‘Garrafa circular’: Reutilização de garrafas de vinho promete poupar milhões aos produtores

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Linha de lavagem e enchimento de garrafas de vidro.

Falamos de uma organização que nasceu na Bairrada e apresenta ao mercado dos vinhos um processo inovador e agregador de reciclagem de garrafas, com foco na reutilização, poupança de recursos e de dinheiro, sem qualquer perda de qualidade e um processo logístico simplificado.

Por Pedro Pinto Figueiredo *

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A iniciativa ‘Garrafa Circular ‘visa promover a circularidade das garrafas de vinho após cada utilização, sem número máximo de reutilizações, num processo logístico simples e incomparável, com valor acrescentado para as partes nele diretamente envolvidas – produtores de vinhos e revendedores. Promete poupar milhões de euros aos produtores vinícolas que se associarem ao movimento e também gerar receitas extraordinárias aos revendedores, enquanto poupa recursos ao planeta e corta na poluição.
O objetivo desta organização é promover e incentivar a responsabilidade ambiental e a sustentabilidade no que diz respeito ao desperdício de vidro no setor vinícola. Em todo o trajeto das garrafas, desde a sua produção ao consumo e consequente desperdício, conseguimos com esta iniciativa economizar recursos incalculáveis ao mesmo tempo que geramos liquidez nas empresas associadas.

Num estudo prático recente analisaram-se os critérios estéticos na reutilização de garrafas com rótulos comuns, e definiu-se que o ideal seria executar sete ciclos de lavagem exterior em estações de lavagem, ou seja, até oito reutilizações. A iniciativa ‘Garrafa Circular’, ao garantir a não utilização de cápsulas e a utilização de rótulos destacáveis e de remoção fácil, assegura um muito menor desgaste exterior, promovendo assim um número de reutilizações muitíssimo maior e consequentemente um ciclo de vida da garrafa bastante mais longo. A explicação é simples, mas requer um enquadramento.

Produzir vidro é um processo que obriga a um consumo energético muito elevado, quer na fusão dos materiais, quer no processo de recozimento e acabamento, e com impactos severos no meio ambiente. A sua produção gera também gigantescas emissões de gases poluentes, como dióxido de carbono e óxido de nitrogénio, que contribuem para o aquecimento global e para a poluição atmosférica.

A reutilização de uma garrafa de vidro, apenas cinco vezes, permite reduzir o impacto ambiental global em mais de um terço comparando com garrafas de utilização única. Poupamos recursos e diminuímos a pressão no ecossistema. Todavia, os benefícios vão muito para além do ambiente. A reutilização de embalagens também traz benefícios gerais para a sociedade e para a economia, incluindo redução de custos para os municípios (por exemplo, na limpeza urbana e na gestão de resíduos), criação de empregos locais e ainda múltiplas vantagens para o retalho e hotelaria, o que permite fomentar a lealdade, participação dos consumidores e oferecer-lhes, assim, uma melhor experiência. De facto, na maioria dos países europeus, as garrafas de vinho não são reutilizadas, o que torna crucial o desenvolvimento de iniciativas que permitam a implementação de sistemas de reutilização de garrafas no mercado.

Num estudo prático recente analisaram-se os critérios estéticos na reutilização de garrafas com rótulos comuns, e definiu-se que o ideal seria executar sete ciclos de lavagem exterior em estações de lavagem, ou seja, até oito reutilizações. A iniciativa Garrafa Circular, ao assegurar a não utilização de cápsulas e a utilização de rótulos de remoção fácil, promove a ausência de desgaste exterior, garantindo assim um ciclo de vida mais longo e um número de reutilizações muitíssimo maior.

O ciclo logístico desta operação é simples e operacionalizado em exclusivo pelos parceiros associados ao movimento Garrafa Circular. Inicia-se no produtor de vinhos, segue para o grossista ou retalhista, e após o consumo faz a viagem de regresso para o produtor.

Começamos com os modelos de garrafas compatíveis, visto ser necessário uniformizar a embalagem para que o processo corra bem. Utilizamos três referências de modelos de garrafas – bordalesa e borgonha para vinhos tranquilos, e champenoise para vinhos espumantes – obedecendo cada um desses modelos a medidas uniformes.

Lavar garrafas dá muito trabalho? Normalmente dá. Precisamente por isso, decidimos acrescentar valor a esta ideia e desenhar um protótipo de rótulo completamente destacável, produzido com bioplásticos e cola orgânica, com o selo de garantia Garrafa Circular. Assim, garantimos que quando a garrafa é devolvida ao produtor, o único trabalho extra que este tem de executar é destacar o rótulo e colocar a garrafa de novo na linha de enchimento, que assegura a lavagem e a esterilização interior. Antes disso, já o grossista ou retalhista parceiro, quando recebeu a garrafa do consumidor, executou a sua parte do ciclo de reutilização, garantindo a passagem por água interior e exterior das garrafas e o seu acondicionamento.

Quanto ao acondicionamento por parte dos revendedores parceiros, decidimos também inovar e simplificar, pois nem todos dispõem de espaço de sobra, por muito boa vontade que tenham. Acrescentámos valor ao desenhar um protótipo de palete, construída exclusivamente com recurso a bioplásticos, com metade do tamanho de uma palete normal e capacidade para 200 garrafas. Além de garantir que todos os parceiros têm o mesmo instrumento de acondicionamento, o que uniformiza as operações e a logística de transporte, garante também a estanquicidade, a proteção e a limpeza das garrafas até que regressem ao produtor.

A iniciativa ‘Garrafa Circular’, enquanto organização, desempenhará uma função essencial para que tudo isto aconteça, ou seja, é responsável por todo o processamento da logística – transportes, inventários, pagamentos e contactos regulares com todos os parceiros.

A questão que nos deixa a pensar: “Afinal de contas, o que é que cada uma das partes envolvidas ganha com este processo?”. A resposta é animadora. O produtor gera mais liquidez pois irá comprar as garrafas reutilizadas a metade do preço de mercado, que é revisto trimestralmente. O revendedor e a organização Garrafa Circular dividem esse valor ao meio, e todos ganham com o seu trabalho.

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Exemplificando: se o preço de mercado da garrafa Borgonha nova é 0,60€, o produtor paga o retorno da garrafa a 0,30€, sendo que desse valor, metade (0,15€) reverte para o revendedor e a outra metade (0,15€) reverte para a Garrafa Circular. Um denominador comum a todos os parceiros é a associação a uma causa que protege o planeta e os seus recursos e promove a sustentabilidade e a circularidade do setor.

Portugal é o país do mundo que consome mais vinho per capita e o consumo tem vindo a aumentar de ano para ano. Os dados da OIV – Organização Internacional da Vinha e do Vinho, revelam que, em média, cada português consome 51,4 litros de vinho por ano, o que representa 72 garrafas. Se retirarmos a estes valores o consumo de vinhos embalados em bag-in-box e outros formatos, podemos afirmar que se consomem anualmente em Portugal entre 400 a 600 milhões de garrafas de vinho. É um facto não falamos de valores concretos, falamos de estimativas, mas de qualquer das formas é muito vidro, muita energia e muita poluição. É certo que a indústria do vidro em Portugal representa milhares de postos de trabalho, mas não é por esse fator que vamos deixar de apostar na sustentabilidade e na economia circular dentro do setor vinícola.

Nesta primeira fase estamos a sensibilizar, a verificar e a registar todos futuros parceiros e partes interessadas. Produtores vinícolas, grossistas, retalhistas, transportadoras, autarquias e consumidores. Terminados os protótipos e angariados os primeiros parceiros, vamos avançar. Tenho plena consciência de que tudo o que envolve processos de economia circular abarca questões logísticas complexas e algumas mudanças nas organizações. Mas, também a consciência de que o nosso mundo precisa de se tornar mais sustentável em áreas críticas como a gestão de recursos, faz com que a inteligência do ser humano ultrapasse e facilite toda e qualquer dificuldade.

Devemos fazer os possíveis para evitar que estas embalagens se tornem resíduos. O vidro é 100% reutilizável e 100% reciclável no final do seu ciclo de vida, e para promover reutilizações constantes e sustentáveis, chega ao mercado a ‘Garrafa Circular’.

* Empresário da região da Bairrada (cerveja artesanal, vinhos, restauração). Mentor do projeto ‘Garrafa circular’. [email protected]

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