeros problemas que o SNS, por si só, não consegue ultrapassar.
Simultaneamente, torna-se necessário que o apoio às Misericórdias se concretize tendo em atenção as dificuldades de muitas delas por ausência de economias de escala. Deve ser exigido aos Secretariados Regionais um papel mais próximo e de maior capacidade de intervenção nos territórios e no apoio as populações.
Sabemos que a UMP, por forçadas disposições legais, terá de encontrar uma nova liderança para a afirmação destes desafios e aqui quero realçar o papel estrutural que o Dr. Manuel de Lemos desempenhou e desempenha nestes consecutivos mandatos. Sabemos, também, que não será fácil encontrar uma liderança onde o diálogo e a proximidade foram marcas estruturais no sucesso do trabalho da UMP.
O tempo é como é, as coisas são como são, e teremos de partir para um outro ciclo e, por isso, nada como na chegada de um novo ano desejarmos uma nova vida. Uma
vida que continue a assentar na nossa tradição de solidariedade e compreenda a necessária modernidade a que somos obrigados a responder.
Antes de nós outras gerações tiveram esse desafio. Agora compete–nos sermos dignos das próximas gerações. Aquelas que vão viver o tempo de conjugar a inteligência artificial com a inteligência emocional.
Como dizia Fernando Pessoa, a um outro propósito, o movimento das Misericórdias pode-se estranhar, mas depois entranha-se sem dificuldade.
* Artigo publicado no jornal Voz das Misericórdias.
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