Robin dos Bosques, versão século XXI

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Vista aérea da cidade de Aveiro.

Se fizermos a valoração em termos nacionais o Município de Aveiro também está no topo da tabela. E onde vão parar esses impostos? Aos bolsos dos Aveirenses? Receio que não.

Por David Iguaz *

Confesso que fiquei intrigado quando, segundo noticia veiculada recentemente na imprensa, Ribau Esteves “invocou o princípio “do Robin dos Bosques” para sublinhar o apoio prestado pelo Município àqueles que não pagam IMI por terem rendimentos baixos”. Tentarei decifrar os pensamentos do nosso edil, tarefa nunca fácil pois nunca se pode ter a certeza dos verdadeiros discernimentos deste nosso prezado estadista, mas irei explorar a mais ampla gama de possibilidades para tentar diminuir a margem de erro.

Antes de continuar convém lembrar a lenda do Robin Hood, príncipe dos ladrões, que perdura no tempo desde o Século XII. A personagem em causa era um fora da lei que roubava aos ricos para dar aos pobres, prezava o ar livre e daí viver no bosque do Sherwood desde onde planeava seus golpes e aventuras.

Que se saiba o nosso Presidente da Câmara não é nenhum fora da Lei pelo que neste aspecto a referência ao Robin dos Bosques só pode ter sido fortuita. A parte que diz respeito ao roubar apresenta-se mais intrínseca de desvendar mas parece razoável postular que o nosso edil só terá pensado neste aspecto em termos meramente metafóricos.

Presume-se que o que ele terá tentado transmitir é que terá havido transferências de verbas municipais para partes mais desfavorecidas da sociedade Aveirense. Assim sendo, remeto-me às recentes notícias que divulgavam apoios camarários para 105 cidadãos da cidade e a criação dum fundo de Apoio a famílias de 100.000 €.

Pelos vistos não há duvidas que o Presidente está-se a tornar um verdadeiro mãos largas no que diz respeito aos apoios socias e não olha a meios para atingir esses fins. Claro que o verdadeiro Robin dos Bosques teria conseguido um pouco melhor não só em termos comparativos mas em termos absolutos, e tendo em consideração o facto de já terem decorrido 9 séculos desde aquela altura, esperava-se que o espírito aventureiro de nosso presidente fosse bem mais arrojado.

Falando em analogias só resta o exercício óbvio de comparar as obras milionárias que são lançadas quase semanalmente por este executivo para perceber o grau de equidade envolvido entre estas e as verbas dedicadas às causas sociais. O Robin deve estar a remexer-se no seu túmulo ante esta versão moderna da sua cruzada.

O que ainda continuo sem perceber é onde estão os ricos a quem roubar nesta versão do século XXI. Grande parte dos contribuintes Aveirenses pertencem à classe média, como no resto do país, e o IMI que foi cobrado em 2019, que aliás representa a receita mais importante dum município, foi o mais alto do distrito junto com Espinho, segundo fontes da autoridade Tributária.

Se fizermos a valoração em termos nacionais o Município de Aveiro também está no topo da tabela. E onde vão parar esses impostos? Aos bolsos dos Aveirenses? Receio que não. Uma parte importante vai parar as empresas responsáveis pela concretização das múltiplas e variadas obras que se encontram espalhadas pelo município, muitas delas de duvidosa relevância para o bem estar de todos nós, especialmente nestes tempos de emergência nacional. Receio que esta versão do Robin dos Bosques tenha as prioridades trocadas.

Falta analisar a 2ª parte da alusão ao Robin que é aquela que diz respeito aos Bosques. O que dizer do respeito deste autarca pelos Bosques e as árvores que compõem o seu reino? Só em Ílhavo durante o mandato dele foram abatidos 2.000 plátanos, leram bem 2.000 plátanos, ou seja, uma verdadeira floresta. Em Aveiro, a dizimação adquire proporções semelhantes se considerarmos todas as árvores que já foram abatidas não só no concelho de Aveiro, já de por si desprovido de cobertura arbórea significativa, mas em todos os concelhos limítrofes também.

Para finalizar convém lembrar que a lenda do Robin dos Bosques ficaria claramente incompleta sem a presença da personagem do Xerife de Nottingham e os seus sequazes contra os quais Robin se insurgiu dando origem à cruzada heróica que prevalece até os dias de hoje.

Esta figura, de carácter claramente tirano, oprimia a população com impostos elevados e foi precisamente contra esta figura do estado contra a qual o Robin se rebelou, decidindo transferir as opulentas verbas dos cofres do Xerife para os mais necessitados. Não se sabe ao certo como acabou os seus dias esta personagem pérfida, mas uma coisa é certa, o legado que ficou para a história não foi o dele.
Dadas as circunstâncias, Ribau Esteves deveria repensar suas referências históricas no futuro.

David Iguaz.

* Arqueólogo e ativista.

 

 

 

 

 

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