Para além do carbono – riscos de uma visão restrita

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Imagem do site eqjunior.com.br.
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Pegada de carbono, compensação de carbono, estratégia climática, neutralidade carbónica, “net-zero”. Atualmente as empresas concentram-se sobretudo na terminologia “carbono” ou “clima” quando falam da sua estratégia de sustentabilidade.

Por Samuel Niza e Manuela Ribeiro *

É verdade que as emissões de carbono constituem frequentemente um dos maiores impactos das operações de uma empresa. E, mediaticamente, as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) são o problema por excelência associado à crise ambiental.

Mas e os restantes impactos ambientais?

A biodiversidade, o uso do solo, ou a má gestão da água, são questões igualmente prementes na nossa crise ambiental coletiva. Os ecossistemas são compostos por muitos fatores diferentes que se interligam uns aos outros como um todo coeso. O mesmo se aplica ao impacto das empresas no ambiente. Ao concentrarmo-nos constantemente nas emissões de carbono – ou de gases com efeito de estufa – estamos a ocultar o resto do “ambiente” na pegada ecológica das empresas.

Uma pegada de carbono pode ser calculada através da realização de uma Avaliação do Ciclo de Vida (ACV) que estima todas as emissões de gases com efeito de estufa (GEE) expressas em quilograma de CO₂ equivalente (kg CO₂eq). Estes equivalentes permitem chegar a uma métrica única para o potencial de aquecimento global.

Uma pegada ecológica, por outro lado, é o “pacote” total. Consiste num amplo espectro de potenciais impactos ambientais calculados por uma ACV, e incluem também as emissões de GEE.

A título de exemplo, outras categorias de impacto que podem ser resultado da atividade das empresas, são a poluição da água com produtos químicos, a diminuição da biodiversidade pela aposta em matérias-primas provenientes de monoculturas e cuja produção implica destruição dos ecossistemas, efeitos na saúde humana por via da utilização de substâncias tóxicas no fabrico dos produtos.

Embora estes dois tipos de pegada (carbónica e ecológica) sejam calculados através dos mesmos meios (ACV), a pegada ecológica é a única que traduz todos os tipos de impacto que uma empresa pode ter no ambiente e na saúde humana.

“Omitir” impactos pode, no limite, afetar negativamente os esforços em termos de estratégia climática, senão vejamos: mudar de recursos fósseis para recursos biológicos (ex. biodiesel) pode parecer uma boa forma de reduzir as emissões, no entanto o resultado pode ser a necessidade extra de solo/de fertilizantes/pesticidas, o que pode perturbar os ecossistemas, na mesma medida ou em pior grau que as alterações climáticas.

Isto significa que, em termos de estratégia de sustentabilidade, é importante conhecer a pegada ecológica como um todo. E modelar os esforços de redução dos impactos em conformidade. Desta forma, as empresas asseguram-se de que não estão a deixar nada de fora e que as suas ações não prejudicam o ambiente de outra forma.

E quais as vantagens de conhecer a pegada ecológica da sua empresa ou do seu produto?

É simples, a sua pegada ecológica irá orientar as decisões no sentido de tornar as suas operações comerciais e industriais mais sustentáveis e os departamentos respetivos podem tomar medidas imediatas com base nos resultados dessa pegada ecológica:

1. Ecodesign (Investigação e desenvolvimento)

É a conceção de produtos ou serviços que tem em conta o impacto ambiental ao longo de todo o ciclo de vida de um produto.

As políticas ambientais, regulamentos, exigências dos clientes, ou motivações intrínsecas da empresa têm vindo a determinar que os impactos dos seus produtos sejam progressivamente mais baixos. O ecodesign permite tornar o seu produto mais sustentável, por exemplo eliminando a necessidade de uso de colas, concebendo o produto de forma modular facilitando a sua reparação, tornando o produto mais durável.

2. Aquisições sustentáveis (Compras)

Os resultados da sua ACV mostrar-lhe-ão exatamente qual a fase da sua cadeia de valor que provoca o maior impacto ambiental. Muitas vezes, uma grande parte deste impacto reside na sua cadeia de fornecimento ou nos seus esforços de aquisição – o que torna a aquisição sustentável uma medida muito poderosa e eficaz para os esforços de redução. Esta análise permite ter a certeza que os produtos e/ou serviços que adquire são tão sustentáveis quanto possível – com o menor impacto ambiental e resultados sociais mais positivos.

3. Otimização da Eficiência (Gestão de operações)

Os resultados de uma ACV mostram exatamente onde se encontram os pontos quentes de impacto dentro das operações e onde se pode melhorar a eficiência energética e de recursos. Esta avaliação permite saber quais os processos que mais contribuem para o impacto global. Isto significa, nomeadamente, saber onde se pode reduzir o consumo energético, definir as melhores fontes de energia, redesenhar processos de produção, adquirir maquinaria mais eficiente.

4. Responder à procura dos clientes (Marketing)

Atualmente, a maioria dos consumidores considera que as empresas devem contribuir para melhorar (ou pelo menos não piorar) o ambiente.

Para o marketing e vendas, é importante compreender como os seus produtos são sustentáveis – e como comunicar isto aos seus clientes. A pegada ecológica é o passo mais crítico nessa tarefa. Com base nos conhecimentos gerados, é possível verificar onde está a vantagem sobre os seus concorrentes – e onde a empresa pode utilizar as oportunidades para se tornar mais sustentável.

As ACV permitem que o marketing e as vendas comuniquem informações ambientais a todos os stakeholders relevantes. Um instrumento típico para esta comunicação são as Declarações Ambientais de Produto (EPD), um documento que resume os resultados de uma ACV.

5. Criação de uma estratégia de sustentabilidade (Gestão de topo)

A adoção da circularidade e da sustentabilidade contribuem para a melhoria da performance global da empresa, criando também condições para reduzir custos, melhorar o posicionamento comercial, atrair capital, atrair talento e criar valor a longo prazo: garantia de uma empresa à prova de futuro.

Hoje em dia, um número cada vez mais significativo de empresas coloca a sustentabilidade na sua estratégia de crescimento e desenvolvimento, com o empenho da sua gestão de topo. Dessa forma assume um compromisso e sabe exatamente qual é o desempenho da sua empresa relativamente às pessoas, à rentabilidade da operação e aos impactos ambientais – a fim de reportar e assumir a responsabilidade por eles.

Os resultados de uma pegada ecológica fornecerão à gestão de topo conhecimentos credíveis e acionáveis, que lhes permitem criar uma estratégia de sustentabilidade e climática alinhada com o Pacto Ecológico Europeu (designadamente o objetivo da neutralidade carbónica) com uma base sólida e mensurável.

* The Circular Choice www.thechoice.pt (artigo publicado originalmente no site Essência do Ambiente https://essenciadoambiente.pt)

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