O ChatGPT e o vinho

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A inteligência artificial (IA) está a ser cada vez mais utilizada na indústria do vinho para melhorar a qualidade e aprimorar a experiência do cliente.

* Por Paulo Amorim *

O ChatGPT ajudou a produzir o primeiro vinho de lote com IA do mundo, no Languedoc (França), um vinho orgânico com uvas Grenache e Syrah, colheita de 2021. A plataforma sugeriu um blend de 60% de Grenache e 40% de Syrah, a utilização de uma garrafa tipo Borgonha e um preço entre 50 e 100 euros.

A inteligência artificial (IA) está a ser cada vez mais utilizada na indústria do vinho para melhorar a qualidade e aprimorar a experiência do cliente. Desde prever a qualidade do vinho até recomendar a garrafa perfeita aos clientes, a IA está a revolucionar o negócio.

Uma das principais formas pelas quais a IA é usada na indústria do vinho é por meio da análise preditiva. Ao analisar dados sobre qualidade do solo, clima e variedades da uva, os algoritmos de IA podem prever a qualidade do vinho produzido numa vinha específica. Isso permite que os produtores tomem decisões mais informadas sobre quais as uvas que devem ser colhidas e como processá-las, levando a um produto final de melhor qualidade.

Muitos retalhistas e distribuidores estão a utilizar chatbots com IA para fornecerem aos clientes recomendações personalizadas, com base nas suas preferências de gosto, orçamento e ocasião. Os clientes podem simplesmente inserir as suas preferências e o chatbot sugerirá a garrafa de vinho mais adequada.

Outra aplicação da IA na indústria do vinho é por meio da tecnologia de reconhecimento de imagem. Os produtores de vinho podem usar IA para analisar imagens de uvas e monitorizar o seu processo de amadurecimento, permitindo otimizar o tempo de colheita para obter a melhor qualidade possível. Os retalhistas também podem usar a tecnologia de reconhecimento de imagem para identificar o tipo e a origem das garrafas de vinho, ajudando a prevenir fraudes e garantir a autenticidade. No geral, a IA está a transformar a indústria do vinho, permitindo que os produtores tomem decisões mais informadas sobre o cultivo da uva e a produção, além de melhorar a experiência do consumidor. A flutuação de preços dos vinhos de grande qualidade pode agora ser prevista com mais precisão, usando uma nova abordagem de IA recentemente desenvolvida. O método pode ser usado para ajudar os investidores a tomarem decisões mais informadas sobre os seus portefólios. Algoritmos de previsão de preços, semelhantes aos usados rotineiramente por outros mercados, podem ser aplicados aos vinhos.

Os produtores da Califórnia utilizaram IA desenvolvida por uma startup de software para os ajudar a recuperar uvas danificadas pelo fumo dos grandes incêndios florestais no estado. E já começa a ser implementado um sistema de deteção de incêndio baseado em IA. A maioria das pessoas não é especialista em vinhos e há muitas opções no mercado. Quando as pessoas entram num supermercado ou numa loja de bebidas e se deparam com uma parede assustadora de opções de vinhos, é fácil ficar perdido. Inserindo uma foto de uma garrafa de vinho nas aplicações já disponíveis, por exemplo, podem ver imediatamente as avaliações, verificar os preços e até mesmo fazer um pedido diretamente do telefone. Depois de experimentar o vinho, o cliente pode registar a sua própria classificação e notas de degustação e a aplicação adicionará essas informações ao seu perfil. O ChatGPT ajudou a produzir o primeiro vinho de lote com IA do mundo, no Languedoc (França), um vinho orgânico com uvas Grenache e Syrah, colheita de 2021. A plataforma sugeriu um blend de 60% de Grenache e 40% de Syrah, a utilização de uma garrafa tipo Borgonha e um preço entre 50 e 100 euros.

Um novo algoritmo escreve, sem nunca abrir uma garrafa, notas de vinhos que parecem ter sido ditadas por críticos humanos. Um sistema inovador facilita o acesso ao local ideal para instalar uma loja de vinhos, utilizando dados demográficos, psicográficos, de emprego, clima, crime, tráfego de veículos e muito mais. A realidade aumentada e a IA estão a impulsionar empresas de vinho em todo o mundo para um marketing futurista, que conecta de forma inteligente rótulos de vinhos com apreciadores. A tecnologia por trás da aplicação foi projetada para funcionar em qualquer rótulo, usando IA para digitalizar e reconhecer rótulos e realidade aumentada para mostrar a história do vinho, transmitindo-a de um espaço imaginário dentro e fora da garrafa. Por meio dessa tecnologia, o conteúdo de marca multimédia ganha vida, incluindo vídeos de passeios pelas adegas e pelas vinhas, notas de degustação, sugestões de harmonização de comidas ou retalhistas próximos, uma fanwall para cada rótulo de vinho e tradução automática dos textos.

Uma startup da Califórnia, que ensinou um computador a «provar» vinho, está a utilizar a tecnologia para ajudar os produtores a melhorarem os seus produtos e a atraírem novos clientes. Existe, no entanto, um outro lado da moeda. Os humanos são incrivelmente fáceis de manipular, de várias maneiras. “É como ter um computador a analisar uma obra de arte”, diz o responsável de um clube privado para amantes do vinho, em Londres. “Não sei o quanto as pessoas gostariam de seguir o que um computador lhes diz para beber, com base no que beberam anteriormente”, diz ele. “Acho que parte do apelo do vinho é formarem as suas próprias opiniões”. E tem toda a razão.

Solução? É apenas uma questão de identificarmos a diferença entre usos corretos e usos indevidos. A verdade é que a IA agregará valor aos produtores de vinho para um futuro da indústria mais eficiente, sustentável e seguro. A IA pode ajudar-nos muito no gravíssimo problema das alterações climáticas, que, a prazo, pode (vai) mudar completamente a atual geografia da produção de vinho no mundo. E a regulação é fundamental e urgente, pois a tecnologia não vai regular-se a si própria.

Existe um potencial à nossa frente que ainda desconhecemos. As máquinas extraem, recombinam e emulam a partir do trabalho do passado, do cruzamento de dados e de informações disponibilizadas por humanos, num ambiente de mimetismo; a criatividade pura estará no entanto (espero) sempre nas mãos dos humanos. Acredito que não vamos ser substituídos por IA, mas talvez por humanos que sabem utilizar IA. O risco de a IA destruir uma parte importante dos postos de trabalho hoje existentes é muito real (300 milhões, segundo previsões da Goldman Sachs), mas entretanto é provável que novos tipos de trabalho (que ainda nem imaginamos) possam vir a surgir.

Numa perspetiva otimista, quero acreditar que a IA é uma ferramenta nova, criada e usada por pessoas e não uma criatura nova que vai para além das pessoas e que acabará por ganhar vida própria e tornar-se mais inteligente do que nós. O desenvolvimento da tecnologia está a ser muito mais rápido do que o esperado. Nunca como hoje produzimos tantos dados e nunca como hoje esses dados foram tão explorados para gerar lucros para empresas, informação privilegiada para Estados e vantagens para cibercriminosos.

A Lei da Inteligência Artificial (AI Act), que está a ser traçada em Bruxelas desde 2021, será fundamental na questão das boas práticas. Mas a competição agressiva que grassa no mercado, com a China (que representa 75% das patentes e foge sistematicamente à participação nos fóruns internacionais que visam obter acordos globais sobre diretrizes) e os EUA à cabeça, pode levar à desvalorização de determinados riscos. As maiores empresas estão a ganhar demasiado poder e capacidade de influenciar os esforços regulamentares e argumentam que a regulação pode asfixiar a inovação; por outro lado, continuam com as mesmas práticas de sempre e utilizam os dados das pessoas sem qualquer obrigação associada, apesar das elevadíssimas multas que lhes são impostas. É por isso que alguns especialistas defendem a certificação versus a regulamentação / responsabilização.

* Presidente da direção da ANCEVE – Associação Nacional dos Comerciantes e Exportadores de Vinhos e Bebidas Espirituosas. Artigo publicado originalmente na Revista de Vinhos.

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