Debate autárquico, 2025.

Interpelado em mais um debate, deste vez organizado pelo JN e TSF, Luís Souto continuou sem ‘abrir o jogo’ sobre como poderá gerir a Câmara de Aveiro, caso seja eleito em minoria (um cenário que nunca sucedeu desde que Élio Maia arrebatou a Câmara ao PS numa coligação PSD-CDS).

O candidato da ‘Aliança Com Aveiro’ contornou a questão, insistindo nos riscos de “estagnação” e “de entrar numa fase em que grandes projetos sejam adiados ou bloqueados”, pelo que a maioria absoluta é a forma de evitar uma “aventura de custos muito pesados”.

Já o irmão, candidato do PS, invocou a sua própria “experiência” para desdramatizar. “O futuro não me assusta, trabalharei em qualquer cenário, governei em minoria, estabelecendo os consensos necessários e foi um período fantástico de investimento e desenvolvimento, e quando em maioria sempre respeitei as minorias. Devemos ter medo é de não ter ideias e um projeto que saibamos desenvolver, acho que é o receio da coligação, além do que se sente no terreno, onde estamos a ganhar força”, referiu, explicando que “por uma questão de princípio” o PS não faz acordos com o Chega. De qualquer forma, “quando está em causa interesses da terra”, acredita que é possível obter consensos. “90, 95 % das decisões tomadas quando estava em minoria foi por consenso, com forças do PSD e CDS”, afirmou, acreditando que aqueles partidários terão “sentido de responsabilidade”, colocando “o interesse público de Aveiro e o interesse partidário”.

Diogo Machado, do Chega, continuou a resistir também em falar no dia a seguir às eleições. “Nós trabalhamos para ganhar as eleições”, repetiu. O cabeça de lista não deixou de insistir “como ponto prévio” que aguarda da coligação PSD-CDS-PPM esclarecimentos sobre os acontecimentos envolvendo a gestão da presidente e recandidata à Junta de Aradas, Catarina Barreto, por diversos ‘casos’ em que tem sido visada localmente “Mantém ou não a confiança na candidata”, disse questionando Luís Souto, sem que lhe fosse dada a resposta.

O debate do incontornável tema da habitação serviu para Luís Souto retomar uma vantagem que diz ter na ‘corrida eleitoral’, que será conjugar a gestão municipal com “um governo da mesma cor”, o que será útil para criar mais oferta de habitação. “Há um bairro do IHRU que nem uma parede conseguiram fazer”, referindo-se ao projeto para a antiga Luzoestela que já vem do Governo socialista. O candidato voltou a colocar como ‘bandeira’ eleitoral reconverter o quartel da GNR. “Quando chegar à Câmara, a primeira coisa é marcar uma reunião com Governo, porque temos dossiês decisivos para Aveiro, e este é um deles”, reafirmando, mais adiante, após desafio de João Moniz (BE), a necessidade de “habitação pública”, como “está previsto na Estratégia Local de Habitação”.

Alberto Souto recusou a “ideia que o Estado e um Governo, por ser da simpatia de uma Câmara, vai descriminar e favorecer positivamente a Câmara da mesma cor. É uma ideia indigna de postura de Estado, o Governo tem de trabalhar com todas as Câmaras, sem tratamentos privilegiados. Os interesses das populações têm de ser resolvidos seja qual for a cor, sempre trabalhei assim”. O candidato do PS lamentou, ainda, a ausência de medidas da gestão camarária atual para resolver “uma falha social, porque o mercado não resolve tudo”. Uma das propostas do PS de curto prazo será criar “estímulos” para transferência de alojamento local que pretenda arrendar ou assumir custos com subarrendamento “negociados pela Câmara”.

Chega questiona medidas públicas e interesses privados 

“Quando um candidato da família Souto, como dizem ‘um dos principais candidatos’, atira para cima da mesa habitação a custos controlados, falando da Estratégia Local de Habitação, falando do que foi feito, é o retrato fiel, porque não tem nada a ver com a Câmara Municipal, quem constrói são privados”, notou Diogo Machado, confrontando Luís Souto. O candidato do Chega, sem descurar novos apoios municipais a ‘custos controlados’, referiu a necessidade de fazer loteamentos nas freguesias ou incentivos ao arrendamento a jovens na cidade. Já sobre apoios a transferência de alojamento local para arrendamento proposta por Alberto Souto, questionou o candidato do PS se “enquanto proprietário de alojamento local está disposto a isso” [ressalvou depois concordar com a medida].

“Vou dizer isto com alguma seriedade e sem responder à pequena provocação implícita: sempre soube distinguir interesse público e privado, nunca misturei a minha vida privada e a vida pública. Fiz uma declaração de interesses e faço sempre: A minha família tem alojamentos locais e isso não me impede de pensar qual o interesse público. Não é uma política à medida do meu filho ou da minha mulher, vai beneficiar todos os proprietários, é medida geral e abstrata”, respondeu o candidato do PS.

Também Isabel Tavares, do PCP, foi questionada com a decisão do partido que deixou demolir a sua sede, uma vivenda emblemática, no centro da cidade, permutando um novo espaço no prédio, entretanto erguido no mesmo local. “Primeira pergunta que faço é onde está escrito que aquele edifício era histórico ou era património histórico. O PCP vai ficar com o que tinha e não beneficiar dos apartamentos. Não nos impede de defender o que pensamos para habitação”, disse, criticando a aposta “elitista” da Câmara.

No recorrente, e obrigatório, tema do futuro do Cais do Paraíso, João Moniz (BE) fez eco da denúncia do Chega aquando do debate da RTP sobre a existência de uma planta urbanística de 2019, encomendada pelos donos do terreno da antiga fábrica Bóia, em que “as semelhanças não podiam ser maiores” com a proposta apresentada pela Câmara.

Diogo Machado criticou “a política do medo” do candidato da coligação PSD-CDS-PPM, por perspectivar que a controvérsia leve a perder o hotel. “O investidor está à espera desde 2019 e ia-se embora se em vez de aprovar se discutisse e votasse em novembro”, questionou, considerando que Luís Souto “tinha a obrigação de dizer ao presidente da Câmara: caro amigo, isto discute-se depois, não é agora. Assumo-o claramente: este plano e o plano de pormenor do Parque Desportivo de Aveiro que vem agora são encomendas que o candidato da ‘Aliança’ não consegue parar”, rematou.

Luís Souto, confrontado novamente com o apoio ao plano de pormenor que permitirá surgir um hotel de 12 pisos, lembrou os pareceres favoráveis recolhidos pelo plano “de todas as entidades que têm de ser consultadas e não são opiniões de café que esta malta apresenta, nenhum deles tem preparação para isto”. E desafiou outros candidatos “a apresentarem no Ministério Público denúncias sobre encomendas, fazer favores a não sei quem. Eu não sou o presidente da Câmara, estou à vontade a todos os níveis, não apresentei a proposta, sou presidente da Assembleia Municipal. Tenham a coragem de apresentar queixa contra o presidente da Câmara e os favorecidos, tudo o resto é lançar fumo para os aveirenses”.

Diogo Machado reafirmou que o presidente da Câmara vai ser chamado à comissão competente na Assembleia da República para prestar esclarecimentos e já tem reunidos quase todos os documentos para apresentar queixa.

Já Alberto Souto rejeitou a “desqualificação” feita pelo candidato da Aliança dos candidatos, como estando numa conversa de café. “Estudámos as matérias, temos opiniões próprias e estamos a transmiti-las com a responsabilidade de sermos candidatos”, referiu. Sobre “a relevância criminal”, deixou para o Ministério Público, clarificando que “nunca disse que havia favores, disse é que o plano que deve servir o interesse público foi formatado ao servido dos interesses privados, o interesse público demitiu-se de não ser coincidente com o interesse privado, isto é gravíssimo”.

Discurso direto

“Não tenho medo dos desafios e não fujo às minhas responsabilidades. Era politicamente mais fácil e cómodo a pedir ao presidente para adiar 10 anos, para ter uns votinhos à esquerda. O meu critério é o que é o melhor para Aveiro” – Luís Souto sobre o Plano de Pormenor Cais do Paraíso.

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