Madeira reciclada apoia economia circular, a base de um futuro sustentável

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Madeira reciclada.
Comercio 780

A incorporação de taxas crescentes de madeira reciclada nos produtos que dependem deste material da floresta é um fator de competitividade para as empresas do sector, um contributo para um modelo económico circular mais sustentável e uma solução para prolongar a retenção de carbono.

Por Adelaide Alves *

Os desafios económicos representam um sinal urgente de uma tendência global e estrutural caracterizada por uma procura crescente de materiais que estão disponíveis numa quantidade limitada no nosso planeta. Ao contrário do que muitos possam pensar, este é um problema que ultrapassa em larga escala os impactos da pandemia e da guerra na Ucrânia.

À medida que o crescimento populacional e o desenvolvimento industrial e tecnológico continuam a acelerar, os recursos finitos do planeta estão sob uma pressão cada vez mais acentuada. Entre eles, encontram-se os materiais naturais, como a madeira que, ao aliarem importantes credenciais ambientais e de performance técnica, são de enorme importância na mudança de paradigma para um modelo económico mais sustentável.

Nesse sentido, o modelo tradicional de economia linear – de acordo com o qual os materiais são extraídos, fabricados, utilizados e, depois, eliminados, há muito que deixou de ser sustentável.

Hoje, transitar para modelos de economia circular, nos quais os materiais são reutilizados e reciclados, diminuindo o volume de resíduos, é imperativo não só para assegurar a estabilidade do desenvolvimento económico e a competitividade das empresas, mas, acima de tudo, a sustentabilidade do planeta que habitamos. É que a utilização de recursos está também associada às emissões de Gases com Efeito de Estufa (GEE), sendo a economia circular um aliado chave para reverter esta situação, simultaneamente reduzindo as emissões e combatendo as alterações climáticas. Não há outro caminho. Os negócios que não tiverem esta premissa tornar-se-ão, aos poucos, insustentáveis, e as respetivas empresas, obsoletas.

Lamentavelmente, os dados globais mostram que ainda há um longo percurso a fazer. Entre 2018 e 2020, a taxa de circularidade diminuiu de 9,1% para 8,6%, de acordo com o “The Circularity GAP Report 2023”. Esta tendência negativa é causada pelo aumento do consumo, mais de 8% ao longo dos últimos cinco anos, que contrasta com os dados da reutilização, cujo crescimento se limitou a 3% – comprovando que é cada vez mais premente passar para modelos de economia circular – modelos em que os materiais são mantidos em uso durante o maior tempo possível, e os resíduos são minimizados, reduzindo o impacto ambiental das operações.

Sendo que o desafio é grande, a verdade é que temos, a partir de Portugal, alguns dos melhores exemplos de economia circular, sendo um deles o da Sonae Arauco. No nosso modelo, que é um dos pilares do modelo de negócio da empresa, a madeira é a base da cadeia de valor do processo produtivo, que se inicia com a utilização de matérias-primas de origem certificada ou de origem controlada, que incorpora subprodutos da indústria da madeira e que, numa abordagem circular, fecha o ciclo com a reutilização e reciclagem de derivados de madeira, que são posteriormente utilizados na produção de soluções de madeira de valor acrescentado, mantendo este material a circular. Este é um ciclo virtuoso, sendo que a madeira reciclada pode reintegrar o processo inúmeras vezes.

Acresce que, além de ser reciclável, a madeira é uma matéria-prima com uma notável capacidade de armazenar CO2, apresentando-se como uma ótima alternativa face a materiais de origem fóssil. A reciclagem da madeira é, por isso, um aliado na competitividade do negócio e uma resposta efetiva ao desafio das alterações climáticas, na medida em que ao estendermos o ciclo de vida do material, estamos também a assegurar a sua capacidade de reter CO2.

Na Sonae Arauco, fomos pioneiros no modelo de economia circular e, desde a década de 90, que temos vindo progressivamente a implementar melhores práticas, que nos possibilitem valorizar cada partícula de madeira que recebemos nas nossas unidades industriais.

Neste âmbito, desempenham uma enorme importância os 11 centros de reciclagem de madeira que temos na Ibéria, através dos quais promovemos a recolha e reintegração em processo produtivo de madeira usada, desde paletes a embalagens, móveis, portas, resíduos de construção, entre muitos outros. Para além disso, o sistema também aproveita e valoriza subprodutos da indústria, como os costaneiros, o serrim ou a estilha.

No entanto, a estratégia para alavancar a madeira reciclada contempla ainda melhoria contínua dos nossos centros de reciclagem, com processos de última geração, a procura de novas fontes de abastecimento, e a integração em projetos de I&D e inovação que visam, a médio prazo, estender a nossa capacidade de integrar mais madeira reciclada.

Tudo alinhado com o que é a essência da Sonae Arauco, e com o objetivo de dar resposta à nossa estratégia – ambiciosa – de elevar, em algumas das nossas gamas de produto e no próximo triénio, a incorporação de madeira reciclada até 85%. Desta forma, asseguramos uma valorização contínua desta matéria-prima – desde a origem ao produto: adquirimos apenas madeira de origens geridas de forma sustentável e cuidadosamente controladas e desenvolvemos soluções com madeira reciclada, que retêm o carbono capturado durante a sua utilização e que podem ser eficazmente recicladas no final do seu ciclo de vida, renovando-se e reinventando-se repetidamente.

Ou seja, quanto mais vezes reciclarmos a madeira, mais seremos capazes de estender a retenção de carbono associada a este material natural. E assim, com um modelo de economia circular e uma visão de longo-prazo, utilizamos eficazmente um recurso tão valioso como a madeira, reduzimos a pressão sobre as florestas e damos um contributo claro para a construção de uma vida melhor, um futuro melhor e um planeta melhor.

Sendo a economia circular um ponto-chave na transição para o novo modelo económico, urge continuarmos a olhar para as florestas como o maior e melhor recurso para o desenvolvimento sustentável. As florestas e as indústrias de base florestal são parte integrante e indissociável da resposta ao desafio das alterações climáticas. Considerando apenas as florestas europeias, estima-se um efeito positivo global de cerca de -806 milhões de toneladas de carbono, resultado das quantidades capturadas anualmente, o que corresponde a 20% de todas as emissões de origem fóssil da União Europeia.

Pode parecer quase um contrassenso, mas os grandes desafios da humanidade obrigam a que olhemos com maior atenção para a Natureza e todo o seu potencial.

* Diretora de Investigação e Desenvolvimento da Sonae Arauco, sendo responsável pela área de Inovação de produto. É licenciada em Engenharia Química pela Universidade de Coimbra. Artigo publicado originalmente no site Florestas.pt.

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