Porque entre o teletrabalho e o presencial, as pessoas escolhem a felicidade?

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Teletrabalho.

O “regresso à normalidade” na era pós-Covid-19 trouxe um dilema para as empresas e para as pessoas que nelas trabalham. Qual o modelo de trabalho seguir?

Por Mário Caetano *

Seria o teletrabalho a melhor opção em quaisquer circunstâncias? Porque é que muitas pessoas, ainda que tenham a opção de trabalhar em casa, desejam ir para o escritório e não dispensam o convívio com os colegas? A resposta é simples: por que somos seres relacionais. Os seres humanos sempre se organizaram em grupos, seja por sobrevivência, seja por laços afetivos.

Contudo, a vida moderna e o esquema fordiano de organização diária 8-8-8 (oito horas de trabalho, oito horas de sono e oito horas de lazer) parece, de alguma forma, ter-nos privado de criarmos reais conexões e de encontrarmos a tribo certa. Primeiro porque as oito horas que seriam reservadas ao lazer estão ocupadas com deslocações casa-trabalho-casa, tarefas domésticas e, ainda, outras obrigações extralaborais. Neste contexto, a maioria prefere não enfrentar o trânsito em hora de ponta e, também, não ter de lidar com questões de colegas desalinhados com o seu propósito e com o propósito da empresa, de forma a “salvarem” horas preciosas do seu dia.

O que aconteceu nos últimos dois anos foi que as vidas pessoais e profissionais se misturaram forçosamente, devido à pandemia. Mas isso também ajudou o mundo a perceber que as pessoas que conseguem conciliar a vida pessoal com o trabalho são mais felizes e, por isso, mais produtivas. Um estudo realizado pela Deel com a participação de 700 profissionais da área das tecnologias concluiu que três em cada quatro (76%) profissionais alcançaram equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal e metade (51%) diz que a produtividade e a qualidade de vida aumentam com o teletrabalho.

O que põe em causa se o teletrabalho é o caminho certo a seguir, é justamente a necessidade de se estar em comunidade, que é tão inerente e necessária ao ser humano.

Apesar de passarmos mais tempo com os colegas de trabalho do que com a família durante uma semana convencional, nem sempre criamos laços afetivos com eles. Mesmo que há muito tempo no mundo corporativo se aplique o conceito de departamentos dentro das empresas, ou seja, um grupo de pessoas empenhadas na realização de uma mesma tarefa, nem sempre as relações se desenvolvem de maneira produtiva e harmoniosa. Então, este conceito evoluiu para o de equipas, que pressupõe um grupo de pessoas com habilidades, conhecimentos e estilos diferentes que, integrados, procuram uma ação em comum para atingir um determinado objetivo. Ainda assim, nem sempre essas habilidades ou a convivência das mesmas e respetivo conhecimento se encaixam de forma a alcançar uma meta. E qual é o motivo?

Mais uma vez é simples: não se trata de mudar o conceito de departamentos para o de equipas. O que importa é o olhar apurado para as pessoas e para os seus propósitos de vida. Quando as pessoas estão alinhadas com o seu propósito individual, a sua contribuição para o grupo é instantânea e natural.

O que acontece no trabalho é que as pessoas se sentem cada vez mais desligadas de si mesmas, o que dificulta a ligação com os seus colegas. Estão cada uma à procura de uma direção e de um sentido e, talvez por isso, cada um caminhe em direções distintas e não haja conexão real ou preocupação de ajuda mútua. Porém, isto pode ter um lado positivo.

Quando a conexão com o outro é colocada em causa, começamos a duvidar. Duvidamos do nosso caminho, duvidamos da existência de um propósito superior, duvidamos se alguma vez chegaremos lá e acordamos outras inquietações que podem tirar-nos a paz interior. Por isso, durante o período de distanciamento social que a pandemia nos obrigou a fazer nos últimos dois anos tivemos o alívio de não precisar de conviver com as inquietações dos outros. Mas este alívio quase imediatamente deu lugar a sentimentos de vazio e de solidão. Muitos de nós, quase todos, sentimos falta de estar em contacto com as pessoas, inclusive as do trabalho.

Para estar confortável no trabalho e ter pelos colegas sentimentos reais de colaboração é necessário, antes de mais, conheceres-te a ti mesmo e entender o teu próprio propósito, pois não é possível agradares a toda a gente, e, se o tentares fazer, a dúvida irá aumentar. Mas, se te conheces a ti mesmo e perceberes bem o caminho que queres seguir, as interferências negativas serão menorizadas e conseguirás conectar-te com as pessoas através de laços reais, mesmo no local de trabalho.

Após este encontro contigo mesmo, a busca passa, então, a ser por um ambiente de crescimento e de colaboração conjunta. As equipas empresariais podem encontrar esses espaços através do desenvolvimento conjunto em retiros corporativos, que visam o desenvolvimento do mindset, não apenas do indivíduo, mas de todo o grupo em que ele está inserido, pois a tribo certa é aquela que se desenvolve em conjunto e que está disposta a colaborar para o crescimento alheio e incondicional.

A tribo corporativa certa, é aquela comunidade onde te entregas sem receio de seres julgado ou criticado, onde desejas participar de alma e coração, e onde tens consciência da união do propósito individual ao propósito da empresa. Independentemente do local onde trabalhes, aí saberás que és feliz.

* Coach Empreendedor. Artigo publicado originalmente no site https://lidermagazine.sapo.pt/.

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