Arouca: “Não pretendemos ter um ‘micro Algarve’, um concelho que dependa em grande parte do turismo” – presidente da AECA

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Carlos Brandão, presidente da AECA.
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O presidente da Associação Empresarial de Cambra e Arouca (AECA) conta marcar presença na inauguração, este domingo, na inauguração da ponte pedonal suspensa ‘516 Arouca’, a nova atração do concelho que vem complementar os passadiços do Paiva, dando um novo impulso ao turismo de natureza, que tem conhecido um crescimento e notoridade com grandes reflexos na economia local .

Se tiver oportunidade de estar com a Ministra da Coesão Territorial, Ana Abrunhosa, que irá ‘cortar a fita’, Carlos Brandão não deixará de lembrar que há outras distâncias a encurtar entre as encostas serranas para tirar ainda maior potencial da industria da região, com peso relevante no sector metalomecânico. “Diria que não precisávamos da maior ponte do mundo, mas uma ponte razoável para passarmos. As pessoas veem isso”, referiu o empresário (Chatron) que há cinco anos lidera a associação empresarial dos concelhos de Vale de Cambra e Arouca sempre com a melhoria das ligações rodoviárias entre as reivindicações prioritárias, mas pouco ou nada atendidas pela administração central.

Ponte suspensa pedonal (Arouca).

NotíciasdeAveiro.pt: Depois dos Passadiços do Paiva, a maior ponte pedonal suspensa do mundo. Estes investimentos são determinantes para a afirmação de Arouca no turismo de natureza e garantem retorno económico relevante. Mesmo com uma pandemia pelo meio ?

Carlos Brandão: Os passadiços, na altura, foram uma novidade no turismo de natureza no País e veio a ser replicado. Tem uma singularidade, com a escadaria monumental, muito interessante, muito agradável, a juntar ao rio Paiva que era a nossa praia de infância e juventude.
Quando em 2014 se deu a conhecer o segredo ao mundo, arrastou atratividade, crescimento de negócios que não existiam, a restauração que era já muito boa alargou o seu espectro, surgiram os alojamentos.
A pandemia veio mostrar o que tem pés de barro, se há sectores pouco resilientes é um deles. A associação tem alertado os municípios para a importância de manter um sector industrial forte e se possível alargá-lo. Isso é importante para fixar a população, como para o desenvolvimento. Não podemos esperar que um sector só transforme toda a região. Sou conhecedor da área industrial e empresarial há muitos anos. Nós não pretendemos ter um ‘micro Algarve’, um concelho que dependa em grande parte do turismo. O benéfico é ter todos os sectores a contribuírem para a economia local, não nos interessa ter um turismo de massas em excesso, que possa danificar a natureza. Estamos atentos, temos associados do turismo que querem trabalhar mas não podemos matar a galinha dos ovos de ouro. Sei que não será assim, o bilhete tem já algum valor, ajudará nisso, para não estragar a experiência.

P- A experiência dos passadiços pode ajudar a evitar erros.

R- Quando os passadiços abriram aquilo era um excesso, começaram problemas nas deslocações, com os taxis, o território não permitia tanta afluência, depois melhorou bastante e agora com a ponte as coisas estão mais bem preparadas.
Tem aspetos muito positivos. Não somos adeptos de uma aposta única e exclusiva no turismo. Temos de equilibrar os sectores para ter um desenvolvimento do território.
A ponte irá consolidar os passadiços, não irá atrair maior afluência. Talvez um pico no início, mas depois manterá afluência, espera-se, de um cliente de classe média alta para manter as unidades ocupadas.
Os passadiços não beneficiaram só Arouca. A oferta de Arouca não é suficiente para alojamento necessário. As pessoas ficam em Oliveira de Azeméis, Vale de Cambra, no hotel de S. João da Madeira. Todo o norte da região de Aveiro beneficiou com os passadiços. Vieram muitos visitantes estrangeiros. Em Arouca, foi mais evidente na restauração e aparecimento de pequena empresas de animação turística.

P- Os problemas de saúde pública foram um forte abalo, fechar.

R- Em Julho e agosto do ano passado, mesmo em pandemia, a restauração e o comércio funcionaram bem. Depois, em agosto e setembro tivemos um foco local, antecipámos a segunda vaga, já foi difícil recuperar. Houve um período bastante mau, O Natal animou um bocadinho, mas veio o fecho.. Agora já há ânimo no ar, esperança que as coisas vão rapidamente voltar ao que eram em 2019. É a esperança de todos. Mas houve aqui um período negro. Já tínhamos vindo a alertar. Não podemos apostar apenas num sector.
Na indústria, tirando um caso ou outro, estivemos sempre a trabalhar. Muitas aumentaram a factura. A pandemia não afectou na parte económica. Notou-se na exportação para certos países, empresas que tiveram de fazer regressar equipas deslocalizadas. A produção foi afectada mas não por falta de encomendas. O desemprego felizmente não aumentou. Temos problemas, agora é de falta de mão de obra. Há um défice muito acentuado nesta zona toda.

Discurso direto

“O nosso sector principal é da metalomecânica, automação industrial, a carência de mão de obra é um disparate, não se arranjam especialistas. Temos de ter uma política de habitação e transportes para fixar as pessoas. Não há disponibilidade de pessoas para trabalhar”;

“Para o turismo as estradas são boas, quem vier para descontrair, não se importa se tiver mais 10 ou 15 curvas, o problema é para a indústria, as nossas empresas aço inoxidável, que fazem transportes especiais com grande dificuldade. Nisso o turismo não veio ajudar nada. Até fizemos um vídeo com dois camiões não passam um por outro. Quem vive cá e os empresários que investem é que sofrem na pele”;

“A estrada que precisamos ficava paga ao fim de meio ano, temos indústrias a facturar 300 milhões de euros na exportação, nas zonas industrias diretamente afectadas, Rossio, Lameiradas, Escariz. Se fosse uma estrada privada, as empresas pagavam. A ligação do Norte de Escariz à A32 só serve aquela zona, que é a mais pequena. Falta um troço de 4 km que não é nacional, para servir Rossio, Farrapa, Lameiradas e Mata. Estamos a lutar. Existe um centralismo muito grande, todo o dinheiro que vem é gasto nos grandes concelhos e aqui nem migalhas chegam.
Diria à ministra na inauguração da ponte que não precisávamos da maior ponte do mundo mas uma ponte razoável para passarmos. As pessoas veem isso.
Não temos esperanças de melhorar nos próximos tempos. Reclamámos por não serem contempladas as duas ligações que pedimos na ‘bazuca’.

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