Pelo direito a uma vida digna

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Idosos.

No dia 25 de Junho, a capa de um jornal diário deu destaque a uma notícia cujo título era “Idoso Morto à ancada em Lar”. A vítima, agredida com uma cadeira e vários socos, tinha 84 anos e o agressor, 71 anos.

Por Maria do Rosário Gama *

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Isto passou-se, no Centro Social de Sagres, dez dias depois da comemoração do Dia Mundial da consciencialização da Violência Contra a Pessoa Idosa, assinalado no dia 15 de Junho.

Esta data foi instituída em 2006 pelas Nações Unidas e pela Rede Internacional para Prevenção do Abuso à Pessoa Idosa, com o objetivo de sensibilizar a comunidade para este problema, com grave impacto na saúde das populações. Numa sociedade cada vez mais envelhecida, é essencial que nos debrucemos sobre as questões relacionadas com a qualidade de vida das pessoas mais velhas, sendo que muitas enfrentam uma série de desafios, incluindo a violência física, psicológica, financeira, sexual e a negligência.

São “Silêncios Inquietantes” aqueles que se traduziam num conjunto de frases que acompanhavam várias fotografias que tive oportunidade de ver numa exposição com o mesmo nome, na Câmara Municipal de Coimbra, organizada em conjunto com a APAV (Associação Portuguesa de Apoio à Vítima). Frases como “Entre marido e mulher não se mete a colher” legenda da fotografia de uma agressão física, ou “Só vejo a minha família quando olho para as fotografias”, “Estou sempre à espera de uma chamada que nunca aparece”, “Preferia uma bofetada a ouvir tantos insultos”, “Estou saturada desta vida, dizem-me que sou uma mulher velha, que não estou aqui a fazer nada”, “A guerra tirou-me tudo e os meus filhos agora tiram-me o direito de gerir o meu dinheiro”, “O meu marido diz que já não sirvo para nada… e muitas mais… Nesta visita, estava eu a comentar uma fotografia cuja legenda era “Mais um ano que passou e ninguém se lembrou do meu aniversário” e, à minha exclamação “como é que é possível?!”, uma senhora disse-me “Tenho sete filhos e nenhum me dá os parabéns no aniversário”. Um murro no estômago, foi o que senti depois de ver as fotos de gente real e de ouvir alguém ao meu lado a dizer que sim, que era possível o abandono como aquele a que tem estado sujeita.

No Relatório “Portugal Mais Velho” da APAV, é referido que um dos pontos de partida deste projeto foi o reconhecimento de que a sociedade tem um enorme preconceito face às pessoas idosas. Na língua inglesa, “ageism”, em Portugal usamos “idadismo”, embora a discriminação em função da idade, possa atingir também jovens. Alguns autores, para se referirem à discriminação dos mais velhos, usam o termo “gerontismo”. O Relatório distingue três dimensões de violência contra pessoas mais velhas: a violência individual, a mais facilmente identificável, consistindo na violência exercida por uma pessoa singular, sendo possível identificar claramente um/a agressor/a. Esta dimensão da violência traduz-se em violência interpessoal. As estimativas indicam que 90% dos casos de violência são perpetrados por membros da família ou cônjuges. Outra forma de violência é a institucional que atinge as pessoas idosas integradas numa qualquer estrutura de acolhimento ou prestação de cuidados. A terceira forma de violência é a violência estrutural e cultural.

Esta dimensão da violência, referem alguns autores, traduz-se na falta ou corte de rendimentos ou pensões, uma realidade que afeta em larga escala as pessoas mais velhas. Outro exemplo comum prende-se com a falta de recursos assistenciais providenciados ou suportados pelo Estado, deixando essas pessoas desamparadas. Não podemos calar e devemos, sim, dar mais força ao clamor pelo direito a uma vida digna!

* Presidente da APRe Aposentados, Pensionistas, Reformados. https://www.apre-associacaocivica.pt/

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