Sala de aula.

Vivemos num ambiente em que um título, um vídeo curto ou uma resposta gerada por IA pode soar a conclusão final. Neste ruído, o problema raramente é falta de informação. O que mais falha é a qualidade do raciocínio aplicado ao que nos chega. Sem método, as certezas colam-se depressa; com método, as dúvidas tornam-se férteis.

Por Lara Amorim *

A microbiologia é uma aliada pedagógica eficaz para treinar esse método. Muitos temas obrigam a pensar em relações e consequências: resistências aos antibióticos, dinâmicas de surtos, vacinação, microbiomas, alimentos e água. Decisões pequenas somam-se, revelam-se mais tarde e geram efeitos que não antecipamos. Basta pensar no uso de antibióticos para infeções virais, na interrupção precoce de um tratamento, ou em promessas fáceis em torno de “probióticos” e “reforços da imunidade”. O que parece uma escolha individual tem efeitos coletivos, muitas vezes invisíveis no imediato.

O que proponho é uma mudança de foco: desenvolver nos alunos a capacidade de pensar criticamente e a capacidade de pensar em sistemas (systems thinking) desde cedo, através de rotinas explícitas. Isto cabe em minutos e cabe em qualquer disciplina, desde que se torne hábito.

Quando um aluno apresenta uma ideia, podemos insistir numa sequência constante. Primeiro, “o que exatamente estás a afirmar, e em que condições?”. Depois, “que evidência sustenta isso, onde viste, o que foi observado ou medido, o que falta?”. Por fim, “porque é que essa evidência apoia a tua conclusão?”. Esta rotina reduz o “acho que” e aumenta o “consigo explicar”, sem criar um clima de ‘provar que se tem razão’, mas sim num laboratório de argumentos.

Quando o tema envolve muitas variáveis, pedimos uma representação rápida das relações: o que influencia o quê, onde há efeitos de retorno, qual é o ponto mais frágil e onde existe maior margem de intervenção. E, no fecho de uma experiência, debate ou projeto, fazemos uma revisão curta: o que esperávamos, o que aconteceu, que evidência temos e o que mudamos a seguir. Aqui, os alunos aprendem que mudar de ideias com base em evidências é competência, não fraqueza.

Mas nada disto escala por decreto. Escala quando existe agência docente (teacher agency), a autonomia profissional para decidir, adaptar e agir, em função da turma e do contexto. A coerência não precisa de um guião rígido; pode nascer de movimentos partilhados, enquanto cada docente escolhe exemplos e linguagem para trabalhar um problema comum. Para apoiar esta agência, as escolas podem proteger tempo breve de planeamento conjunto, modelar rotinas em aulas reais e valorizar o discernimento humano, situado e responsável, não apenas a resposta certa.

Estas práticas trabalham em silêncio, mas mudam o ecossistema da sala de aula: a opinião ganha fundamento, a discordância torna-se discutível e a aprendizagem aproxima-se do mundo real. Num tempo de respostas instantâneas, ensinar a perguntar bem é uma forma concreta de cuidar da educação e, com ela, do espaço público.

* Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro | iB2-Lab — Laboratório Associado REQUIMTE, Universidade do Porto. Artigo publicado no site UA.pt.

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