Terminal de Granéis Líquidos do Porto de Aveiro.

Uma provocação sobre o declínio do movimento portuário nacional e a urgência de olhar para a economia real e para o hinterland como pilares da resiliência.

Por Luís Silva Lopes *

Desde 2017 que o volume total de carga movimentada nos portos comerciais do continente tem vindo a diminuir, descendo para 83,4 milhões de toneladas em 2023. A tendência é estrutural e não conjuntural. O que nos deve preocupar não é apenas a descida — é a ausência de uma reação coordenada e robusta.

E se o problema não estiver só nos portos?

1. Resiliência não é resistência. É adaptação

A ideia de resiliência ganhou popularidade com a pandemia, as guerras e a disrupção das cadeias globais. Mas há um erro recorrente: confundimos resiliência com resistência passiva.

Segundo a Gartner, apenas 21% das cadeias logísticas globais são altamente resilientes. A maioria não consegue reagir a tempo. Os líderes do setor sabem que a chave não está em resistir, mas em adaptar, antecipar e colaborar.

Isto aplica-se — com redobrada urgência — ao sistema portuário nacional.

2. O problema está a montante

Os portos, só por si, não criam carga — recebem-na. É na força da sua ligação à economia real e ao hinterland que se joga a capacidade de gerar movimentação estruturada e resiliente.

Indústrias que deslocalizam. Exportadores que optam por portos espanhóis. Logísticas que não compensam.

Em 2023, movimentámos menos 12 milhões de toneladas face a 2017. E no índice LSCI da UNCTAD, Portugal registava 183,11 pontos, contra 426,12 de Espanha.

A nossa posição relativa está a degradar-se. A pergunta que se impõe: o que estamos a fazer para inverter esta trajetória?

3. A Estratégia Portos 5+: ambição no papel, mas e na prática?

A estratégia “Portos 5+” aponta metas claras: aumentar em 50% o volume de carga movimentada até 2035, reforçar a integração hinterland–foreland, recuperar carga desviada e elevar a atratividade internacional.

Prevê também a criação de um grupo de trabalho para propor uma nova estrutura de governação portuária. Um passo importante — porque, para responder aos desafios atuais, talvez seja mesmo tempo de reavaliar o modelo de organização do setor, de cima a baixo.

4. O hinterland não é retaguarda — é a frente estratégica

Discutem-se terminais, mas devemos colocar também no centro do debate as plataformas logísticas interiores — públicas ou privadas.

Investem-se milhões em infraestruturas marítimas, mas é urgente focar também na atração de indústrias que produzam carga estrutural para exportação. Essa sim, é a verdadeira resiliência das cargas portuárias.

Talvez o segredo da resiliência não esteja apenas na ponta do cais, mas no que acontece longe do porto.

Reforçar o hinterland é reforçar a capacidade do país de gerar, reter e valorizar os seus fluxos logísticos.

5. De corredores isolados a visão coletiva

Cada porto continua — e bem — a fazer o seu caminho. Mas talvez seja tempo de deixar de correr sozinho.

O desafio está em articular esforços numa visão nacional coordenada que projete Portugal como país-logístico unido, capaz de atrair novas cargas estratégicas.

A estratégia Portos 5+ antecipa colaborações atlânticas com o Brasil e com os países africanos de língua portuguesa.

Mas por que não ir mais longe e propor uma aposta geoestratégica na América do Sul, na África Austral, no Mediterrâneo Oriental?

Afinal, num mundo que reconfigura rotas, Portugal pode ser mais do que um terminal atlântico: pode ser um parceiro logístico coerente, previsível e competitivo.

6. Conclusão (sem conclusão)

Este texto não tem respostas. Não pretende ditar soluções. Apenas partilhar perguntas que merecem ser pensadas em conjunto. Porque talvez a pergunta mais difícil seja esta: Será que ainda vamos a tempo de construir um hinterland que sustente a ambição dos nossos portos? Eu acredito que sim. É só querermos.

* Artigo publicado originalmente no site Transportes & Negócios.

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