Os dias de Álvaro Cunhal na Vila do Luso

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Álvaro Cunhal (ficha de detenção).
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Quando se comemoram os 50 anos da “Revolução dos Cravos”, ocorrida no dia 25 de abril de 1974, recordamos uma data, 25 anos anterior a essa, mais concretamente o dia 25 de março de 1949, dia que ficou na história pela terceira e última prisão de Álvaro Cunhal, aquela que o manteve atrás das grades até 3 de janeiro de 1960, quando protagonizou a célebre fuga do forte/prisão de Peniche.

Por Manuel Cardoso Ferreira *

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Nesse início de 1949, a região de Aveiro acolhia o Secretariado do Comité Central do Partido Comunista Português, constituído por Álvaro Cunhal / “Duarte”, José Gregório / “Alberto”, Militão Ribeiro / “António” e Manuel Guedes / “Santos”.

Álvaro Cunhal vivia na moradia “Casal de Santo António”, sita no número 55 da Rua Barbosa Cohen, no Luso (Mealhada). Na companhia de Sofia Ferreira. José Gregório morava a pouco mais de uma dezena de quilómetros, numa casa no lugar do Vale da Mó (Moita, Anadia), possivelmente na companhia da sua esposa. Ainda mais próximo do Luso estava Manuel Guedes, que habitava na Vacariça que, tal como o Luso, pertence ao concelho da Mealhada. Mais afastado destes três dirigentes do Secretariado ficava a residência de Militão Ribeiro que, juntamente com Luísa Rodrigues / “Maria”, ocupavam uma casa em Macinhata do Vouga (Águeda).

Para além dos quatro membros do Secretariado, na zona de Aveiro, possivelmente na própria cidade ou arredores, vivia Sérgio Vilarigues, um dos oito membros do Comité Central. Em fevereiro do ano anterior (1948), em data incerta, Sérgio Vilarigues acolheu na sua casa uma importante reunião do PCP, na qual estiveram presentes, entre outros, Manuel Guedes (do Secretariado), Sérgio Vilarigues, Pires Jorge e o escritor Soeiro Pereira Gomes, autor do livro “Os Esteiros”, todos eles do Comité Central.

Em meados de 1948, Álvaro Cunhal regressou a Portugal após uma longa e demorada viagem, iniciada ainda em 1947, que o levou a vários países da Europa, com destaque para a Jugoslávia, União Soviética e França. Quando regressou deste último país, supõe-se que tenha ficado alojado em Vila do Conde e depois noa Vale da Mó, já que a tradição popular dessas duas terras assim o afirma.

O que está documentalmente comprovado é que em novembro de 1948 Álvaro Cunhal, com o nome falso de Manuel Soares, na companhia de Sofia Ferreira, arrendou a referida casa do Luso, pela quantia de duzentos e cinquenta escudos mensais. A justificação para se instalar no Luso, e de modo a não levantar suspeitas, era a necessidade de repouso, já que estava extremamente magro e com aparência de tuberculoso, doença comum nessa época.

Não são conhecidas justificações para a permanência dos restantes três membros do Secretariado em terras da região de Aveiro. Para o PCP, a escolha desta região foi ditada pela menor vigilância policial, principalmente da PIDE e da Legião Portuguesa, e a proximidade a boas vias ferroviárias (linhas do Norte, da Beira Alta e do Vale do Vouga) e rodoviárias (sobretudo a estrada Lisboa – Porto).

Vila do Luso, Mealhada.

As prisões de fevereiro e março de 1949

No dia 10 de fevereiro de 1949, possivelmente devido a denúncias de um vizinho, a GNR assaltou a casa onde Militão Ribeiro vivia em Macinhata do Vouga. Apesar de ter conseguido fugir ao assalto, a sua companheira Luísa Rodrigues foi presa, mas antes ainda conseguiu queimar documentos comprometedores.

Militão Ribeiro fugiu e foi refugiar-se na casa de Álvaro Cunhal, no Luso, contra o parecer de José Gregório que considerava irresponsável estarem dois dos quatro membros do Secretariado a habitar a mesma residência, porque em caso de assalto, metade do órgão máximo do partido seria detido.

O receio de José Gregório concretizou-se pelas 5 horas do dia 25 de março, quando a PIDE, com a ajuda da GNR, assaltou a casa, prendendo, sem resistência, Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro e Sofia Ferreira.

Ao que se sabe, parece que tudo começou com a suspeitas dos vizinhos da moradia, devido às inúmeras visitas noturnas, ao “matraquear” da máquina de escrever pela noite dentro num barulho incomodativo, e ao modo de vida suspeito de Álvaro Cunhal que durante o dia se mantinha quase enclausurado.

Um desses vizinhos era o Dr. José Feio Soares de Azevedo que, entre 1947 e 1950, foi presidente da Comissão Administrativa da Câmara Municipal de Águeda, mas que vivia no Luso No dia 22 de março, o autarca aguedense informou o presidente da Câmara Municipal da Mealhada, Dr. Santos Louzada, que “no Casal de Santo António vivia um indivíduo desconhecido na companhia de uma mulher e que se fazia passar por estudante que estava a descansar. Vivendo esse indivíduo ali desde dezembro e sem nunca ser visto por ninguém, somente dele se tinha conhecimento pela companheira, tornou-se suspeito”.

Tanto os dois autarcas, como a PIDE não fazia a mínima ideia que o inquilino do “Casal de Santo António” era Álvaro Cunhal, a pessoa mais procurada pela polícia política e considerado como o maior inimigo do regime do Estado Novo liderado por António de Oliveira Salazar.

Nesse mesmo dia, o autarca da Mealhada fez uma viagem de reconhecimento a esse local do Luso, tendo informado telefonicamente a PIDE. Pelas 22 horas, agentes da polícia política visitaram o autarca, que estava em serviço na sede da Junta de Freguesia de Ventosa do Bairro.

Na manhã do dia 23, o autarca e agentes da PIDE foram fazer um novo reconhecimento ao local. Foi combinado o assalto à casa para a madrugada de 24 de março, o que não se verificou, mas que se concretizou na madrugada do dia seguinte, 25 de março, com a detenção de Álvaro Cunhal, Militão Ribeiro e Sofia Ferreira, esta também militante clandestina do PCP. Com a detenção, foi apreendido o vasto arquivo documental que Álvaro Cunhal detinha na residência.

Os detidos foram conduzidos para a cidade do Porto. Militão Ribeiro morreu no Estabelecimento Prisional de Lisboa, no dia 2 de janeiro de 1950. Álvaro Cunhal passou pela Penitenciária de Lisboa e pela Prisão / Forte de Peniche, de onde se evadiu no dia 3 de janeiro de 1960, na companhia de mais alguns membros do PCP. Poucos meses volvidos, exilou-se na União Soviética e depois em França, de onde regressou nos dias imediatos ao 25 de abril de 1974.  Sofia Ferreira ficou detida até 4 de fevereiro de 1953.

Com a prisão de Álvaro Cunhal e de Militão Ribeiro, a direção efetiva do PCP ficou entregue a José Gregório e a Júlio Fogaça. José Gregório faleceu em março de 1961, na Checoslováquia, país onde se refugiara em 1956 devido à necessidade de tratamentos de saúde urgentes. Álvaro Cunhal, Manuel Guedes, Sofia Ferreira e Sérgio Vilarigues viveram vários anos em liberdade após a revolução de 25 de abril de 1974.

* Texto baseado na obra “Álvaro Cunhal. Uma biografia política”, em quatro volumes, da autoria de José Pacheco Pereira.

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