
Deixou-nos um dos grandes nomes do cinema português. João Canijo partiu aos 68 anos, deixando-nos um imenso e rico legado. A sua morte prematura deixou-nos em choque.
Por Nuno Alexandre *
Canijo é um dos meus cineastas de paixão. Em cada longa-metragem, deixou-nos uma marca indelével. O seu talento e mestria foi reconhecido além-fronteiras, tendo sido bastas vezes galardoado e distinguido nos grandes Festivais Internacionais. “Sangue do meu Sangue” (2011); “Fátima” (2017); “Mal Viver” e “Viver Mal” (2023), são alguns dos filmes de João Canijo que me tocaram profundamente e que guardo na minha memória. O cineasta deixou-nos dois filmes já rodados: “Encenação” e “As Ucranianas”.
João Canijo nasceu no Porto, em 1957. Comungávamos da mesma dedicação à ciência histórica, uma vez que ele chegou a frequentar o curso de História, na Faculdade de Letras da Universidade do Porto. Ainda assim, a paixão pela sétima arte falou mais alto. Iniciou o seu percurso no cinema na década de 80, como assistente de realização de grandes mestres do cinema português e europeu, entre os quais os saudosos Manoel de Oliveira, Paulo Rocha e o cineasta alemão Werner Schroeter. Assinou em 1988 a primeira longa-metragem, “Três Menos Eu”, e de seguida a série televisiva “Alentejo Sem Lei”, transmitida na RTP no ano de 1991.
Todos os filmes de Canijo têm uma visão atenta à sociedade e à condição humana. Das suas longas-metragens retenho todo esse legado ético e emocional. Mas não posso deixar de referir aquele que era o seu método de trabalho, elogiado pelas suas atrizes e atores. A preparação, o rigor, o estudo e o trabalho de equipa eram a receita para o sucesso. Teve ao seu lado grandes nomes da representação como a atriz Rita Blanco, que conheceu aos 18 anos e com quem trabalhou em vários filmes, Ana Bustorf, Anabela Moreira, Cleia Almeida, Carolina Amaral, Beatriz Batarda, Leonor Silveira, Madalena Almeida, Márcia Breia, Nuno Lopes, Rafael Morais, Fernando Luís, Miguel Guilherme, os saudosos António Feio e Canto e Castro, entre muitos outros. Muitos talentos do grande ecrã desabrocharam sob o olhar atento de João Canijo.
Como já escrevi, o legado de Canijo no cinema contemporâneo é riquíssimo e vasto. Mas vou focar-me apenas nos quatro filmes acima enunciados. O filme “Sangue do Meu Sangue” mergulha no pulsar de um Bairro periférico de Lisboa, mais propriamente o Bairro Padre Cruz, para filmar a resistência de uma família cercada pela carência e pela marginalidade. No centro deste furacão está a matriarca Márcia, interpretada por Rita Blanco, uma mãe que espelha o sacrifício incondicional, lutando para erguer um escudo moral e protetor sobre os filhos. Esta longa-metragem, elogiada internacionalmente, retratou a realidade e as dificuldades que as populações que vivem nestes bairros enfrentam diariamente. Recebeu o Prémio da Crítica Internacional, em San Sebástian, Espanha, e o Grande Prémio do Júri, em Miami, nos EUA. Na Gala SPAutores de 2012, Rita Blanco recebeu o Prémio de Melhor Atriz de Cinema.
No ano em que os católicos celebraram o centenário das aparições de Nossa Senhora, em 2017, estreou o filme “Fátima”. Um filme que mergulha na fé e no sofrimento e dores do ser humano durante a peregrinação. O filme envolveu a comunidade da região de Trás-os-Montes e Vinhais. As atrizes realizaram um período de imersão total naquela região, para conhecerem o quotidiano da população local, dando assim mais autenticidade às suas personagens. Rita Blanco recebeu o Prémio Autores, o Prémio Sophia e o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Cinema, em 2018, pela sua participação na longa-metragem.
A experiência de ver o díptico ‘Mal Viver’ e ‘Viver Mal’– vi-os por esta ordem– foi marcante. A forma como o cineasta consegue desconstruir as relações familiares e a densidade psicológica do filme foi o que mais me marcou. Confesso que me emocionei e que me revi em algumas situações que ali estão muito bem retratadas. Era mesmo uma rede de mal estar, de mal viver, de sofrimento humano e de aparências.
Recordo-me que no Podcast do Expresso “A Beleza das Pequenas Coisas”, assinado pelo jornalista Bernardo Mendonça, a atriz Rita Blanco confessou que aquele filme tinha sido muito duro, que a personagem a tinha deixado zangada com a vida, mas que ainda assim tinha sido o seu melhor trabalho. A Rita foi incrível a interpretar Sara, uma mulher amarga e fria. Não posso deixar de referir que a dinâmica entre as personagens das atrizes Anabela Moreira e Madalena Almeida é o coração pulsante do filme. Uma relação mãe-filha profundamente degradada, mergulhada numa atmosfera pesada e de uma violência psicológica constante. Considero esta obra cinematográfica uma das melhores de João Canijo, que recebeu o Urso de Prata no Festival de Berlim, em 2023, pelo filme “Mal Viver”. Foi um dia de festa para o cinema português, mas também europeu.
A longa-metragem chegou a ser candidata de Portugal a uma nomeação ao Óscar de Melhor Filme Internacional da 96ª Edição dos Prémios norte-americanos de cinema. Recebeu ainda o Prémio de Melhor Realizador no Festival de Montevideo e o Grande Prémio e o Prémio do Público no Festival de Las Palmas de Gran Canária, em Espanha. A nível nacional, na 13.ª edição dos Sophia, João Canijo recebeu o prémio de Melhor Realização e conquistou o de Melhor Filme. Anabela Moreira recebeu o Globo de Ouro de Melhor Atriz de Cinema, em 2024, pela sua participação na longa-metragem que também acabou por vencer o Globo de Ouro de Melhor Filme.
João Canijo deixou-nos dois filmes já rodados e que poderão estrear ainda este ano: “Encenação” e “As Ucranianas”. O argumento da peça que integra o filme, o texto “As Ucranianas”, é assinado por Manuel Altavilla, filho de João Canijo. O cineasta chegou a fazer um reconhecimento público da qualidade e do talento do filho para a escrita, depositando nele toda a confiança.
Portugal despede-se de um dos seus maiores mestres do cinema. João Canijo foi um grande cineasta e a sua marca na cinematografia europeia é imensa. Estará sempre connosco através da arte pela qual se bateu e se dedicou de corpo e alma, o cinema. Obrigado, João Canijo.
* Estudante de História (FLUC).
Siga o canal NotíciasdeAveiro.pt no WhatsApp.
Publicidade e donativos
Está a ler um artigo sem acesso pago. Pode ajudar o jornal online NotíciasdeAveiro.pt. Siga o link para fazer um donativo. Pode, também, usar transferência bancária, bem como ativar rapidamente campanhas promocionais (mais informações aqui).






