A Internet, o novo coronavírus e a missão da UA

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Nesta altura em que se comemora o dia internacional da Internet, importa pensar sobre como a tecnologia não reflete nem apenas o pior, nem apenas o melhor de nós próprios, mas contribui para refletir e amplificar, porventura mais do que imaginaríamos, quem somos, aquilo em que acreditamos e o que fazemos.

Por Luís Pedro *

O dia 17 de maio é o dia internacional Internet. A presença ubíqua dos serviços da Internet nas nossas ações diárias é, no âmbito académico, um dado praticamente adquirido nos últimos 20/25 anos. Qualquer um de nós recorre a estes serviços para objetivos de entretenimento, investigação ou até de socialização.

Até ao final de fevereiro deste ano, porém, a utilização geral dos serviços da Internet para apoio ao processo de ensino-aprendizagem em Portugal era bastante tímida, até conservadora.

Os dados dos estudos realizados em Portugal neste âmbito revelavam que, por exemplo, as plataformas de apoio ao processo de ensino-aprendizagem eram usadas, fundamentalmente, como um repositório de conteúdos, como uma forma simples, segura e institucionalizada de broadcast de anúncios e, em poucos casos, como um local para a dinamização de fóruns de discussão que tendiam, no entanto, na sua grande maioria, a não fomentar uma interatividade relevante e consequente no desenvolvimento de competências por parte dos estudantes.

Contudo, a emergência da pandemia provocada pelo novo coronavírus em meados de março veio obrigar, de forma repentina, a uma utilização massiva de aplicações e serviços baseadas em Internet para o prosseguimento do processo de ensino-aprendizagem.

Assim, de um momento para o outro, para além da utilização tímida que uma parte significativa da academia fazia destes serviços, surgiu a necessidade de recorrer a estas aplicações e serviços para comunicar de forma efetiva com docentes e estudantes confinados em suas casas e dar continuidade à missão primeira da Universidade: “criar, compartilhar e aplicar conhecimento, envolvendo toda a comunidade através do ensino, da investigação e da cooperação com o meio envolvente”.

Dois meses volvidos pode-se dizer com alguma segurança que a possibilidade de manutenção do processo de ensino-aprendizagem apenas com uma pequeníssima interrupção só foi possível porque, por um lado, se conjugaram vontades e esforços de docentes, estudantes e TAGs mas, por outro lado, porque se conseguiu garantir a presença constante e, uma vez mais, ubíqua, das aplicações e serviços da Internet.

E foi esta infraestrutura de base e a possibilidade de usar, de forma transparente e objetiva, as aplicações e serviços que correm sobre ela, que permitiu viabilizar os processos de comunicação entre docentes, estudantes, serviços e conteúdos, distribuídos geográfica e, muitas vezes também, temporalmente.

Esta infraestrutura e os serviços que ela viabiliza também permitiram que os esforços de investigação em todas as áreas e a partilha do processo de construção de conhecimento continuassem, apesar da distância que o confinamento implicou.

Estas evidências não pretendem, no entanto, impedir uma análise e avaliação críticas do que foi feito com recurso à tecnologia. Como se sabe, a tecnologia não é, desse ponto de vista, neutra. Ou seja, a tecnologia até pode ser fácil de usar e as aplicações e serviços da Internet deram um contributo inestimável a esse nível, mas a sua utilização veicula sempre as ideias e pressupostos de quem as usa. E é sempre possível usar tecnologia adequada de forma inadequada.

Nesse âmbito, a avaliação sobre o processo de ensino e aprendizagem e sobre o impacto na investigação que este período de emergência implicou será, necessariamente, realizada. E estou certo de que a avaliação, como acontece em tantas outras instâncias das nossas vidas, poderá ser utilizada também ela como uma forma de aprendizagem e não apenas como um processo de identificação do que correu mal.

Nesta altura em que se comemora o dia internacional da Internet, importa pensar sobre como a tecnologia não reflete nem apenas o pior, nem apenas o melhor de nós próprios, mas contribui para refletir e amplificar, porventura mais do que imaginaríamos, quem somos, aquilo em que acreditamos e o que fazemos.

Deste modo, teve de se tornar um aspeto natural das nossas vidas, a que recorremos sem pensar necessariamente muito acerca disso. Clay Shirky, um dos autores que mais estuda a Internet, dizia numa TED Talk em 2009 que a tecnologia só se torna socialmente relevante quando é tecnologicamente enfadonha, isto é, quando não precisamos de pensar nela para desempenhar, com naturalidade, as nossas ações diárias.

Em muitos aspetos da nossa vida isso já é assim. No processo de ensino-aprendizagem, embora em resultado de um acontecimento inesperado, passou a ser também assim? E no futuro, o que esperamos da Internet no cumprimento da missão da UA?

Luís Pedro, UA.

* Professor da Universidade de Aveiro e investigador da unidade DigiMedia. Centro de Investigação em Média Digitais e Interação / Departamento de Comunicação e Arte da Universidade de Aveiro. Artigo publicado originalmente no site UA.pt.

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