Que lentes usa para ver as línguas e culturas do mundo?

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Imagem genérica.

Quem usa óculos certamente se sentirá familiarizado com a habitual visita ao optometrista para a realização de um check-up, principalmente quando começa a sentir mais dificuldade em ver. E se eu lhe dissesse que, mesmo não usando óculos, pode estar a precisar de atualizar as lentes que usa para ver as línguas e culturas do mundo?

Por Sara Tavares Santos *

Estas “lentes” consistem em representações que temos sobre determinadas línguas e culturas, o que se pode traduzir em considerar que a língua X é mais “bonita, fácil e interessante” do que a língua Y, por exemplo. Estes modos de ver o mundo e de o tentar compreender são comuns aos vários âmbitos da vida em sociedade e permitem-nos tecer considerações sobre ele, dando-nos a falsa sensação de que o compreendemos. Digo “falsa sensação” porque, no caso da diversidade linguística e cultural e considerando os dados mais recentes disponíveis no Ethnologue, existem 7.151 línguas no mundo, o que torna impossível que um só indivíduo compreenda todas. Surgem, assim, as representações, que simplificam a quantidade de informação disponível através da categorização das línguas em parâmetros como bonitas/feias ou fáceis/difíceis ou úteis/inúteis.

E qual será o impacte destas representações no nosso quotidiano? Imaginemos que o leitor anda em busca de uma nova língua para aprender no rescaldo das resoluções de Ano Novo. Será que tem a mesma vontade de aprender uma língua que vê como feia e difícil do que aprender uma que lhe parece bonita e fácil? E se pensarmos no contacto com outras culturas, já deu por si a criticar e/ou rejeitar uma tradição ou comportamento típico de uma cultura baseando-se apenas nas suas experiências ou conceções prévias? Se refletirmos sobre tudo isto percebemos que estas representações podem condicionar o nosso interesse e predisposição para a aprendizagem de línguas e para o contacto com as mesmas, bem como com as pessoas que falam essa língua. Podem, ainda, desembocar em estereótipos que dificultam os contactos que se estabelecem (ou evitam) com os povos que vivem essas culturas.

No entanto, não pretendo deixar o leitor apenas com um sentimento de inquietude face a este tópico, pois a boa notícia é que as representações negativas das línguas e do Outro podem ser trabalhadas com vista à sua desconstrução. E é exatamente esse trabalho que está a ser desenvolvido colaborativamente numa comunidade escolar do Agrupamento de Ílhavo que se associou ao Departamento de Educação e Psicologia da Universidade de Aveiro com o intuito de promover o despertar e a sensibilização para a diversidade linguística e cultural nos membros da comunidade. Em conjunto, iremos realçar a diversidade intrínseca da comunidade como parte essencial da sua identidade.

Nós já estamos a preparar novas lentes para ver as línguas e culturas do mundo… e o leitor?

* Membro do Centro de Investigação em Didática e Tecnologia na Formação de Formadores (CIDTFF) da Universidade de Aveiro. Artigo publicado originalmente no site UA.pt.

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