
O discurso de ódio não começa apenas em manifestações extremas ou em contextos de violência explícita. Muitas vezes, aparece em frases que se dizem com aparente naturalidade, como se não transportassem violência.
Por Maria José Vicente *
A EAPN Portugal / Rede Europeia Anti-Pobreza relança a campanha “O Discurso de Ódio Não É Argumento” no início da sua Semana da Interculturalidade 2026. Lançada originalmente em 2021, apresenta agora uma nova abordagem gráfica, uma nova frase e o envolvimento de várias figuras públicas de diferentes áreas da sociedade portuguesa.
Com assinatura do designer e artista urbano Miguel Januário, a campanha volta a responder a frases comuns de discriminação com um gesto simples: dar-lhes a volta. A ideia parte da expressão “dar a volta ao texto”, entendida como a capacidade de contrariar um argumento e devolver-lhe outro sentido. Neste caso, a campanha transforma frases marcadas pelo preconceito em respostas que afirmam dignidade e recusam a normalização do ódio.
A EAPN Portugal / Rede Europeia Anti-Pobreza trabalha todos os dias com pessoas e comunidades que continuam a enfrentar discriminação e desigualdade no seu quotidiano. Esta campanha nasce dessa realidade e procura intervir onde muita discriminação começa a ganhar espaço: na linguagem e na forma como certas mensagens se repetem até parecerem normais.
A campanha está alinhada com o trabalho da organização no combate à pobreza e à exclusão social, ao chamar a atenção para a forma como o discurso de ódio mina a convivência democrática e torna mais fácil excluir quem já está em posição vulnerável.
O discurso de ódio não começa apenas em manifestações extremas ou em contextos de violência explícita. Muitas vezes, aparece em frases que se dizem com aparente naturalidade, como se não transportassem violência. Ao responder a essas frases com firmeza e sem perder a humanidade, esta campanha procura desmontar preconceitos e afirmar que a dignidade humana não é negociável.
Mantendo a base conceptual da versão original, o relançamento de 2026 apresenta uma reformulação gráfica que reforça a presença visual da campanha e a aproxima do universo das redes sociais e das plataformas de mensagens.
As mensagens passam agora a surgir em blocos coloridos, visualmente próximos de conversas digitais, sublinhando a forma como muitos discursos discriminatórios circulam hoje no comentário rápido, na publicação partilhada ou na frase dita quase sem pensar.
Nas t-shirts da campanha, os balões surgem apontados em direções diferentes, sugerindo que a resposta é dada pela própria pessoa que veste a peça. A ideia é simples: transformar o corpo num lugar de posicionamento público.
Seis frases para responder ao preconceito
A campanha passa agora a reunir seis mensagens:
• “Se vêm para cá têm é que respeitar e ser respeitados.”
• “Toda a gente sabe que o lugar da mulher é onde ela quiser.”
• “Faziam bem era se fossem trabalhar com ordenados dignos.”
• “Se tem algum jeito, uma pessoa ser aquilo que é.”
• “Vai mas é para a tua terra, aqui não há lugar ao racismo.”
• “Isto agora deve ser moda, amar quem se quer.”
O relançamento conta já com a participação confirmada de várias figuras públicas que vão vestir as t-shirts da campanha e ajudar à sua divulgação nas redes sociais, entre as quais António Raminhos, Ágata, Gustavo Carona, Chef Rui Paula e Jorge Gabriel.
Pensada para circulação digital, a campanha aposta numa linguagem direta, visualmente forte e facilmente apropriável, procurando chegar a públicos diversos e estimular a partilha espontânea.
Sabemos que hoje o preconceito também se espalha em formatos rápidos, visuais e altamente replicáveis. Era importante ocupar esse mesmo espaço com mensagens que contrariem a banalização do ódio e reforcem uma cultura de respeito.
Ao relançar “O Discurso de Ódio Não É Argumento”, a EAPN Portugal / Rede Europeia Anti- Pobreza reforça a necessidade de contrariar formas de discriminação que persistem no espaço público, nas redes sociais e no quotidiano, muitas vezes disfarçadas de opinião ou de humor. Mais do que responder a frases ofensivas, a campanha procura afirmar uma ideia simples: o discurso de ódio não é debate, não é argumento e não pode ser normalizado.

* Coordenadora nacional da EAPN Portugal / Rede Europeia Anti-Pobreza. Mais informações.
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