
Passada a ressaca de Aveiro Capital da Cultura 2024, fica a pergunta que ecoa pelos canais: o que resta quando o confeti assenta?
Por Fernando Albuquerque *
Tivemos um ano farto em agenda, mas há uma sensação latente de que as sementes lançadas à terra podem ter sido estéreis. A cultura não se faz apenas de eventos de calendário; faz-se de raízes. E é precisamente no momento em que a cidade tenta perceber o seu legado que assistimos à troca de guarda no Teatro Aveirense. Sai José Pina, o homem de Santa Maria da Feira que profissionalizou a “máquina”, e entra Leonor Barata, ex vereadora do executivo de Fernando Ruas em Viseu.
Esta sucessão levanta o véu sobre uma dúvida que a cidade não pode ignorar: a escolha de Leonor Barata prende-se com a sua reconhecida competência artística e cultural ou será apenas mais uma peça no tabuleiro de colocações partidárias? É uma pergunta legítima num setor que, em Aveiro, tem definhado sob o peso de uma centralização excessiva. Nos últimos anos, enquanto as luzes se focavam nos grandes palcos, o tecido artístico orgânico da nossa terra parecia asfixiar. Sem espaço, sem oxigénio e sem condições para florescer de forma autónoma, a produção local foi sendo remetida para um papel secundário.
O desafio que Leonor Barata tem pela frente é, por isso, de uma escala quase épica. Não se trata apenas de manter a bitola de festivais como o dos Canais, o Prisma ou o Dunas de São Jacinto — que precisam de crescer e de se renovar para não caírem na fórmula do “mais do mesmo”. O verdadeiro teste está na “obra dura”. O Quarteirão Cultural em Aradas, o futuro Museu da Bienal da Cerâmica, a reabilitação do Museu Santa Joana e o Conservatório Calouste Gulbenkian são frentes de batalha que exigem mais do que uma visão artística; exigem peso político e capacidade de execução.
Mas, acima de tudo, a nova diretora precisa de provar que a cultura em Aveiro pode ser descentralizada. Não podemos continuar a ter uma política cultural de “cima para baixo”, onde o município é o único programador e o único validador. É urgente devolver a cidade aos seus artistas, criar condições para que o setor privado e associativo recupere o vigor e que Aveiro deixe de ser apenas um “spot” de passagem para espetáculos itinerantes.
Se a transição de José Pina para Leonor Barata será um “downgrade” ou um novo fôlego, só o tempo dirá. Mas uma coisa é certa: os aveirenses não se vão contentar com mais cimento se não houver vida lá dentro. Precisamos que as sementes de que tanto se falou em 2024 comecem, finalmente, a dar fruto. Caso contrário, teremos museus novos e quarteirões modernos, mas uma alma cultural cada vez mais pobre e dependente do “cartão” de quem manda.
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