As “Vivências Aveirenses e Ficções” de Diamantino Dias

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Comercio 780

Não se fica o autor pelas grandes figuras, pois perpassa nestas páginas gente humilde que os mais velhos recordarão com saudade.

Por Luís Serrano *

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Conheci Diamantino Dias quando vim para Aveiro em 1975. Vi-o sempre como alguém preocupado com a sua cidade e também com a correção no uso da língua portuguesa. Estes dois temas, entre outros, serviram vezes sem conta para conversas intermináveis, intermináveis porque continuavam no dia seguinte, frequentemente enquadradas por uma tertúlia de professores (e não só) que se reunia, após o almoço, no café Palácio, a escassos metros do então Governo Civil.

Conhecer o passado, quer no que se refere a usos e costumes a nível regional, acontecimentos de caráter desportivo, folclórico ou outro constitui um termo de um binómio que se estabelece entre um passado próximo e um presente, representado pelas populações mais jovens. Trazê-lo à luz é um trabalho prestimoso. Aveiro ficará em dívida a Diamantino Dias. As suas crónicas, onde a imaginação bem humorada das ficções coexiste com o rigor posto na narrativa dos episódios, a que assistiu, capítulo este que faz deste livro, de cerca de 350 páginas, uma obra de consulta obrigatória para quem queira conhecer certos acontecimentos do “antigamente” de que a maioria das pessoas já se não lembra. Não se pode construir o futuro sem conhecer as histórias do passado. Como disse Manuel António Pina: “O país está entregue a gente sem memória, isto é, sem cultura” (Crónica, Saudade da Literatura, p. 372). O grande poeta e cronista faz, pois, depender a cultura da memória, pensamento que o autor destas linhas perfilha.

Um outro notável escritor de língua francesa, embora tenha nascido em Bruxelas, é Marguerite Yourcenar que em Les Yeux Ouverts, deixou escrito, de forma lapidar esta frase: Quando se gosta da vida, ama-se o passado porque ele é o presente tal como sobreviveu na memória humana. (Tradução minha). Não nos espantará, pois, que Diamantino Dias nos deixe palavras de mal escondida emoção sobre São Gonçalinho (padroeiro da festa mais popular entre os aveirenses e que mistura sentimentos religiosos com a dança dos mancos, exibição mais ou menos desbragada de um certo erotismo ancestral). Outros dos ícones de Aveiro são as marinhas e os barcos moliceiros (hoje transformados em veículos turísticos), motivos que não escapam aos olhos sempre atentos do autor.
Também a Feira de Março, que traz à cidade milhares de pessoas das redondezas, é um outro motivo de atenção.

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Os desportos, nomeadamente o andebol de que foi um dos primeiros praticantes em Aveiro e treinador durante longos anos, levam o autor a referir com saudade velhos tempos em que a prática desportiva era bem diferente da actual.  Não esquecem a Diamantino Dias grandes figuras de Aveiro como o parlamentar José Estêvão, uma das figuras cimeiras do liberalismo oitocentista. Mas não se fica o autor pelas grandes figuras, pois perpassa nestas páginas gente humilde que os mais velhos recordarão com saudade. Uma outra preocupação do autor foi lembrar a toponímia de antanho utilizada pelos habitantes, esclarecendo os motivos porque eram esses os nomes usados em vez dos que constavam nas placas identificadoras.

Algumas ferroadas políticas ocorrem aqui e ali (quer a nível nacional, quer a nível internacional) mas sem abusar desses temas pois que as várias televisões já nos servem esse manjar durante o dia inteiro. Por outro lado, alguns dos textos são pura invenção do autor que concede a si próprio a qualidade de ficcionista. Nessas ficções, Diamantino Dias dá largas à sua imaginação e fá-lo com gosto, pois fica sempre bem polvilhar a realidade com algumas fantasias que se não aconteceram, poderiam muito bem ter acontecido. Si non è vero…è ben trovato.

Há referências a S. Pedro, porteiro do Paraíso, reflexões sobre a covid que marcou, não só a população portuguesa mas também a mundial, e que deixou entre as gentes (pobres e ricas) um rasto de medo e morte. Ter-se-ia, porventura a tentação de denominar este labor, um trabalho jornalístico. Não entendo assim, pois Diamantino Dias foi colhendo pela vida fora aqueles acontecimentos que de algum modo o marcaram e um belo dia resolveu traduzir tudo isso num livro. O jornalista é o homem que está em cima do acontecimento e tem de cumprir um horário e preencher um certo espaço num qualquer periódico. São vidas diferentes, embora não opostas.

É claro que nem tudo nesta obra corresponde a uma atitude sisuda, de velho conselheiro. Pelo contrário, são muitas as vezes em que o autor exibe o seu sentido de humor, com piscadelas de olho ao leitor. Assim, como quem diz: pensavas que era a sério? Outras vezes, passa-se o inverso: isto não é brincadeira, foi mesmo assim que se passou; se tens dúvidas pergunta a fulano e a sicrano que ainda por cá andam e que de certo se lembram.

Creio, e com isto termino, que a redação e publicação desta obra seria sonho antigo do autor. Homem que iniciou a sua vida profissional quando tinha por formação académica o sexto ano dos liceus como então se chamava, fez parte daquele primeiro grupo que se matriculou na Universidade de Aveiro e onde iniciou o curso que viria a terminar na Universidade de Coimbra. Aproveito para relembrar aqui dois amigos que faziam essa corrida a Coimbra, semana após semana, para na Faculdade de Letras obterem a licenciatura em Línguas e Literaturas Românicas: o senhor Gouveia e o Joaquim Correia. Estou certo que os leitores desta obra se sentirão compensados pela leitura de textos que para alguns constituirá uma revisitação e para outros uma primeira abordagem da escrita, sempre rigorosa, do aveirense Diamantino Dias,

* Prefácio do livro “Vivências Aveirenses e Ficções” da autoria de Diamantino Dias que será apresentado no dia 9 de dezembro, pelas 15h, no Auditório do Turismo do Centro, em Aveiro.

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