E se Einstein tivesse tomado Ritalina?

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Nenhum medicamento será capaz de resolver a complexidade que é o processo de comportamento, de atenção e aprendizagem das crianças.

Raquel Reis *

Se Einstein fosse hoje criança muito provavelmente seria diagnosticado com Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA).

Na escola, a sua criatividade e pouco interesse pelas matérias dadas nas aulas faziam com que tivesse dificuldade em concentrar-se e ficasse perdido nos seus próprios pensamentos. Era questionador, agitado… Naturalmente, como a matéria não lhe interessava também tinha dificuldade em memorizar. Estariam reunidas as principais condições para que lhe fosse prescrita Ritalina.

Nem todas as crianças são génios, é certo, mas atualmente muitas têm as mesmas características cognitivas e comportamentais de Einstein e são medicadas por esse motivo. Dão trabalho, questionam, são agitadas, viajam nos pensamentos, consideram a escola aborrecida, logo, não se concentram nem memorizam.

Se apesar destas características, Einstein se tornou o mais famoso e brilhante cientista da história, porque é que cada vez mais se medicam crianças com Ritalina para que “obedeçam aos padrões” estipulados pelo ensino, pelos médicos, pelos pais e pela sociedade? Porque motivo é tão importante “fazer parte do rebanho”, obedecer, tirar boas notas?

Com um sistema de ensino desadequado e pouco motivador (quer para os alunos, quer para os professores), onde as crianças independentemente das suas capacidades e interesses têm que “aprender” (memorizar) todos a mesma coisa e numa sociedade cada vez mais competitiva onde se valorizam mais as notas que o talento único e valores de cada criança, não é de estranhar o aumento do consumo de Ritalina.

As crianças desta geração, sujeitas a tantos estímulos, não conseguem aprender da mesma forma que as gerações anteriores. Passam várias horas por dia dentro de uma sala de aula, têm muitas atividades extracurriculares, tablets, telemóveis e televisão. São crianças que necessitam de um ensino diferente, que as cative, que seja mais prático, mais interativo, mais respeitador dos seus interesses e motivações.

Estima-se que em Portugal 23 mil crianças estejam medicadas para a Perturbação de Hiperatividade e Défice de Atenção (PHDA), condição que se caracteriza por sintomas de hiperatividade, impulsividade e falta de atenção.

As substâncias em questão são o metilfenidato (Ritalina, Rubifen e Concerta) e a atomoxetina (Strattera), estimulantes do sistema nervoso central de forma semelhante às anfetaminas, cujos efeitos não são suficientemente conhecidos em crianças até aos 6 anos de idade.

Por este motivo, André Silva, deputado do PAN, defende que muitos dos problemas detetados nestas idades “poderão ser normais e não associáveis a um diagnóstico de PHDA”, devendo ser priorizada a intervenção psicológica e proibido o uso destas substâncias a crianças menores de 6 anos.

As próprias bulas dos medicamentos referem que estes não se destinam a crianças com menos de seis anos, visto não estarem suficientemente estudadas a segurança e a eficácia.

Estas drogas aumentam de facto e a curto prazo a concentração, no entanto não há evidência científica que demonstre a existência de benefícios a longo prazo do uso destes medicamentos, quer na capacidade de aprendizagem, quer no comportamento. Muitos pais verificam, inclusive, que quando deixam de dar a medicação aos filhos o seu comportamento demonstra ser pior ao verificado antes de se ter iniciado a terapêutica.

Além disso, são conhecidos vários efeitos secundários sérios da medicação, (que constam na Bula), tais como perda de apetite, ataques de pânico, sintomas psicóticos ou maníacos, hemorragia cerebral, comportamentos agressivos, tiques motores e verbais, inchaço mamário e ereções involuntárias prolongadas e dolorosas em rapazes (necessitando por vezes de intervenção cirúrgica), alterações cardíacas e atrasos de crescimento.

Se há médicos que justificam a medicação com base num suposto defeito cerebral, detetado nos exames de imagem e diagnóstico destas crianças em alguns estudos, há igualmente médicos que condenam o uso destes medicamentos e afirmam que estes resultados são enganadores, pois uma vez que cérebro e comportamento estão interligados é natural encontrar alterações nos exames de imagem cerebral. O cérebro de crianças deprimidas também apresenta alterações o que não significa que tenham um defeito cerebral.

Vários estudos demonstram que intervenções não farmacológicas, tais como terapia cognitivo comportamental, são mais eficazes a longo prazo e não apresentam efeitos secundários.

Os problemas de comportamento e de aprendizagem podem ter variadas causas: ambiente familiar disfuncional, métodos de ensino pouco estimulantes, baixa inteligência emocional, falta de apoio da família, entre muitas outras. Todas estas questões, que só uma avaliação cuidada poderá compreender, devem ser trabalhadas, olhando-se para a criança como um ser único que necessita ser ajudada e compreendida.

É necessário entender que nenhum medicamento será capaz de resolver a complexidade que é o processo de comportamento, de atenção e aprendizagem das crianças. Estes processos necessitam de motivação, desejos e afetos.

Pensar que problemas comportamentais e de aprendizagem poderão ser tratados com comprimidos é deixar de questionar os métodos de ensino, a competição que a sociedade impõe e demite-nos a todos de procurar soluções mais seguras e mais respeitadoras da individualidade da criança.

Felizmente, Einstein nasceu numa época em que ainda não se medicavam crianças com Ritalina. As suas dificuldades foram ultrapassadas sem drogas e ganhámos um génio…


* PAN – Pessoas – Animais – Natureza – Aveiro