46ª aniversário da UA: Recordar a obra de Sophia Andresen e reflectir sobre os avanços tecnológicos

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Universidade de Aveiro.

Um mundo em constante e rápida evolução exige uma Universidade de Aveiro que vá ao encontro da mudança e busque novas direções, sem perder de vista as linhas orientadoras que tão bem a serviram no passado.

Por Paulo Jorge Ferreira *

Comemoramos hoje o 46º aniversário da nossa Universidade. Como instituição, nunca deixámos de enfrentar o futuro, mas soubemos sempre preservar a nossa coerência, a nossa trajetória e o nosso passado.

Sabemos bem que se hoje podemos construir é porque outros nos deixaram alicerces sólidos. Por isso, nesta data simbólica, convido-vos a relembrar comigo momentos que deixaram marcas na nossa história, na nossa memória institucional – também eles associados a aniversários.

O primeiro prova que uma limitação pode desencadear grandes desenvolvimentos. Falo do EquaMat — ou PmatE, como o conhecemos hoje. O projeto que veio desafiar os jovens a “jogar à matemática” surgiu há 30 anos e tem uma inspiradora história.

As sementes foram lançadas durante o ano letivo 1989/90, na então Secção Autónoma de Matemática, com o propósito de criar um sistema informático de apoio à avaliação. Como explica David Vieira, no encarte que é distribuído hoje na nossa revista Linhas, algumas unidades curriculares de matemática já tinham então mais de mil alunos, e o trabalho de correção dos testes ameaçava exceder a capacidade existente.

Foi desta incapacidade, ou melhor, desta “feliz incapacidade”, como escreve David Vieira, que nasceu a ideia de conceber um sistema informático para apoiar a realização e correção de testes. Hoje, no âmbito do PmatE gere-se uma plataforma de ensino assistido, que envolve estudantes, pais, professores e escolas, desenvolvem-se conteúdos e organizam-se eventos para a promoção do sucesso escolar e da cultura científica, atuando em várias frentes, na intervenção escolar, na comunicação e divulgação de ciência e na cooperação.

Com o PmatE nasceram também as Competições Nacionais de Ciência, que trouxeram à Universidade de Aveiro muitos milhares de alunos dos vários níveis de ensino.

O projeto começou com um objetivo muito prático. Cresceu em ambição. Pretendeu depois criar e desenvolver o gosto pela matemática. Hoje, a sua área de atuação inclui português, biologia, geologia, física, química, inglês e literacia financeira, assumindo-se como um “ousado e criativo projeto interdisciplinar” – como seria de esperar de um projeto nascido na Universidade de Aveiro.

A todos quantos ao longo destes 30 anos de PmatE se empenharam em transformar uma “incapacidade” em progresso, uma limitação em força, muito obrigado.

Ainda neste percurso pelo passado, convido-vos a regressar a 1998, o ano em que a UA comemorou os seus 25 anos. Foi um dia ímpar para a Universidade. Destaco a presença do então Presidente da República, Jorge Sampaio, do Ministro da Educação, Eduardo Marçal Grilo, do Ministro da Ciência e Tecnologia, Mariano Gago, entre outros membros do governo.

Mas recordo o 25º aniversário da Universidade de Aveiro também por outro motivo. É que nesse dia de dezembro de 1998 a Universidade de Aveiro praticou “um ato de cultura de excelso mérito”, como então o descreveu Luís Machado de Abreu. Refirome, claro, à atribuição do título de Doutor Honoris Causa a uma das mais notáveis figuras da literatura portuguesa, Sophia de Mello Breyner Andresen.

Nesse dia, sublinharam-se as suas “ligações quase umbilicais com a palavra do nosso lema – a poiesis” — no contexto de uma vida dedicada à criação poética. Referiu-se que Sophia “aponta não apenas para o saber, mas para algo de muito mais profundo, a sabedoria”. Sublinhou-se a “surpreendente convergência com o universo de saberes que a Universidade cultiva”. A atribuição do título de Doutor Honoris Causa a Sophia e à Poesia contribuiu para afirmarmos “o valor da língua como expressão livre do pensamento e do sentir das mulheres e dos homens deste país” e para “homenagear uma das expressões mais genuínas da nossa tradição cultural”.

No dia de um novo aniversário da Universidade de Aveiro e no ano em que se assinala o centenário do nascimento de Sophia, a Universidade não podia deixar de recordar e renovar o tributo a esta figura que engrandece o País.

Vamos revisitar nesta cerimónia a vida e obra de Sophia e trazer para o presente os argumentos que sustentaram a outorga do título de Doutor Honoris Causa à poetisa.

Entregámos o desafio a Isabel Cristina Mateus. Está bem entregue. Docente no Instituto de Letras e Ciências Humanas da Universidade do Minho e investigadora do Centro de Estudos Humanísticos da mesma Universidade, Isabel Cristina Mateus é uma profunda conhecedora da Literatura Portuguesa dos séculos XIX, XX e XXI.

Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas e Doutorada em Ciências da Literatura, Área de Especialização de Literatura Portuguesa (Moderna e Contemporânea), Isabel Cristina Mateus colabora em diversas revistas de especialidade, nacionais e estrangeiras, e é autora premiada de vários estudos sobre autores da literatura portuguesa moderna e contemporânea. Muito obrigado, Professora Isabel Cristina Mateus, pela disponibilidade e generosidade com que respondeu ao nosso convite.

Como já referi, somos uma instituição que não esquece o passado, mas está sempre atenta e aberta ao futuro. Um mundo em constante e rápida evolução exige uma Universidade de Aveiro que vá ao encontro da mudança e busque novas direções, sem perder de vista as linhas orientadoras que tão bem a serviram no passado.

Antecipar o futuro, claro, não é fácil. Um antigo provérbio resume a dificuldade: é difícil fazer previsões, especialmente sobre o futuro.

Tornou-se claro, todavia, que não há futuro sem conhecimento; que é necessária reflexão e ação quanto aos grandes problemas da sociedade; e que as universidades devem ter um papel ativo nesse debate. Mas que papel?

O impacto da revolução tecnológica e da transformação digital tem sido enorme. A tecnologia tem melhorado em muito a nossa qualidade e esperança de vida. Mas o 5G, a inteligência artificial, big data ou blockchain não podem resolver por si só todos os problemas sociais, a alguns dos quais, ironicamente, a tecnologia não é alheia.

Termos como big data e inteligência artificial vulgarizaram-se. Integram o vocabulário de muitos, que sobre eles provam ter conhecimento superficial, mas fé profunda; como se fosse possível verter tecnologia sobre problemas como as alterações climáticas, o desemprego ou as desigualdades sociais, por exemplo, e com isso e apenas isso resolvê-los.

Daniel Innerarity, nosso convidado de hoje e um dos pensadores mais influentes da atualidade, tem refletido sobre esta matéria. A tecnologia é mais espetacular que a reforma das instituições e é mais fácil de introduzir. O sucesso económico vende melhor que a coesão social. Daqui a depositar na tecnologia a infundada esperança de solução dos grandes desafios sociais vai um passo.

As universidades podem ajudar a tornar as cidades e a própria sociedade “culturalmente inteligentes”, como proposto por Innerarity, que também tem sublinhado a necessidade de equilibrar a “infraestrutura material”, tecnológica, com o que designou por “infraestrutura simbólica”.

Conectividade não é comunicação e um conjunto de dados não é uma teoria. As teorias podem ser invalidadas por experiências, o que conduz ao progresso. As teorias explicam e permitem fazer previsões.

A trajetória das universidades e do conhecimento lembra-nos que a intuição, a criatividade, a inspiração artística e a experimentação cultural são tão necessárias como a tecnologia e tão úteis como as teorias.

Por isso temos a responsabilidade de nos constituirmos como espaços onde a criatividade possa florescer – espaços “culturalmente inteligentes”. Perante a euforia tecnológica, agravada por aquilo que Innerarity apelidou de “analfabetismo cívico”, as universidades têm a responsabilidade de trazer mais conhecimento e mais inteligência para o debate.

A Universidade de Aveiro, que se assume desde a sua fundação como “farol de ciência e cultura” e que defende “uma educação universitária verdadeiramente humanista”, como disse Vitor Gil, para continuar associada a “atos de cultura de excelso mérito” deve criar espaços e oportunidades para inspirar, refletir, errar – sim, errar – e encontrar novas abordagens e soluções para os problemas.

E que papel terão o conhecimento e a inteligência nesse contexto? Que esperar da inteligência artificial? O que é que diferencia a inteligência humana da inteligência artificial? Será necessário humanizar a inteligência artificial para que ocorra uma verdadeira mudança de paradigma? Ou será a inteligência humana, como defendem alguns autores, um mero caso particular da inteligência artificial?

Daniel Innerarity convida-nos a refletir sobre estas questões, a partir da sua comunicação “La inteligencia de la inteligencia artificial”.

Deixo aqui algumas palavras sobre o nosso convidado. Daniel Innerarity é professor catedrático de filosofia política na Universidade do País Basco, onde é diretor do Instituto de Governança Democrática. É investigador “Ikerbasque” (Fundação Basca da Ciência) e professor a tempo parcial da School of Transnational Governance do Instituto Europeu de Florença. Foi professor convidado em diversas instituições europeias e americanas, incluindo a Universidade Paris 1 Panthéon-Sorbonne, a Maison des Sciences de l’Homme de Paris, o Instituto Max Planck de Heidelberg ou a Universidade de Georgetown. Doutorado em Filosofia, alargou os seus estudos na Alemanha, Suíça e Itália. Resume o seu conceito de democracia numa obra prestes a ser publicada, intitulada “Uma teoria da democracia complexa. Governar no século XXI”. A maior parte dos seus livros foram traduzidos em França, Inglaterra, Portugal, Estados Unidos, Itália e Canadá.

É colaborador habitual em matéria de opinião do “El País”, “La Vanguardia” e “El Correo / Diario Vasco”. Recebeu diversos prémios, entre eles o Prémio Nacional de Literatura na modalidade de ensaio e o Prémio Príncipe de Viana da Cultura.

Foi membro do Conselho de Universidades, sob proposta do Senado espanhol, é membro da Academia da Latinidade e da Academia Europeia de Artes e Ciências, com sede em Salzburgo.

Em 2004 foi considerado pela revista francesa “Le Nouvel Observateur” um dos 25 pensadores mais influentes do mundo. Professor Daniel Innerarity, agradeço-lhe a disponibilidade e gentileza com que respondeu ao nosso convite, que nos honra.
Profesor Daniel Innerarity, gracias por la disponibilidad y amabilidad con la que respondió a nuestra invitación, que nos honra.

Para terminar, uma palavra sobre este ano que fecha e sobre o novo ano que começará em breve.

A execução orçamental de 2019 ficará marcada por atrasos de reembolso inéditos, ainda não resolvidos. Por causa desses atrasos trabalhámos sempre com saldos negativos também inéditos. Apesar disso, fomos seguindo o nosso caminho. A Universidade Europeia ECIU e muito recentemente as duas bolsas ERC obtidas por investigadores da UA, Luís Mafra e Nuno Silva, de um total de apenas quatro em Portugal, são exemplos a reter e impulsos motivadores para 2020.

Mas estes sucessos não teriam sido possíveis se primeiro não tivessem sido lançados os alicerces necessários para os tornar realidade: os consórcios, que no caso do ECIU remontam a 1998; as equipas, os equipamentos, o apoio, a mentoria — e, claro, a ousadia de acreditar.

A Universidade de Aveiro não foge dos desafios nem se deslumbra com os sucessos. Como disse no início, sabemos bem que se hoje podemos construir, é porque outros nos deixaram fundações sólidas; porque traçaram um rumo a olhar o futuro. Hoje, em dia de aniversário, estamos unidos em torno de uma instituição que quer saber, que ousa saber, e que tem sabido ousar.

Parabéns à UA.

Reitor da UA.

* Reitor da Universidade de Aveiro, discurso na sessão comemorativa do 46º aniversário da instituição realizada a 16 de dezembro de 2019.

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