
Todas as manhãs, um estudante Erasmus acorda num quarto desconhecido, longe da sua “casa”. De imediato, percebe que o ambiente à sua volta é novo. Ao contrário de Gregor Samsa, personagem de “A Metamorfose” de Franz Kafka, não há carapaça nem transformação física em inseto, mas sente-se que algo novo começa a emergir.
Por Rosa Maria Faneca, Beatriz Costa, Isabel Sá, Luis Dantas, Rita Dornelas, Vanessa Rebelo *
Ao sair para a cidade, escuta línguas diferentes, percebe sons e cheiros distintos, cruza rostos desconhecidos e passa a olhar o mundo através de lentes novas. Entre o estranhamento e a descoberta, impõe-se uma pergunta:
Quem sou eu quando já não estou “em casa”?
Como Kafka sugere, o estranhamento pode anunciar uma transformação. Nesse sentido, a internacionalização do ensino superior tem-se mostrado relevante, promovendo contacto com outras culturas, convivência e partilha de saberes. No âmbito do Erasmus e dos Blended Intensive Programmes (BIP), muitos estudantes partem com a intenção de viajar e sair da rotina, mas acabam por viver experiências que reconfiguram a sua forma de ver o mundo e de se relacionar com os outros.
Mas o que significam, afinal, estas experiências? Falamos apenas de mobilidade ou de processos de metamorfose?
Estes programas oferecem uma oportunidade única de partir, atravessar, redescobrir-se e reinventar-se. Surgem espaços onde as fronteiras culturais se dissolvem e novas identidades emergem. A experiência dos autores deste texto também demonstra o forte potencial intergeracional que os programas Erasmus podem proporcionar diante de alunos de diferentes faixas etárias.
Quais dificuldades poderão os estudantes encontrar ao mudar para outro país? Como é que estas experiências moldam a sua identidade?
Os participantes enfrentam desafios e superam barreiras, o que contribui para um crescimento pessoal e social significativo. A convivência com diferentes culturas potencia a criação de um ambiente diversificado, onde as diferenças são valorizadas e aprendidas. A integração de diferentes línguas nas experiências de mobilidade enriquece não só o processo de ensino-aprendizagem, mas também promove um ambiente onde o plurilinguismo pode florescer.
A sociologia das mobilidades sugere que estas experiências estão intrinsecamente ligadas às noções de ‘aqui’ e ‘ali’, com fronteiras que são tanto geográficas como simbólicas. Nos contextos de mobilidade universitária, os estudantes se tornam migrantes de saberes, colecionando experiências que moldarão a sua visão de mundo e a sua compreensão do Outro.
Este movimento é essencial num mundo globalizado, onde a capacidade de interagir com a diversidade linguística e cultural é uma competência valiosa. Assim, ao retornarem a casa, os alunos Erasmus, já metamorfoseados pela experiência vivida, tornam-se agentes de construção de um mundo mais justo e equânime.
No fundo, permanece a questão: e se o verdadeiro risco não estiver em partir, mas em nunca sair do próprio quarto?
* Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro. Artigo publicado no site UA.pt.
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