Um contra seis e sobraram sete

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Cerimónia de tomada de posse do Presidente da República.

Ontem, dia de tomada de posse do Sr. Presidente da República e ao contrário do que o mesmo disse no seu discurso de vitória, foi passado um cheque em branco, que mais não é do que as pessoas esperarem mais do mesmo do seu segundo mandato.

Por Rui Soares Carneiro *

Não havia programa, não houve debate que esclarecesse o essencial e, portanto, quem votou em Marcelo Rebelo de Sousa foi contando exatamente com um segundo mandato igual ao primeiro, de pêndulo, de promotor da estabilidade, defensor da governabilidade, de aglutinador de visões e do sentir do povo.

No entanto, gostaria não de me debruçar sobre o Presidente, mas sim sobre os líderes partidários, como saíram das eleições presidenciais, que respostas têm sabido dar à pandemia, ou falta delas, e qual o caminho que se avista rumo às autárquicas. Num momento em que também se olha para o prazo de duração de cada um dos líderes, de estratégias internas e de ameaças às suas lideranças.

António Costa saiu incólume destas eleições, apoiando implicitamente o vencedor antecipado, pode agradecer a Ana Gomes ter ocupado o espaço do centro-esquerda de modo a equilibrar o espectro de opções ideológicas em confronto, dando margem aos eleitores socialistas que não se reviram na opção de Marcelo Rebelo de Sousa.

Tática e habilidade política não lhe falta, se mais provas fossem necessárias, no entanto, António Costa enfrenta atualmente a fase mais difícil da sua vida política com a pandemia que atravessamos, e o desgaste e constante crítica de que é alvo é algo difícil de contrariar. As sondagens pouco se alteram, por mérito seu, culpa da oposição e da pandemia (tempos como este, desincentivam a alterações governativas); não sofre de contestações internas, embora já alguns pensem na sua sucessão e se vão mexendo nos bastidores (e às vezes fora deles); e, opinião minha, não fosse o desgaste e nova recuperação económica pela qual vamos passar, estava em condições de puder pensar numa terceira eleição, seria inédito, mas António Costa é pródigo nisso.

Rui Rio é algodão que não engana. Irá manter-se igual a si mesmo, quer isso lhe dê votos ou não e, como temos visto nos últimos dias, mesmo que isso lhe provoque sucessivos mal-estares dentro do seu próprio partido. As presidenciais não lhe trouxeram nem mais nem menos, ao contrário das autárquicas que serão a sua prova de fogo, ou tem nota positiva (não será difícil subir em relação a 2017) ou será corrido no dia seguinte, sem mera hipótese de discutir as próximas legislativas. A oposição ao Governo continua num misto de compreensão pelas medidas sanitárias necessárias e a tentativa de distanciamento das medidas económicas sem, no entanto, apresentar alternativas credíveis, e a ausência no debate e na apresentação de ideias no PRR são uma péssima amostra disso mesmo. O constante deambular de opiniões, de modos de ação, de trejeitos no discurso, mas sem o aproximar das pessoas, são boas amostras do que continuaremos a ver, sem que nada o faça descolar nas sondagens. Pois, se não houver motivos…

Catarina Martins tem estado debaixo de fogo, sem o sentir verdadeiramente nos pés. Começou pela “nova” posição do BE relativamente ao chumbo dos OE’s e à tentativa de distanciamento das políticas e do apoio dado ao Governo; seguiu-se a pesadíssima derrota nas presidenciais por, e a meu ver, uma escolha errada em fazer avançar Marisa, ao mesmo tempo que lhe tirava o tapete para voos internos mais altos; e mantém-se pela aparente falta de rumo e de uma estratégia com lutas bem definidas pelas quais possa ser seguida e capaz de mobilizar os seus eleitores. Tudo isto se resume no que as sondagens vão demonstrando, uma descida dos seus apoiantes e que pode culminar num resultado autárquico escasso, sendo de sempre as eleições mais difíceis para o BE. Fosse tudo isto num partido de poder e diria que no final do ano poderíamos já não ter Catarina Martins na liderança do Bloco, mas, não meto as minhas fichas.

Jerónimo de Sousa e o Partido Comunista Português comparo-os neste momento a Marcelo Rebelo de Sousa, isto é, apesar de podermos discordar muito ou pouco das suas visões estes são apesar de tudo o garante do equilíbrio e da governabilidade do país, de momento. Mesmo com uma visão e ideologia rígida, permitem-se a colocar o país em primeiro, bem como a apoiar medidas que, mesmo não sendo suas, são mais próximas de si do que outras que poderiam ser levadas a cabo por partidos de espectro mais distante. A história do Alentejo nas presidenciais parece-me vir a ser totalmente diferente nas próximas autárquicas e a suposta “crise” nos bastiões comunistas serão postas de parte; Já Jerónimo, não será posto de parte tão cedo e ainda o teremos no ativo por muitos anos; aqui já coloco as minhas fichas.
Francisco Rodrigues dos Santos é uma bomba em mãos próprias, é rara a intervenção que faz e na qual nos possamos rever de alguma forma. É rara a intervenção que faz e em que apresente conteúdo válido, ideias concretas, medidas que façam a diferença. E não é só para o simples eleitor, o seu próprio partido já o demonstrou, tendo sido o último líder a ser confrontado internamente (embora de forma errada por Adolfo Mesquita Nunes, que já devia ter aprendido com Luís Montenegro há pouco mais de um ano). Vamos ver se as autárquicas não lhe dão o empurrão que alguns almejam… para fora do partido.

João Cotrim Figueiredo está estável, as presidenciais não me parecem ter trazido nada de novo para si e para a Iniciativa Liberal. Continuam na árdua tarefa de passar a mensagem do partido e quais as ideias que têm para o país, embora vejamos isso sempre muito do ponto de visto económico e pouco mais. As autárquicas vão ser difíceis, ainda sem aparelho concelhio o resultado vai depender muito dos cabeças de lista, onde os houver, e somente nas malhas urbanas isso deverá acontecer, veremos com que êxito.

André Ventura saiu reforçado das últimas presidenciais, mas cairá agora num pântano de meio ano em que não estará na sua praia, ou seja, fora de campanha e do espaço mediático de forma constante. Veremos se o apoio recolhido em janeiro se materializa de alguma forma durante este período, e se conseguirá resistir a encabeçar (mais uma vez!) uma lista a qualquer autarquia. É sabido que a implantação autárquica do partido é quase inexistente, mas alguns dissidentes do PSD e CDS-PP poderão dar uma ajuda nessa tarefa. Ou o partido escolhe bem as suas lutas ou se tentar ir a todas as concelhias pode correr o risco de fracassar numa qualquer extrapolação de resultados autárquicos, veremos qual será a opção.
Não vai ser um ano fácil para os líderes partidários, não apenas pela pandemia que atravessamos e os desafios à posição e à oposição, mas por umas autárquicas que terão de ser muito bem pensadas e idealizadas por forma a chegar ao maior número de pessoas, não tendo contacto direto com um grande número destas. E a cereja no topo do bolo é que, teremos, no pós-eleições, alguns dos muitos aguardados congressos partidários, que colocarão em cheque aqueles que não tiverem tirado dividendos dos próximos meses que se avizinham. Pode ser que daqui a um ano, alguns destes já não andem por cá. Vamos ver!

* Gestor, eleito na Assembleia de Freguesia de Cacia, Aveiro.

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