Cidade de Aveiro.

Quando uma autarquia decide comunicar resultados estatísticos sobre o desenvolvimento do seu território, há sempre uma tentação quase irresistível: escolher os números que mais favorecem a narrativa que se quer passar.

Por Francisco Albuquerque *

Foi exatamente isso que fez a Câmara Municipal de Aveiro (CMA), ao anunciar com grande pompa e circunstância com base no estudo da PORDATA que o concelho cresceu acima da média nacional entre 2021 e 2024. O título é sedutor, os gráficos são vistosos, e a mensagem é clara: Aveiro é um caso de sucesso, um concelho em expansão e em dinâmica de desenvolvimento.

Mas a política não se faz apenas de manchetes. Quando se olha para os números com mais cuidado, percebe-se que esta narrativa, apesar de conter factos verdadeiros, é construída com base em omissões significativas e comparações escolhidas a dedo. Os cidadãos não são obrigados a ter formação estatística, mas não podem ser tratados como se fossem incapazes de pensar criticamente. Os aveirenses merecem mais do que propaganda: merecem verdade, transparência e, sobretudo, políticas que respondam aos desafios reais que a cidade enfrenta.

Sim, Aveiro cresceu, mas o fez exclusivamente graças ao saldo migratório (+5.958), já que o saldo natural foi negativo (–394). Isto significa que a cidade não consegue fixar famílias nem criar raízes duradouras: atrai população de passagem, estudantes, trabalhadores temporários, mas não oferece condições estruturais para permanecerem.

Basta olhar para a rede educativa: uma cidade com cerca de 11 mil jovens até aos 15 anos dispõe apenas de 33 jardins de infância, contra 64 em Leiria e 42 em Viseu, que até tem menos jovens. No campo da habitação, celebram-se 856 fogos construídos em três anos, mas muitos foram comprados por fundos de investimento e permanecem vazios, servindo apenas à especulação imobiliária. O tecido empresarial permanece estagnado, com as mesmas 21 grandes empresas de sempre (não se captou nenhuma), e os serviços públicos mostram fragilidades graves: menos farmácias e menos camas hospitalares por habitante do que a média nacional.

No turismo, o crescimento de 21,7% desde 2019 é celebrado como vitória, mas fica atrás de cidades como Santa Maria da Feira (+34,1%), Viana do Castelo (+34,7%) ou Leiria (+32%), que não têm os mesmos recursos naturais e culturais. No ambiente, o desastre é evidente: mais de 20% da água potável perde-se na rede e a recolha seletiva caiu de cerca de 33% em 2021 para apenas 19,2% em 2024.

O quadro que emerge não é o de um município dinâmico, mas de um concelho que vive de narrativas escolhidas a dedo. Em vez de ser um agente ativo na persecução das políticas públicas que poderiam transformar Aveiro numa cidade de futuro, a Câmara limita-se a ser um agente passivo dos ventos nacionais, refém de estatísticas e slogans, incapaz de enfrentar os problemas estruturais.
Aveiro cresce em números, mas não em qualidade de vida. Cresce em prédios vazios, em fluxos temporários e em propaganda. O que falta é crescimento real e orgânico: em escolas, em habitação acessível, em serviços públicos, em sustentabilidade. E isso exige muito mais do que gráficos coloridos — exige coragem política e compromisso com os cidadãos.

* Gestor industrial, residente em Aveiro.

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