Experiências teatrais

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Récita de 8 de Abril de 1954. Peça de teatro "A Sonata" de Chagas Roquete. Da esquerda para a direita Raul Mira, Diamantino Dias e José Loureiro.
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Durante os meus cinco anos de estudante universitário, três em Aveiro e dois em Coimbra, esturriquei as pestanas a estudar. Nos oito em que frequentei o Liceu de Aveiro, pouco ou nada olhei para o interior dos compêndios escolares.

Por Diamantino Dias *

Assim, tive imenso tempo para me dedicar a actividades circum-escolares, principalmente nos últimos três anos. Inscrevi-me em várias modalidades desportivas da Mocidade Portuguesa, incluindo o Montanhismo, que nunca chegou a funcionar, integrei a equipa de Basquetebol do Liceu e representei o Centro de Xadrez Nº 3, em vários torneio disputados em Aveiro e no Porto.

Estive em acampamentos, começando por um no Olho de Água, quando ainda andava no 2º ano, e nos pinhais de Mira. Mais tarde e já na Milícia, acampei no Buçaco, na Maceira do Liz e em São Jorge da Batalha.

Feitas as contas, creio poder afirmar que rentabilizei largamente os 20 escudos (€ 0,10) que os meus pais tinham de pagar, no acto da matrícula, para eu pertencer, obrigatoriamente, a essa Instituição.

No que respeita às actividades que usualmente monopolizam a denominação Cultural – então o Desporto também não é Cultura?! –, para além de fazer umas versalhadas para ganhar dinheiro para o tabaco, dediquei-me, como o título indicia, ao Teatro estudantil, acções de que seguidamente farei uma breve resenha.

Fui co-autor dos textos dos Actos de Variedades intitulados “Os Companheiros da Desgraça”, paródia aos “Companheiros da Alegria”, das Récitas de Finalistas de 1953-54 e 1954-1955.

Na Récita de 1953-54, na 1ª Parte, denominada “Figuras Vicentinas” e com arranjo do Reitor Dr. José Pereira Tavares, desempenhei o papel, escolhido a dedo, de “Preguiçoso”, entrando em cena a dizer: “Não há aí favo de mel mais doce do que a preguiça. É mais desenfadadiça que bom pomar ou vergel…” (Para minha boa surpresa, constatei que, hoje, dia 19 de Julho de 2021, me recordo de uma coisa que tive de dizer, na noite de 8 de Abril de 1954.) Na 2ª Parte, fui o Conde de Azinhais, na peça de Chagas Roquete “A Sonata”. Na 3ª Parte, bailei a Dança dos Pauliteiros de Miranda.

Em Dezembro de 1954, realizou-se um “Sarau Comemorativo do 1º Centenário da morte de Almeida Garrett”, elaborado e realizado por alunos do Liceu de várias gerações. Entrei na peça “O Alfageme de Santarém”, no papel de Mendo Pais.

Na Récita de 1954-55, fui o 1º Locutor do Acto de Variedades e Contra-Regra das peças que constituíram as duas primeiras partes do espectáculo: “Entre a Flauta e a Viola”, de Camilo Castelo Branco e “Uma filha para dois pais”, de José da Câmara Manoel.

Aliás, na primeira destas peças, aconteceu uma peripécia relacionada com a contra-regragem, a qual vou contar, por ser curiosa e ter graça – agora, na altura não teve piada nenhuma, pois não ganhei para o susto. O enredo era simples e comum: uma jovem (a  Eneida) e dois apaixonados; um tocador de flauta (o Mendes) e outro de Viola (o Parracho). A certa altura, os dois resolviam fazer uma serenata à mulher amada, sem saberem um do outro.

O da viola, que tinha sido escolhido para o papel, porque sabia tocar o instrumento e tinha uma voz romântica que lhe permitiu, mais tarde, fazer parte da “Orquestra de Tangos da Universidade de Coimbra”, era o primeiro a entrar em cena e cantou os seguintes versos de Camilo, com música do nosso professor de Canto Coral, José Queirós:

Eu na Póvoa descansado
Já não sentia desvelos,
Eis que surge o anjo amado
E eu a sigo até Barcelos.

Acorda menina,
Não durmas agora,
Enquanto se fina
De dor quem te adora.

O pretendente seguinte era o Mendes que, sendo um tenor solista na melodia do paleio e maestro na arte do engate, de flauta não percebia nada. Assim, estava previsto que um músico tocasse o respectivo solo, entre-cenas; era ele o senhor Severino, maestro da Banda do Internato Distrital, Instituição de que era Prefeito. Momentos antes da entrada em cena do serenatista da flauta, apercebi-me de que o músico a sério não estava no sítio previsto. Não sabendo o que fazer, chamei o senhor professor Simão, ensaiador vitalício de todos os espectáculos do Liceu, e comuniquei-lhe o que se passava. Pensou um momento, disse-me para dar entrada ao Mendes e dirigiu-se apressadamente para a traseira da porta, diante da qual seria simulado o solo de flauta, já que o cenário não tinha janela. Eu fui atrás dele, em pânico, e o Mendes, sem saber de nada, chegado ao local previsto na marcação, sacou da flauta desmontável, do bolso interior da batina, começou a enroscá-la e levou-a aos lábios. Entretanto, o senhor Simão tinha entreaberto a porta e preparava-se para executar um solo de assobio, para substituir o do instrumento em falta, quando se ouviu uma flauta tocar a melodia prevista, que pensei provinda do Céu, em resposta às minhas súplicas. Explicação bem mais profana: o senhor Severino tinha tido um acidente de trânsito e estava com problemas de mobilidade, pelo que já se encontrava no fosso da orquestra, onde deveria actuar na 3ª Parte, preenchida por um Acto de Variedades que, a crer no programa, era constituído por “Bailados + Canções + Paródias + Alegria”.

Em 1954 ou 1955, realizou-se, no Teatro Aveirense, tal como todos os outros espectáculos até aqui referidos, um Sarau de Homenagem a Eça de Queirós, do programa do qual constava uma adaptação do conto “O Tesouro”, cuja personagem principal, Rui de Medranhos, era desempenhado pelo atrás referido professor primário, José Duarte Simão. Eu era, mais uma vez, o Contra-Regra.

O cenário representava uma paisagem de montanha: um pano de fundo, várias pernadas, alguns repregos a simular os rochedos e outras asperezas do terreno e, na esquerda baixa, uma fonte com um mecanismo que permitia à água correr sem parar em circuito fechado. Na cena final, depois de ter matado o irmão Rostabal, cujo cadáver jazia junto à nascente, Rui agonizava, perto da arca do tesouro, depois de ter bebido o vinho envenenado que tinha sido trazido da aldeia pelo outro irmão, Guanes, entretanto assassinado por Rostabal.

Eu estava agachado atrás de um dos repregos, a fim de dar sinal para que o pano de boca fosse fechado, mal a personagem morresse. Mas o senhor Simão, nas vascas da morte, estava entusiasmado e nunca mais morria. Caía, levantava-se, tombava de novo, rastejava, soltando gritos, gemidos e imprecações e, quando parecia que tinha dado o último ai, voltava ao princípio, alterando totalmente o que tinha sido feito nos ensaios. A certa altura, quando caiu perto de mim, pareceu-me que tinha sido de vez e perguntei-lhe baixinho: “O senhor Simão já morreu?” Lançou-me um olhar furibundo e sussurrou: “Não.” Passado um pouco, caiu, de novo, virado para mim, e disse: “Já.” Dei sinal ao senhor Álvaro e a cortina correu, debaixo de uma estrondosa ovação que, por certo, me livrou de levar um raspanete.

Estas participações em espectáculos teatrais levaram-me a estabelecer uma grande e duradoura amizade com o senhor Belmiro Fartura, Fiel do Teatro Aveirense e considerado, por muito boa gente, como o melhor carpinteiro de palco do País. Um dia, perguntou-me se eu queria ir ver um espectáculo de revista com a Ivone Silva, cujo título, se a memória me não falha, era “Ó Zé aperta o Laço”. Aceitei de imediato, por várias razões: gostava de Revista; a Ivone era uma grande artista; a minha magra semanada não me permitia comprar bilhetes de teatro, nem para o segundo balcão, vulgo galinheiro. A minha entrada gratuita dependia de três coisas: tinha de ir de capa e batina (não tinha, mas pedi o trajo emprestado); era necessário outro estudante (foi o Zé Luís Christo); e tínhamos de mandar duas bocas, em momentos combinados, a que a Ivone responderia com uns versos.

De posse dos bilhetes e tendo-nos sido dito qual o momento em que deveríamos intervir, o Zé Luís sentou-se a meio da sala, do lado esquerdo e eu do lado contrário. Na altura combinada, o meu condiscípulo levantou-se e deu a sua deixa, a Ivone respondeu em verso e a assistência riu. Quando chegou a minha vez, as coisas passaram-se de igual maneira. Aconteceu, porém, que, à minha frente, estava sentado o senhor Aurélio Costa, pessoa idosa, funcionário da Câmara Municipal, sempre impecavelmente vestido, antigo membro do Grupo Cénico do Clube dos Galitos, que agia, gesticulava e falava como se estivesse permanentemente a contracenar com a Dona Amélia Rey Colaço, nos anos 40, o qual sussurrou, de maneira a que meia sala ouvisse: “Estes fedelhos, estes estudantes a quererem meter-se com uma artista desta categoria.”

Pouco depois de ter saído do Liceu, escrevi, em colaboração com o meu amigo Jacinto Rebocho, o texto de uma revista para um grupo de teatro de Vilar, dirigido pelo companheiro da tertúlia do Café do Jardim, João Matias. Fui, também, ao CETA, quando esta colectidade utilizava as instalações da Banda da Amizade, então sediada na Rua Clube dos Galitos, para entrar num “casting”, para a peça “Gota de mel”, encenada por Jerónimo Ferreira de Matos, mas não gostei e não cheguei a participar, terminando, assim, quiçá, precocemente, a minha participação nos domínios da arte de que François-Joseh Talma foi um dos mais talentosos intérpretes.

Récita de 8 de Abril de 1954. Dança dos Pauliteiros (da esquerda para direita, em
primeiro plano Diamantino Dias, Vítor Faustino; ?; Carlos Vidal.
Em segundo plano José Loureiro; Joaquim Gafanha, ?, ?.

* Licenciado em Línguas e Literaturas Modernas, Estudos Portugueses e Franceses, Técnico Superior Assessor Principal da Câmara de Aveiro – reformado (página do autor em Aveiro e Cultura).

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